Artes cênicas

Saga do maquinista cangaceiro

A estética nordestina marca o espetáculo "Maquinista", nova montagem do grupo Pavilhão da Magnólia

Grupo Pavilhão da Magnólia no novo espetáculo ( Foto: Carol Veras/div. )
00:00 · 07.03.2018 por Iracema Sales - Repórter

O imaginário nordestino - composto por elementos sociais, políticos e culturais, a exemplo do cangaço, da seca, do messianismo, das danças populares e da literatura de cordel - serve de mote para a construção do espetáculo "Maquinista", nova montagem do grupo Pavilhão da Magnólia, cuja temporada estreia nesta quinta (8), às 20h, no Teatro do Dragão.

A peça, dirigida por Herê Aquino, com texto do dramaturgo paraibano Astier Basílio, é ambientada em uma feira livre, sendo apresentada por quadros, como se fosse um filme, fugindo assim de uma narrativa linear - conforme explica o ator Nelson Albuquerque.

Música, dança e literatura de cordel entram na formação da peça, que conta a história do "ator-cangaceiro e trambiqueiro" Antônio Maquinista. Após criar diversas situações - algumas dão certo, outras não - ele termina por ingressar no grupo de um dos mais temidos cangaceiros do sertão, Virgulino Ferreira, o Lampião. Como leva a vida enganando as pessoas, tentará fazer o mesmo com o "capitão", prometendo montar uma peça de Shakespeare com o grupo de cangaceiros.

Em 1h15, o espetáculo - embalado por música ao vivo - é apresentado com versos de poesia de cordel, por dois repentistas. O público será transportado para uma feira popular, fazendo com que os diferentes polos reproduzam a atmosfera de uma cidade do sertão.

A intenção é mostrar a realidade multifacetada do Nordeste, ao reunir temas que passam também pela subjetividade, criando situações lúdicas, mas sem perder de vista a inquietação que toda obra de arte deve proporcionar.

Assim, uma das características do espetáculo, que usa a música para compor sua dramaturgia, é denunciar, mesmo que nas entrelinhas, como são construídas as relações de poder, nos aspectos micro e macro. Após um ano de trabalho, entre escolha de texto, ensaios, criação de figurino e cenografia, "Maquinista" inicia sua primeira temporada, que segue até 25 de março. No elenco estão os atores Alessandra Eugênio, Beethoven Cavalcante, Denise Costa, Eliel Carvalho, Jocasto Britto, Jota Júnior Santos, Marina Brito, Nelson Albuquerque e Silvianne Lima.

Elementos

A história do "ator trambiqueiro" é apresentada em forma de peleja de dois repentistas. O texto de Astier Basílio, ganhador do Prêmio Funarte de Dramaturgia 2014, constitui a espinha dorsal da peça, com a contribuição dos instrumentistas. Em cena, os atores cantam e dançam ao som da música ao vivo. Nelson Albuquerque justifica que o espetáculo trabalha na perspectiva de resgate do ator brincante. O objetivo é levar um pouco de leveza ao texto.

Porém, o protagonista não consegue fugir da cidade de Floresta, sendo obrigado a se juntar ao bando de Lampião. Nesse momento, a peça aborda a relação de poder, impregnada na vida em sociedade e muitas vezes imperceptível. Nelson Albuquerque destaca a liberdade poética, assegurando que a realidade expressa na peça pode ser transportada para o momento atual vivido no País.

Ele lembra do "jeitinho brasileiro", que cai como uma luva na personalidade de Antônio Maquinista, que leva a vida aplicando golpes.

O espetáculo pretende discutir justamente esse jeitinho. "Existem momentos em que não dá certo", analisa Nelson, destacando que a peça explora essa vertente, que também passa pelo campo da política, ao questionar jogo de poder.

O ator-cangaceiro sente na pele essa realidade ao entrar para o bando de Lampião. "O jeitinho não funcionará", adianta o ator, completando que o espetáculo passeia por diversas realidades. "Os poderes foram surgindo desse processo", argumenta, completando que o maquinista se transforma em cangaceiro, passando a exercer outras funções.

A cenografia é uma construção coletiva do grupo, criado em 2005. O figurino também dialoga com a estética nordestina, com seus santeiros, violeiros e a seca.

Mais informações:

Estreia do espetáculo "Maquinista", do grupo Pavilhão da Magnólia. Nesta quinta (8), às 20h, no Teatro do Dragão (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Temporada nos dias 9, 10, 11, 15, 16, 17, 18, 23, 24 e 25 de março. Ingressos: R$ 20 (inteira). Contato: (85) 3488.8600

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