Ensaio

Singularidades do discurso literário

00:00 · 25.01.2015

A seguir, dando continuidade à construção do discurso, que se caracteriza pelo flagrante do cotidiano, mas sem enredo, surge o espaço doméstico, exatamente para que a "casa" do cronista se confunda com a casa de um leitor qualquer: "a Rita lhe arranjou morada noutra gaiola". Mais uma vez, imprime-se a oralidade: "Só vendo, como, de repente, se entenderam bem..."; e o convívio de dois pássaros "de formação e de raça tão desigual" é recriado e, indiretamente, parece uma lição aos homens, cuja convivência é sempre difícil, precária, belicosa: (Trecho III)

A desarmonia

A partir de então, ou seja, no quarto parágrafo, quebra-se a harmonia inaugural: a presença de um "menino" (representante da cultura) invade o espaço dos pássaros (representantes da natureza), estabelecendo, portanto, a desordem: a fuga dos pássaros. Por fim, um recurso comum ao gênero crônica: a recorrência a citações ou intertextualidades, numa alusão ao Cântico dos cânticos: (Trecho IV)

No quinto parágrafo, o autor discorre sobre a tristeza da perda, reconhecendo que não era verdade a ideia que havia de sua casa como acolhedora, onde os pássaros se davam muito bem, sendo incapazes de sua tentativa de fuga; mas uma vez sem que ninguém esperasse: (Trecho V)

Assim, do quinto ao sétimo parágrafo, o cronista recupera uma cena do passado - uma também fuga de um pássaro, "um canário belga" - para, assim, inserir um contraste, apontando as duas faces de um mesmo fato: se agora, a fuga do pássaro deu-lhe "a tristeza da perda "; antes, "Foi até bom". Por fim, a casa se amplia, com a notícia de que aí vivem também outros pássaros, como "aquele casal azul de periquito australiano", que seguiu à risca o conselho bíblico: "Crescei e multiplicai-vos".

Do oitavo ao novo parágrafo, noticia a volta do "golinha" fujão, e surgem mais citações e alusões: fragmentos de um poema e uma parábola bíblica. O décimo parágrafo, porém, surpreende o leitor: o golinha, a rigor, não é o motivo central da crônica, mas tão-somente um pretexto: se está falando de golinhas, é para contar o drama de uma amiga "e correr em seu auxílio e pedir em seu favor, que ela me merece muito". (Trecho VI)

Considerações finais

Seu discurso literário possui um feixe de possibilidades. Nessa crônica, destaca-se a técnica da superposição de assuntos, que consiste em, a princípio, apresentar um interesse textual, (nesse caso, a súbita chegada de um golinha, sua estada, sua fuga, seu retorno) cuja função é apenas a de criar uma atmosfera propícia para receber o motivo maior do texto (o drama de uma amiga, com a fuga do pássaro de estimação de sua mãe, dela).

Do 11º§ ao 14º§, resume o drama da amiga: a mãe desta ganhara, há 14 anos, um golinha sertanejo, "com uma mecha branca no alto da cabeça, como marca de linhagem" (o que o torna, afetivamente, mais valioso, mais precioso, pois singular); a senhora afeiçoou-se ao pássaro como a um filho; necessitando fazer uma viagem, deixou-o aos cuidados da filha; porém, o pássaro foi sequestrado, "com gaiola e tudo".

O 12º§, assim como o 1º§, tem como marca a conversa entre o cronista e seus leitores, num tom de apelo, como quem tem a certeza de que, realmente, possui receptores: (Trecho VII)

Reforça, então, o apelo com a intensidade emotiva: "Vocês não podem calcular a falta que faz um golinha numa casa", o que é íntimo do gênero lírico. Com tal procedimento justifica toda a passagem que trata da chegada, da fuga e do retorno do golinha inicial. (C.A.V.)

Trechos

TRECHO III

Achou-se então que não devia ficar junto de pássaro tão diferente, e a Rita lhe arranjou morada numa outra gaiola, onde já vivia um papa-capim, que é do mesmo tamanho. Só vendo, como, de repente, se entenderam bem, pareciam amigos que se aguardavam há muito tempo, festejaram-se, cantavam juntos todo dia de manhã, e à noite dormiam encostados um ao outro, num comovente exemplo de solidariedade e de apoio mútuo. E ensaiavam duetos que nunca davam certo, porque, tendo voz desigual e vindo de escola, de formação e de raça tão diferentes, desafinavam tanto que parecia discussão.

TRECHO IV

A vida ia correndo assim muito bem, para eles e para nós quando, numa manhã do mês passado, um menino derribou a gaiola e a porta se abriu e os dois, certamente assustados, partiram imediatamente. Não houve tempo para nada, desapareceram como o cabrito montês do Cântico dos Cânticos.

TRECHO V

Um dia, não sei que gazua ele tinha no bico, deu um jeito no ferrolhinho de arame e bateu asas. Foi até bom. Que este canário era um mau exemplo, má companhia, egoísta, tão desequilibrado, que se chegava a suspeitar de alguma perturbação emocional! Tivesse psiquiatra de passarinho, a gente teria mandado consultá-lo.

TRECHO VI

Eu falava a uma amiga da alegria que nos tinha causado a recuperação do Golinha, quando a pobre, à proporção que me ouvia, ia se emocionando, até às lágrimas. É que, enquanto eu contava as glórias da nossa vitoriosa experiência com esta amável família de mini-pássaros, ela estava vivendo um drama ligado à mesma distinta alígera família. E é por isto que eu estou aqui falando de golinhas, é para contar o seu caso e correr em seu auxílio e pedir em seu favor, que ela me merece muito. Foi assim: a senhora mãe desta minha amiga, que é também gente da minha grande estima, ganhou, faz coisa de quatorze anos, das mãos do genro, um golinha nascido em Sobral, com uma fina mecha branca no alto da cabeça, como marca de linhagem.

TRECHO VI

Pelo amor de Deus, se tiverem notícia, se desconfiarem de alguém com cara de sequestrador de golinha, denunciem, vocês não podem calcular a falta que faz um golinha numa casa.

Saiba mais

BUZZI, Arcângelo. Introdução ao pensar. Petrópolis: Vozes, 1971
DIAS, Milton. Entre a boca da noite e a madrugada. Fortaleza: UFC, 1971
OLSEN, Stein. A estrutura do entendimento literário. Rio de Janeiro: Zahar, 1979

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