Legado de Tom Wolfe

Sobre o jornalismo que não se deixa diminuir

Wolfe: ensaios polêmicos, bem fundamentados e ousados
00:00 · 17.05.2018 por Dellano Rios - Editor de Área

Um dos incômodos que nós, jornalistas, enfrentamos é a repetição de uma máxima, misto de crítica e acusação, de que não somos especialistas em coisa alguma, de que falamos demais sobre o que não sabemos. Quando o interlocutor é mais gentil, ele desfere um adjetivo tão degradante quanto: seriamos generalistas. Quem vai por aí parece tomar as atividades profissionais e os campos do saber por um tipo de extrativismo.

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O trabalho de jornalistas como Tom Wolfe (1931-2018) ajudam a mostrar a fragilidade desta "crítica" - que, de tão precária, merece até vir entre aspas. Wolfe e a turma que, com ele, criou e praticou o então "Novo Jornalismo" escreviam bem. A afirmação pode parecer tola, de tão óbvia, mas é preciso destacá-la porque reside aí a ideia do que é o jornalismo. Trata-se de uma atividade intimamente ligada à linguagem, à construção de significados; e suas técnicas e saberes se concentram, justamente, na melhor e mais correta forma de fazer isso. Outra acusação recorrente ao ofício - de ser manipulador - pode até ser tomado o vocábulo de empréstimo para, ironicamente, evocar outros significados do verbo que lhe dá origem. Manipular, assegura o velho Aurélio, também pode significar "fazer funcionar; por em movimento; acionar"; e ainda, "preparar com a mão, imprimir forma a (alguma coisa) com a mão". E esta última não seria uma boa descrição da atividade de quem escreve?

Especialista nesse discurso, que bebe da literatura, mas se inscreve no campo da não-ficção, Wolfe não era um "generalista" ou alguém que falasse disparates sobre o que desconhece por inteiro. Claro, entre o que Tom Wolfe fazia em seus livros e o que um jornalista pode fazer no batente diário há uma diferença de tempo, recursos e método. E, claro também, nem todo mundo é Tom Wolfe ou simplesmente um bom jornalista. Mas não se pode tomar a medicina pelos médicos inaptos ao ofício ou a engenharia pelo mais medíocre dos diplomados nesta área. Para o jornalismo, vale a mesma regra.

Antes de ser um superstar do mundo editorial, Wolfe trabalhou em redações e disse que nunca trocaria a experiência por nada. Foi a escola para entender que, em toda história, há muitos lados possíveis, como se diz no jargão da área. E que é fundamental "fazer funcionar" esta trama, de forma a entregar ao leitor uma ideia precisa do caso, de preferência fugindo da vulgaridade do senso comum, que funciona na lógica do "nem vi e já não gostei".

Dois livros

Dois livros de Wolfe dão um bom testemunho desta segurança do jornalista. Um deles é "A palavra pintada" (1975, tradução aqui por Lia Wyler, para a Rocco); e o outro, "O reino da fala" (2016, traduzido por Paulo Reis, também para a Rocco).

Em "A palavra pintada", Wolfe trata da arte contemporânea (ou pós-moderna, com alguns preferem) e de sua dependência da teoria para se justificar. O jornalista compara manifestações artísticas, de tempos diversos, e questiona a necessidade de certas expressões recentes (valia para 1975 e, acredito, ainda vale hoje) que precisam de uma legenda, para completar sua mensagem (isso, claro, quando há uma mensagem que o artista/coletivo quer transmitir).

A crítica de arte acadêmica detestou o livro. Mas é o caso de questionar: só podemos entender a arte a partir desta referência? O próprio ensaio questionava esse direito à exclusividade da crítica.

O outro livro, seu último publicado em vida, é uma provocação com cientistas e especialistas (entre eles, o linguista Noam Chomsky). Wolfe trata do beco sem saída em que se encontram os especialistas ao tentar explicar a origem da linguagem humana. Aqueles que foram alvo de Wolfe criticaram o livro, mas quem poderia dizer que ele não está habilitado para falar da comunicação humana a partir do que escreveu e viveu? Sua obra é e será uma garantia desta qualificação do jornalista.

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