Instituto dragão do mar

Sob as asas do Dragão

Paulo Linhares avalia o desempenho dos equipamentos geridos pelo Instituto em 2017 e projeta ações para 2018

00:00 · 23.12.2017 por Roberta Souza - Repórter
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Paulo Linhares, presidente do Instituto Dragão do Mar: aposta em parcerias ( Foto: Saulo Roberto )

Não são poucos os equipamentos culturais cearenses sob a gestão do Instituto Dragão do Mar. Primeira Organização Social do País na área de cultura, ele tem hoje oito contratos fechados com lugares importantes para a criação e a difusão artística no Estado, entre eles o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a Escola Porto Iracema das Artes, o Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, o Cineteatro São Luiz e o Theatro José de Alencar, em Fortaleza; e ainda o Memorial Cego Aderaldo, em Quixadá, e a Vila da Música, no Crato, ambos inaugurados em 2017. Em tempo de balanços do ano que passou e projeções para o que está por vir, o presidente do Instituto, Paulo Linhares, demonstra otimismo em todas as direções.

"Gosto de dizer que a gente é hoje uma agência de desenvolvimento do Estado, da política de arte, onde a Secult teria forte papel na questão da cidadania cultural, no financiamento das políticas de cultura através de editais, política de incentivo fiscal, etc... E somos um braço de política de desenvolvimento da cultura mesmo, um executor", delimita Linhares acerca dos papeis dos dois órgãos, que atuam em parceria. Por política de arte, ele entende formação. E lembra de imediato da Escola Porto Iracema, da Thomaz Pompeu Sobrinho e mesmo do CCBJ.

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"Só acredito em Centro Cultural que tem uma escola de arte, como aqui no Dragão tem o Porto. Uma coisa dialoga com a outra, se não você fica recebendo show, coisa de fora, e acaba não tendo interferência na produção, na criação e na formação artística", critica.

"Estamos montando uma escola de teatro e outra de dança no Bom Jardim. Esse ano foi muito bom para o CCBJ. Acho que de todas as instituições que a gente administra, esse ano foi de lá. Houve um aumento de investimento, chegamos a quase 5 milhões", observa. Para 2018, ele projeta a construção de 12 novas salas para este Centro, e, para a Porto Iracema, o lançamento de um novo laboratório de escrita.

Ainda sobre esse aspecto de formação, um passo significativo do Instituto este ano foi a realização da Especialização em Gestão e Políticas Culturais, uma parceria com o Itaú Cultural e a Cátedra Unesco de Políticas Culturais e Cooperação, da Universidade de Girona, na Espanha. "Não acredito em gestão sem ter uma compreensão de política cultural. Gestão não é só executar, você tem que aprender a pensar sobre o que está fazendo", defende. Alguns funcionários do Instituto participando da Especialização, que é totalmente gratuita.

Periferia

A preocupação imediata do presidente a partir de agora é chegar na periferia, ou para ser mais específico, no que ele chama de gerações "nemnem" (nem trabalhando, nem estudando) e "nemnemnem" (nem trabalhando, nem estudando, nem procurando). Para o primeiro caso, o projeto já está avançado e as negociações com o governo indicam início das em 2018.

"O Criative-CE traz uma proposta de qualificar até 50 mil jovens na área de cultura expandida, que contempla cinema, teatro, música, moda e gastronomia. As capacitações seriam na periferia de Fortaleza e também no interior", explica. A Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho será um braço importante para essa inserção, segundo Linhares. "Ela entrará com formação em artesanato", pontua.

Já para os "nemnemnem", está em articulação o projeto "Geração N". "Esse n é de possibilidades infinitas. Como falar pra esses caras? Acabei de fechar uma pesquisa sobre isso coordenada pela Glória Diógenes, no Bom Jardim. O bairro vai servir de campo para todo o Ceará. A gente tem que pensar como vai pegar esse cara de volta. Essa geração aí é multi, faz dez coisas ao mesmo tempo. Então precisamos de uma multiplicidade de percepções para entendê-la. Queremos dar uma guinada no estigma", vislumbra Paulo.

Desafios

Em 2017, foi executado um orçamento de R$ 33.519.864,27, somando os oito contratos de gestão referentes a todos os equipamentos geridos pelo Instituto Dragão do Mar. Já o indicativo de orçamento para 2018 é de R$ 39.930.302,50. Esse valor pode ser maior ou menor a depender do que for aprovado pelo Estado. Além do mais, há planos para que o Instituto assuma duas escolas de Gastronomia no ano que vem. Já o Centro de Formação Olímpica (CFO) está quase descartado.

"Uma das características do Instituto Dragão do Mar é que ele é um modelo de gestão muito mais transparente, muito mais aberto, então não pode ter seleção de cargos, mesmo de confiança, que não seja simplesmente baseado em expertise e qualificação técnica", critica.

Do ponto de vista orçamentário, as parcerias privadas também são fundamentais. E o presidente sabe disso. "Quem tem pra fazer parceria no Brasil, eu tenho. Sou parceiro preferencial do Unibanco, do Itaú Cultural, do Instituto Moreira Sales. Estou negociando com Bradesco, Santander, com as telefônicas, Vivo e Tim", diz. "O Banco do Brasil e a Caixa Econômica não fazem parceria com ninguém. São instituições estatais, mas de costas para as parcerias, é uma coisa que não dá pra entender. E o MinC está praticamente fechado. Ele tem a Ancine, e com isso formulamos e trabalhamos com a Secult num projeto que vai jogar mais de 30 milhões no audiovisual cearense ano que vem", lembra.

A programação do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, por exemplo, pela primeira vez será toda baseada na Lei Rouanet, em 2018. "Não sei como vai ser. Esses dias saiu uma matéria dizendo que a Rouanet está péssima no Brasil, mas a gente conseguiu aprovar. Nos últimos anos a gente tem trabalhado com ela, mas não na escala que eu vou querer introduzir esse ano", adianta.

Duas exposições: uma sobre a obra de Zé Tarcísio e outra sobre os jangadeiros cearenses, que deve se juntar à fixa Vaqueiros, estão entre as novidades da programação do próximo ano. Já em janeiro, o pré-carnaval e alguns shows com atrações de fora, como Ave Sangria (dia 06/01) e Karina Buhr (dia 20/01), e alguns lançamentos locais, a exemplo do novo trabalho do Astronauta Marinho (11/01) devem movimentar o Dragão.

O atraso no pagamento dos cachês dos artistas que se apresentaram no equipamento em 2017 foi um dos pontos questionáveis do ponto de vista financeiro este ano. Para isso, Paulo tem justificativa e solução. "Tinha tido uma burocracia lá do ex-secretário de Planejamento, que ia cortar as Organizações Sociais. Eu ia demitir gente, ia ser horrível. Aí fiquei com Fabiano Piúba tentando, até que consegui manter o orçamento sem precisar cortar. Foi um ano muito atípico, isso atrasou pagamento, atrasou contrato de gestão", conta.

Mas a previsão é de que isso não se repita ano que vem. "O contrato de gestão do ano inteiro vai ser assinado agora, até o final de janeiro, esse dinheiro inteiro vai cair religiosamente todo mês", garante.

Circulação

Para Paulo, o momento é de nacionalização e internacionalização da cultura cearense. Daí também a execução do Projeto Porto Dragão, que promove a circulação dos artistas cearenses pelo interior do Estado, pelo Brasil e pelo exterior. Para 2018, ele também tem novidades sobre isso.

O Memorial Cego Aderaldo, em Quixadá, e a Vila da Música, no Crato, fortalecem essa relação com o interior do Estado. Outros equipamentos, como a ECOA, em Sobral, apesar de não estar sob gestão do Instituto Dragão do Mar, também o fazem.

Uma parceria fechada com as unidades do Sesc em São Paulo garantirá apresentações dos músicos locais durante todo o ano; outro contrato fechado com o Itaú Cultural organizará um festival cearense na Sala Ibirapuera; o Circo Voador, no Rio de Janeiro, também deve receber os artistas da terrinha. E a cidade de Belo Horizonte também entra nessa rota de circulação.

Já lá fora, o foco inicial é em Nova York. Para o ano que vem, uma noite cearense já está programada para acontecer no Lincoln Center. Os horizontes estão se expandindo, e a expectativa de continuidade também.

Projetos

Do ponto de vista estrutural, o presidente vislumbra um 2018 com entrega de duas obras importantes: a de integração da Biblioteca Estadual Menezes Pimentel com o Dragão do Mar, e o Teatro São José, que ele qualifica como a "cabeça do Dragão". De lá, ele pretende também abrir uma recepção para o CDMAC.

Paulo ambiciona outros dois prédios do entorno, tais como o do Sefaz, localizado na Avenida Pessoa Anta e o do Sesc Iracema, na Rua Boris. Para o primeiro, ele gostaria de transferir a gestão do Dragão, hoje concentrada no segundo andar, próxima ao Planetário. Ali, onde estão hoje, seria instalada uma biblioteca com foco em questões culturais, e ainda um espaço para o centro de pesquisa.

Já sobre o Sesc Iracema, está dado como certo para Linhares que o equipamento abrigará duas agências do Instituto em 2018: uma musical e outra audiovisual. "Vamos fazer uma espécie de assessoria, monitoramento de marketing, divulgação dos nossos artistas. Vamos gravar sessões, preparar videoclipes, precisamos chegar na web", diz. Para isso, ele também está fechando parcerias com players nacionais.

Ainda no que diz respeito à estrutura, sobre a manutenção de alguns equipamentos em funcionamento, tais como o Cinema do Dragão, cuja sala 2 teve instabilidades durante 2017, Paulo expõe que "não é um problema que se possa resolver a curto prazo". Segundo ele, "a gente não domina essa tecnologia (de projeção) no Brasil com a eficiência que ela precisa. Pouquíssimas empresas fazem acompanhamento; é uma mudança tecnológica brutal. As empresas precisam aprender a dominar", atribui.

Insegurança

Na lógica do entorno, Linhares pretende ainda fazer uma reforma na Praça Almirante Saldanha. Sobre a insegurança do local, pauta constante, o presidente é enfático. "O problema do entorno é uma questão de gestão de território, sendo que para isso 95% dos instrumentos estão nas mãos da prefeitura".

Um seminário, realizado este ano, após o anúncio do fechamento do Amici's e a ameaça de semelhante de outros bares tradicionais da região, apontou para esse caminho.

"Como a prefeitura assumiu um papel que é dela, eu recuei. Eles estão ouvindo todo mundo. Nós recuamos pra que eles assumam esse protagonismo", diz Paulo. Para ele, o problema que aparece como sendo de segurança é muito mais de falta de disciplinamento de ambulante, controle de lixo, iluminação. "Se você botar um policial por metro quadrado, você não melhora a segurança. É preciso antes mexer nessas questões", acredita.

O presidente defende ainda que nessas áreas que não têm eleitor, politicamente há pouco investimento. "Quem é que vai punir por essa região?, como diz o (arquiteto) Fausto Nilo. Não tem voto. Precisa ter uma visão muito sofisticada pra pegar uma área dessa e fazer um investimento", explica ainda.

Assim, para Paulo, o projeto Fortaleza 2040, também articulado por Fausto, precisa sair do papel. O caminho está traçado. Resta seguir.

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