Ensaio

Signos configuradores de classe social

00:00 · 02.02.2014

Em Helena, de Machado de Assis, muitas são as referências aos chapéus usados na época, mesmo que feitas en passant, mas que demonstram que o seu uso era comum tanto para homens como para mulheres e em diferentes classes sociais. As descrições do uso do chapéu se enquadram nas citações de atividades corriqueiras, como durante uma conversa entre Helena e Estácio, "enquanto ela falava, Estácio, que tirara o chapéu de Chile, ocupava-se em fazer circular na copa a fita larga que o cingia.", ou quando Estácio observa Eugênia descendo à porta do jardim, e vê a moça com seu "chapelinho de palha, de abas largas, que lhe protegia o rosto dos raios de sol". Ou ainda quando Estácio, para se referir à efemeridade das amizades de Eugênia, fala para a moça que "suas amizades são das que duram a roda de uma valsa, ou, quando muito, a moda de um chapéu.".

Singularidades

O chapéu de Chile, utilizado por Estácio, é um tipo de chapéu masculino, de palha, que tem como característica a elegância. Chapéu típico de um rapaz burguês e que contrasta com a descrição do chapéu de um escravo sentado à beira da estrada, cujas "roupas eram rafadas; o chapéu que lhe cobria a cabeça tinha já uma cor inverossímil". A cor inverossímil do chapéu do escravo provavelmente se deve ao seu uso e à falta de condição de adquirir um chapéu novo, tendo que se contentar com um já desgastado, desbotado.

As duas faces

Além de mencionar elementos do vestuário para reforçar a miséria de um escravo, Machado de Assis também usa do mesmo artifício para descrever a aparência pobre de Salvador, pai biológico de Helena. A existência de Salvador só é revelada ao final da trama, quando Estácio começa a suspeitar das visitas de Helena ao casebre afastado, onde mora o pai verdadeiro da moça. Dúvidas invadem-lhe os sentidos.

É explícita a pobreza na qual vive Salvador e tão claro quanto ela, é a aversão de Estácio à miséria, quando o homem humilde o convida para entrar no casebre e "Estácio teria recusado o convite, porque o espetáculo da pobreza lhe repugnava aos olhos saturados de abastança". Após fazer um rápido reconhecimento do ambiente humilde onde mora Salvador, Estácio analisa o homem: (Texto IV)

Revelações

Mais adiante na narrativa do livro, quando é revelada a existência do pai biológico de Helena, Estácio procura Salvador para exigir esclarecimentos. É então exposto todo o drama vivido tanto por Salvador, como pela própria filha. Quando Helena ainda tinha seis anos de idade, Salvador viaja sozinho para o Rio Grande do Sul para visitar o pai à beira da morte, deixando Ângela, mãe de Helena, e Helena no Rio. Ao retornar para o Rio de Janeiro, encontra sua mulher vivendo com o Conselheiro do Vale, um homem rico e conhecido da região. A relação dos dois era algo escondido e mantido em segredo, uma vez que o Conselheiro já havia constituído outra família. Após muita reflexão e muito sofrimento, Salvador compreende que seria melhor para sua filha crescer em um ambiente de riqueza abundante, onde ela teria uma educação adequada e jamais passaria pelas privações que a miséria poderia lhe impor. Para Helena, é dito que o pai havia morrido.

No entanto, quando Helena tinha doze anos, Salvador encontra Helena com a mãe no Passeio Público e a menina reconhece o pai. Após um breve momento de espanto, Ângela, mãe de Helena, permite que a filha vá abraçar o verdadeiro pai. Salvador percebe a diferença existente entre a criança que vivia sob o seu teto, na pobreza, e a criança que agora vivia sob as asas de um homem rico. Mais uma vez o vestuário irá compor a imagem da personagem, servindo para reforçar um estereótipo.

Questões de gênero

Além de funcionar como delimitadora das fronteiras sociais, a moda também exerce um caráter de elemento distintivo de gêneros, no momento em que ela oferece para o público do sexo masculino um vestuário completamente diferente do que é destinado para o público feminino. Souza (1987, p. 71) afirma que durante o século XIX a moda irá distanciar cada vez mais o grupo dos homens do grupo das mulheres, seja pelas formas, cores ou tipos de tecido que as roupas apresentariam.

Considerações finais

A partir do século XIX, enquanto que para as mulheres eram destinados conjuntos de tecidos mais abundantes e refinados, para a indumentária masculina os tecidos e as cores ficaram mais limitados e bastante sóbrios.

Vemos esses tipos de tecidos mais grosseiros no trajar de Salvador, que veste um colete de brim com uma calça de ganga. Trajes rudes que se opõem à delicadeza da seda da botina de Helena ainda criança ou das rendas do vestido que semeia o pensamento de Eugênia, futura esposa de Estácio, ao imaginar seu casório: "a coroa de flores de laranjeira, que a havia de adornar; enfim talhava já o vestido branco e pregava as rendas de Malines com que havia de levar os olhos a ambas as metades do gênero humano".

Observa-se como o trajar das vestes funciona durante o século XIX como uma barreira que irá separar ainda mais homens de mulheres, reforçando, desse modo, o contraste já existente entre esses grupos dentro da sociedade.

As diferenças não se atem somente às funções de cada um no lar ou na vida social, mas se estendem também às roupas, acentuando o contraste entre os sexos.

Essa realidade é refletida na obra literária Helena, onde Machado de Assis traduz para os leitores com minúcias de detalhes a sociedade em que ele vivia, onde a vestimenta funcionava com um receptáculo de significados e era, de modo nítido, o reflexo social e cultural de seu tempo.

Trechos

TEXTO IV

Vestia pobre, mas limpamente, um rodaque branco, calça de ganga e colete de brim pardo. O vestuário, disparatado e mesquinho, não diminuía a beleza máscula da pessoa; acusava somente a penúria de meios. (Machado de Assis, Helena, 1987)

SAIBA MAIS

BRAGA, João. História da moda: uma narrativa. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2006

CORRÊA, Carolina. O desenvolvimento cultural, artístico e a moda no Brasil após a chegada da corte portuguesa. UFJF, Instituto de Artes e Design, Especialização em Moda, Cultura e Arte, 2013

RODRIGUES, Mariana Christina de Faria Tavares, Mancebos e Mocinhas - Moda na Literatura Brasileira do Século XIX. Ed. Estação das Letras e Cores, 2011

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