Música

Se sujar faz muito bem

Sexto disco de estúdio, "Marauder" mostra um Interpol bem mais acostumado com o status de veterano

00:00 · 05.09.2018 por Antonio Laudenir - Repórter
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Daniel Kessler, Paul Banks e Sam Fogarino: músicos apresentam um resultado melhor do que os álbuns anteriores e investem na sonoridade mais orgânica dos primeiros anos da banda

Em determinado momento da biografia de Serge Gainsbourg (1928 -1991), Sylvie Simmon, autora da obra, tece reflexões sobre a ideia do cantor francês ser uma espécie de símbolo sexual às avessas. Longe de ser um exemplo de beleza para os padrões do entretenimento, Gainsbourg compreendia o quanto a ideia de beleza era passageira. A feiura, além de eterna, em certo sentido é algo mais honesto de se lidar com o decorrer da vida.

A disposição para a decadência costuma ser aceita ou observada de maneira diferente por cada artista. Inseridos na cena nova-iorquina do início dos anos 2000, onde grupos como The Strokes, Ryan Adams, Yeah Yeah Yeahs e LCD Soundsystem ampliavam a relação afetiva do público entre música e moda, o Interpol manteve uma determinada linha mais fria e sombria.

Em comum aos pares de seu tempo, Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino alcançaram determinado auge na seara indie e seguiram o restante da década soltando discos perdidos, onde as canções pouco tinham a mesma força dançante nas pistas de outrora. Todavia, diferente de alguns colegas de geração, caso do Strokes, o Interpol parece encarar o peso da idade de forma mais lúcida. Esse talvez seja o maio peso ou mensagem de "Marauder", sexto trabalho de estúdio do grupo, lançado no último mês de agosto. Essa batalha travada com o passado parece algo inerente à produção do disco e uma coincidência foi responsável imediato por este efeito. O novo disco do trio foi concebido em meio à turnê de comemoração dos 15 anos de lançamento de "Turn on the Bright Lights". Assim, o sucessor de "El Pintor" (2014) foi imaginado e produzido nessa ponte entre as lembranças do auge e a estagnação do presente.

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Nada de se prender aos louros de outros carnavais. O Interpol escolheu uma certa volta ás raízes no sentido de escalar o mais coeso e natural da música criada pela banda. Nessa lida por atingir o estado bruto da criação, o grupo arregimentou Dave Fridmann para moldar o som do novo rebento. Esse detalhe quer dizer muito dentro da trajetória da banda, afinal, é a primeira vez (desde "Our Love to Admire", de 2007), que o Interpol contrata trabalha com um produtor de fora.

Conhecido por parcerias anteriores com Mercury Rev e Flaming Lips, Fridmann entendeu a mensagem do Interpol em aparar as arestas desnecessárias de obras anteriores e construir um terreno seguro para as composições do trio. A dificuldade aqui foi fazer uma banda até sisuda, inspirar-se novamente pela linha do minimalismo. A dificuldade foi por estabelecer algo mais orgânico, no sentido de diminuir a postura quase robótica do Interpol. Banda e produtor conseguiram essa façanha? Em termos.

Indiscutivelmente, "Marauder" soa bem mais "humano" que os últimos lançamentos do trio. Existe algo de mais " agressivo" nas faixas. Uma concepção que combina os primórdios dos músicos engravatados. As guitarras lamentosas e etéreas de Daniel Kessler, a bateria pulsante de Sam Fogarino e os vocais emotivos de Paul Banks se mostram revigorados e alinhados com os melhores momentos da banda.

Fogarino, que aqui mantém um sistema percussivo repleto de peso e fôlego, explicou durante o lançamento do disco N Cidade do México que esse processo de reencontro com as raízes, tratou mais de estabelecer uma experiência do que propriamente tentar soar como eram no passado.

"Estávamos trabalhando em um novo material que se tornou um norteador por vários meses. Você sabe, estamos em um porão trabalhando juntos e, de repente, você é convidado a tocar o primeiro álbum de forma tão simples. Isso injetou a energia viva no processo porque nós queremos voltar para o porão que você conhece depois de toda essa empolgação", argumentou o baterista.

"If You Really Love Nothing" entrega de cara uma das melhores interpretações do grupo em anos. Costura de maneira prodigiosa o universo sonoro dos gringos e apresenta um conjunto menos burocrático. "The Rover", primeiro single de "Marauder" reverbera hipnótica e os riffs pontiagudos de Kessler são abraçados pela junção de guitarra base e teclado. É o Interpol mais "direto ao ponto" da obra.

"Complications" soa mais torta e dolorida, mesmo sem o mesmo brilho das duas primeiras faixas. A região cinzenta do Interpol prossegue com "Flight of Fancy", cujo refrão aparece até de certo modo gratuito dentro da peça como um todo. Vale ressaltar, tudo é tocado com vibração e impacto. A bateria de Fogarino impõe peso e o duo de guitarras arranca bons momentos na construção rítmica."Stay in Touch", faixa mais longa de "Marauder" puxa a lama para debaixo dos pés do ouvinte.

Cair

O disco prossegue com a instrumental "Interlude 1", que estabelece uma relação bastante acessória com o produto final, assim como "Interlude 2", presente já no final do disco. "Mountain Child" começa lentamente, apresentando Banks com a voz baixa até que a canção explode naquela parece já conhecida de efeitos do Interpol. "Marauder" prossegue com poucos erros até então.

"NYSMAW" o tom romântico da música anterior e abraça a rispidez com a qual o Interpol explode seus refrões. "Surveillance" resgata o tom lamurioso e disponibiliza algo de novo no último quarto do disco. Todavia, em "Number 10" os sinais de desgaste nas fórmulas do grupo começam a incomodar. A preguiça reina em tudo que se refira a composição. Nada muda no cenário coma chegada de "Party's Over". Aqui, a banda veste a carapuça da instituição da qual pegou o nome e o tom burocrático atinge níveis elevados.

"It Probably Matters" tenta se agarrar ao modo noturno tão característico da banda e até consegue segurar um pouco o desserviço das últimas faixas. Finaliza "Marauder" com alma própria, mesmo sem tanto esmero por parte do trio. O Interpol encara o próprio espelho e até aceita beijar a lona em alguns momentos. Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino conseguem sobreviver a eles mesmos e a equação do novo disco é simples. Caso tivesse sido lançado logo após "Antics" (2004), o Interpol certamente teria trilhado uma trajetória maior de sucessos. Na atual conjuntura, para os integrantes, isso talvez seja a menor das preocupações.

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