Ancine

Servidores denunciam carência de funcionários

19:17 · 24.08.2013
A Associação dos Servidores Públicos da Ancine (Aspac) diz que a falta de mão de obra "crônica" é uma das causas da demora da Agência Nacional de Cinema (Ancine) em reprovar as contas dos projetos audiovisuais que captam verba pública e nunca estrearam. Segundo a entidade, trabalham hoje na área responsável pela análise de contas de todos os projetos apoiados apenas sete servidores. Para a Aspac, a situação revela o "grave déficit de pessoal" da agência e pode ser uma das causas da existência de um passivo de dez anos na análise de contas. Para o grupo, seria necessário ter, no mínimo, o dobro de analistas realizando a mesma tarefa.

O valor referente a projetos cujas contas foram reprovadas, estimado em R$ 18,7 milhões, daria para concluir três filmes do porte de "2 Filhos de Francisco"

A posição da Aspac sobre a demora da Ancine vem à tona um dia depois de O GLOBO publicar a lista das 17 produções audiovisuais que tiveram contas condenadas pelo órgão e que integram a chamada lista negra da agência reguladora. No documento - obtido pela reportagem via Lei de Acesso à Informação - estão os 17 projetos que, juntos, captaram R$ 18,7 milhões e nunca chegaram ao grande público.

Todas as produções dessa lista datam do período entre 1995 e 2003, o que indica que nenhum projeto submetido ao órgão desde então já teve contas definitivamente reprovadas. Procurada para comentar a posição da Aspac, a Ancine emitiu uma nota, lembrando o concurso que realizará para contratar 69 analistas. "A Ancine conta hoje com 265 servidores concursados, preparados para lidar com todas as etapas de acompanhamento da execução de projetos realizados com recursos públicos federais. A nova realidade do mercado audiovisual brasileiro, que vive um momento espetacular após a aprovação da lei da TV paga, impôs outros desafios à agência. Por isso a administração da agência está empenhada na realização de um concurso, já aprovado pelo Ministério do Planejamento".

Em carta à redação, Malu de Martino, que aparece no documento obtido junto à agência como a diretora do documentário "Arte contemporânea" (que foi idealizado em 2002 e captou R$ 100 mil), destaca que os diretores não são responsáveis pelos projetos, mas sim as produtoras.

"Em 2002, fui convidada pelo produtor Ricky Ferreira (para participar do documentário), mas, depois de um ou dois encontros, o projeto não foi adiante", afirma ela. "Não tenho vínculo com a produtora Film Factory, e ela não me pertence".

Também em carta à redação, o diretor Roberto Faustino, que aparece na lista negra associado à série de documentários "Brasil feito a mão" (que também foi idealizada em 2002 e captou R$ 100 mil), reclama de falta de jogo de cintura da Ancine.

O projeto dele foi orçado em R$ 500 mil, mas a agência autorizou a captação de apenas R$ 355 mil. Faustino levantou somente R$ 100 mil. Com isso, diz ele, filmou e montou dois dos cinco episódios previstos no projeto inicial. Em 2005, outra produtora, a Giros Produções, concluiu a captação e exibiu a série no GNT. Para Faustino, portanto, seu nome não deveria constar na lista negra.

Mas a revelação da lista da Ancine também foi criticada. No grupo "Cinema, produtores & afins", do Facebook, a produtora Clélia Bessa, da Raccord Filmes, classificou a publicação como "perversa com o cinema brasileiro". Ela destacou a importância do total já investido pelo governo no audiovisual e o retorno que a atividade já deu até hoje. "Estava entrando em sala para dar uma aula do curso de Cinema da PUC, e ter que explicar para 45 jovens animados que não é bem assim que a banda toca foi desgastante. Triste", escreveu ela.

CRISTINA TARDÁGUILA E
CARLOS HELÍ DE ALMEIDA
AGÊNCIA O GLOBO

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