SHOW

Sacramento da MPB

02:06 · 13.11.2008
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O cantor e compositor Marcos Sacramento interpreta clássicos e novidades do samba hoje à noite, no Anfiteatro do Centro Dragão do Mar

Apesar de seus álbuns serem pautados pelo repertório do samba, apesar de conduzir seus arranjos em torno do respeito à tradição do ritmo, o cantor e compositor Marcos Sacramento considera-se longe de pertencer ao universo desta linguagem. Ele ressalta que, com todo o respeito devido ao samba, sua música não se integra ao contexto dos bambas. “Me sinto distante de comportamentos do tal ‘mundo do samba’. Jamais fiz parte deste mundo, por desinteresse e também pelo desinteresse do mundo do samba em relação a meu trabalho. Existem diferenças de meus traços comportamentais em relação aos estereótipos do samba, que existem de fato”, escancara o cantor, referindo-se a caracaterísticas como o timbre cheio de nuances de sua voz.

A praia, então, estaria mais próxima ao que se convenciona chamar de Música Popular Brasileira. Nadar contra a corrente, se for preciso. Foi assim que Sacramento subverteu fronteiras, em favor da criação da sua própria personalidade musical. Mesmo apresentando um formato pautado pela melhor tradição do samba dos anos 30 a 50, ele pouco a pouco vem afirmando uma produção mais contemporânea, em grande parte na companhia do violonista Luiz Flávio Alcofra, um de seus companheiros na noite de hoje, que terá também o caprichoso 7 cordas de Rogério Caetano e ainda o pandeiro e o cajón de Netinho Albuquerque.

“É uma formação enxuta, sem naipe de sopros que tem no disco, mas parece que tem 30 músicos. Você sabe que a realidade é outra, pra viajar com nove músicos tem que ser um Zeca Pagodinho. Mas você acaba tendo surpresas agradáveis: essa formação com estes violões no caso deles, explodiu um negócio, parece uma orquestra tocando. E o Netinho, tem uma levada... Fico feliz de mostrar meu trabalho de novo aí, não é uma formação light, ela tem pegada, sem timidez”. É o que conferiu ontem o público da Mostra Sesc Cariri.

Tradição na MPB

A referência ao samba é uma constante na trajetória de Marcos Sacramento, desde de seu primeiro álbum, “A Mordenidade da Tradição”, de 1995, recentemente relançado pela gravadora Biscoito Fino. Entre o violão de Maurício Carrilho e a percussão de Marcos Suzano, releituras de “Pela Décima Vez” (Noel Rosa) e “Lábios que Beijei (J. Cascata / Leonel Azevedo)” a “A Volta do Malandro” e “Canto das Três Raças”, uma “Apoteose do Samba”, como diz o também relido samba de Mano Décio da Violae Silas de Oliveira. Em 98, veio “Caracane”, em torno de parcerias entre Sérgio Natureza e Antônio Saraiva e entre o próprio Sacramento e Paulo Baiano, tecladista do grupo Cão Sem Dono, uma mistura eclética com linguagem pop que andou pela cena carioca no início dos anos 80. “Foi ali que comecei, mas teve vida curta. Aí recebi o convite da Funarte para participar do Projeto Almirante, dando a minha leitura para o Custódio Mesquita. Fizemos um disco comigo, Marlene, Ney Matogrosso e o conjunto Coisas Nossas”.

A boa companhia se manteve no projeto seguinte: “Saravá, Baden Powell”, revivendo os afro-sambas com Clara Sandroni, em 2002. Relembrando o relançamento de “A Modernidade da Tradição”, Sacramento frisa que o álbum estava fora de catálogo e havia muita gente há muito tempo interessada em conhecê-lo. “A gente estava negociando, mas agora, como já lancei três discos por lá, a Biscoito Fino também se interessou em ter todos os meus lançamentos”. Quem ganha com isso é a mordernidade sempre atenta da tal MPB.

A modernidade de uma tradição

Em 2004, Marcos Sacramento lançou “Memorável Samba”, em torno de clássicos dos anos 30, o período de ouro do samba. E, em 2006, “Sacramentos”, que, segundo ele, já aponta para outras direções. “Tem muitos sambas, mas com outras descobertas como ‘Ilusão’, da Fátima Guedes, uma balada para o Johnny Alf”. E complementa, neste sentido das mudanças: “O caminho do artista é ir fazendo outras descobertas. Inaugurei a carreira solo com um disco de MPB, que foi considerado mais de samba, por conta do repertório, um somatório de coisas, com Noel, gente que ficou consagrada como samba, embora eu ache que isso empobreça um pouco”.

Diante disto tudo, podemos então chamá-lo de intérprete do samba? “Acaba sendo reducionista ser chamado de sambista, tenho tantas habilidades... O samba prevalece, é uma espécie de marca. Mas tenho profundo respeito pelos sambistas de verdade, guardiões do ritmo, da tradição, me sinto bastante distante deste universo. Posso dizer que faço uma leitura de intérprete, particular, absolutamente livre”. Ou seja, um representante do que se convenciona chamar de MPB.

Show e novo CD

O repertório do show, informa Sacramento, é uma síntese disso tudo. “Carregando na tinta do último, mas não posso deixar de mostrar pro público outras coisas dos outros discos”. E deve pintar até “Um samba”, quer dizer, uma parceria com Carlos Fuchs, do disco “Fossa Nova”, de 2005. E ainda alguma coisa do projeto previsto para sair em junho, como a “Barulho”, parceria com Luís Flávio Alcofra. O novo álbum deverá contar com Luiz, Rogério Caetano e Zé Paulo Becker, em um trio de violões de respeito. “Nós e a companhia companhia do Poder superior, que é Deus. Só isso que posso te adiantar, o repertório é completamente surpresa, inédita, com uma outra do LuizFlávio, ‘Calúnia’, umas regravações da ‘Morena’ (Mauricio Carrilho, e Paulo César Pinheiro) e a ‘Um samba’. Vai ser um disco que sonho em fazer há muito tempo, só com violões, grandes violões, afinal, vivemos em um país de violonistas. Com poucos sambas”. E muita musicalidade, pautada pela tradição de um intérprete em permanente reconstrução de sua própria linguagem. Uma postura que abre mão até do rótulo do samba.

Mais informações:
Show do cantor e compositor Marcos Sacramento e grupo. Hoje, 21h, no Anfiteatro do Centro Cultural Dragão do Mar. Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia). Contato: (85) 3488-8610.


HENRIQUE NUNES
Repórter

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