comemoração

Seis décadas de amor e teatro

Neste mês de setembro, o Grupo Comédia Cearense comemora 60 anos de história em plena atividade

Haroldo e Hiramisa encenam "Minha nora inglesa", no TJA ( Foto: Vidal Cavalcante (15/04/1982) )
00:00 · 14.09.2017 por Roberta Souza - Repórter
O olhar de cumplicidade entre Hiramisa e Haroldo Serra em "Canção dentro do pão" (1958), primeira peça da Comédia Cearense, com os dois no palco; e hoje, 2017, na arena da sede do grupo, no bairro Rodolfo Teófilo ( Fotos: Arquivo/Saulo Roberto )

Para fazer teatro, acredita Haroldo Serra, 82, "é preciso ter otimismo, despreendimento, paciência", e isso, como revela a troca de olhares entre ele a esposa Hiramisa, 79, nos últimos sessenta anos, eles têm em abundância. A história do casal se confunde com a do grupo Comédia Cearense, cujo primeiro espetáculo, "Lady Godiva", foi apresentado em 12 de setembro de 1957, no icônico Theatro José de Alencar.

Naquela ocasião, Hiramisa ainda não era sua esposa, e também não chegou a subir ao palco, mas o namoro levaria ao casamento no ano seguinte, e consequentemente à sua participação mais efetiva nas atividades do grupo.

> Para comemorar no palco 

"Pra mim, o que garantiu esses anos todos foi a maluquice dele. Toda vida Haroldo amou o teatro incondicionalmente. Acho mesmo que se eu não tivesse me agregado, nosso casamento não teria durado tantos anos", brinca a atriz, também responsável pelos figurinos dos espetáculos. Sentados sob poltronas que serviram de cenário para alguns trabalhos da companhia, e com retratos da longa trajetória pendurados na parede, os dois revisitaram as memórias das últimas seis décadas conduzidas pelos fios do amor e da dramaturgia.

A Casa da Comédia Cearense, localizada no bairro Rodolfo Teófilo, foi o cenário desse reencontro do casal com a própria história. Em funcionamento como equipamento cultural desde 2002 - antes era a residência dos pais de Hiramisa -, o espaço reúne troféus, fotografias, livros, revistas, jornais, fitas cassetes, figurinos e uma série de objetos que ajudam a reconstruir memórias cujas falhas são comuns com o passar do tempo.

Confira entrevista sobre os 60 anos da Comédia Cearense com Haroldo e Hiramisa Serra:

"Espera um pouco que estamos ruim de cálculo", pediam, enquanto iam recordando datas marcantes. É que foram muitas. Haroldo mesmo começou a fazer teatro em 1952. Junto aos colegas Hugo Bianchi, Marcus Miranda e B. De Paiva, criou o Teatro Experimental de Arte (TEA), em que apresentavam um espetáculo novo praticamente todo mês.

A frequência, aliás, foi algo que se estendeu para a Comédia Cearense. "Durante esses 60 anos, nunca deixamos de apresentar um espetáculo num semestre. São 120 semestres. Nunca teve hiato um ano sequer", afirma, embasado em pesquisa recente feita para o livro que registra o jubileu de diamante do grupo, a ser lançado no TJA no próximo domingo (16).

Criada com o objetivo de dar visibilidade aos profissionais da terra, a Comédia traz essa característica em seu DNA desde 1957. "Montamos textos de autores cearenses, tais como 'O Morro do Ouro' e 'Rosa do Lagamar', de Eduardo Campos. Só depois de um tempo é que passamos a ter repertório mais amplo, com peças traduzidas, nacionais, sem deixar de valorizar o autor cearense. A obrigação é nossa, da própria comunidade de valorizar suas raízes", defende Haroldo Serra, que escolheu a peça "O Morro do Ouro" para comemorar estes 60 anos).

Tripé

A longevidade do grupo é motivo de curiosidade para muitos, inclusive quem está começando. Ao olhar para a cena teatral de hoje, Haroldo, um autodidata, fica feliz de ver tantas escolas empenhadas na formação de novos atores.

Sobre isso, declara: "você aprende a fazer teatro fazendo teatro. A teoria é uma coisa mais histórica, para conhecer as origens, os grupos, mas o segredo está na encenação, no contato autor, ator e público, que eu chamo até um tripé. Sem isso não existe espetáculo", defende.

Como diretor, ele também fala sobre a individualidade de cada profissional, e ressalta que a sua preocupação é com um teatro de representação espontânea. "Meu processo é mais de interpretação, de dentro pra fora", declara. E foi isso que ele passou para o filho mais novo, Hiroldo, declaradamente um herdeiro da arte dos pais.

"Isso foi uma escolha, não foi uma imposição. Papai nunca me incentivou, quase me pressionou pra fazer faculdade de engenharia. Larguei, fiz pedagogia, teatro, e hoje me dedico dando aulas de teatro, encenando e assumindo a direção dos espetáculos infantis", conta Hiroldo. "Não me vejo fazendo outra coisa. Mamãe diz que o teatro é nossa cachaça", brinca.

Além de Hiroldo, o filho mais velho, Haroldo Júnior, que é artista plástico, também já fez algumas maquiagens nos atores da Comédia Cearense, e a filha do meio, Harolmisa, fez diversas participações em espetáculos do grupo. "Eu dirijo, Hiroldo produz, Júnior faz cenários, Hiramisa faz figurinos. Aí já se eliminam vários custos", aponta Haroldo, em uma avaliação orçamentária para manter o grupo durante esses anos. "Tem que ter muita união e vontade de realizar porque se você for esperar pelo apoio governamental, jamais vai manter o grupo. É preciso buscar outras alternativas", defende o diretor.

Em 2017, é visível o orgulho do casal em manter a Casa da Comédia Cearense como espaço de formação para crianças, jovens, adultos e até idosos. Pelo menos 80 pessoas frequentam esse lugar de memória da família Serra, e elas dão, diariamente, continuidade a uma história de mais de 90 espetáculos e 120 montagens que não precisa ter fim.

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