Ensaio

Silas Falcão: Por quem somos?

00:00 · 18.10.2013
Publicado em 2010, o livro Por quem somos? do escritor e também pesquisador Silas Falcão contém 61 crônicas

São textos geralmente curtos - traço marcante desse gênero literário -, carregados de subjetividade - segundo Massaud Moisés, a mais relevante característica da crônica (MOISÉS, 1967) -, através dos quais o autor extravasa emoções, expõe seus ícones e referencias na vida como no texto inaugural da obra "Charles Chaplin ou Hitler?". Seus escritos trazem para o centro da ribalta literária temas como: a morte, a religiosidade, a pobreza que grassa nas ruas das nossas cidades, a infância, a juventude perdida para a criminalidade, a posse de armas de fogo, a solidão - como na micro crônica "Nosso mundo" e na crônica "Tem gente morrendo de solidão" -, o efêmero, a nostalgia da Fortaleza de antigamente - "Quando era ontem" -, o tempo, a necessidade de ser e lutar por algo e a angustiante ausência de lirismo no mundo, fenômeno bem pontilhado na crônica "Vitalírico": (Texto I)

Diálogos artísticos

Concernente à produção textual, é possível vislumbrar o esforço artístico de se trabalhar a linguagem nos moldes de um texto literário, alvo atingido em boa parte da obra. Mas, em alguns momentos, percebemos atravessar os textos uma certa alternância entre instantes de grande arroubo literário como em "O morto que demora a morrer", e outros não tão felizes assim em que a prematuridade literária do autor se deixa mostrar pelo simplismo de algumas construções e pela presença do "lugar-comum" (lócus comunis) como em "O brinquedo", "Abraço & Cia" e outras crônicas. Mas quem lê a obra desfruta, na sua maior parte, de excelente produção literária. Há momentos onde conseguimos perceber intertextualmente a presença de vultos como Moreira Campos, Rubem Alves e Milton Dias.

No entanto, em alguns espaços o leitor convive forçosamente com determinadas ambivalências linguísticas, transitando entre construções literárias e outras menos imaginativas, carentes da necessária "violência organizada contra a fala comum" (JAKOBSON apud EAGLETON, 1983). Tais espaços, contudo, representam uma ínfima porcentagem na obra e "se acontece de em momentos o lugar-comum ocupar também seu espaço, jamais o faz a ponto de eliminar os achados, alguns dos quais, primorosos: a indigente "empanturrada de fome" (Ela), "a ilja cercada de perguntas por todos os lados" (A ilha), a solidão definida como "coletividade consigo próprio" (Solidão). Mas, sobretudo, os poemas que se escondem sob o título de Mendigos e A Correspondência" (AQUINO apud FALCÃO, 2010).

Trechos

TEXTO I

Lirismo, Poeta! Melhor que eu, você sabe que o mundo umano está precisando de lirismo. A umanidade está perigosamente carente de ações afetivas. Vê o mundo? É uma Grande Dor cheia de máquinas. Os carros são máquinas que matam mais que a saudade de quem se ama. Os pássaros não nos acordam mais, mas a máquina telefônica, o som metálico do despertador A umanidade está esquecendo que tem coração, afetividade. Ela está muito técnica, matemática demais. Quer tirar a prova dos nove? Peça-lhe uma atitude lírica saída do forno da alma do último isntante ao entra num ônibus comece a cantar. Procure ser um lírico intraônibus. Faça isso como forma de fugir da mecanicidade da vida, para ver o que acontece. A umanidade carece de vozes subjetivas. (FALCÃO, 2010)

FRANCISCO GEILSON ROCHA
COLABORADOR*

*Ensaísta

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