Artes cênicas

Reunião de demônios

Grupo Experimental de Teatro faz adaptação do clássico romance de Dostoiévski e traz à tona temas políticos

00:00 · 10.08.2018
Atores do Grupo Experimental de Teatro no espetáculo "Os Demônios": clássico de Dostoiévski é a nova adaptação da companhia

O realismo trágico tratado na obra de Fiódor Dostoiévski sobe ao palco em uma nova adaptação do autor feita pelo Grupo Experimental de Teatro. Após se apresentarem com "Memórias Do Subsolo", a companhia adapta o romance "Os Demônios" (1870) e revela a face das mazelas do mundo através dos cinco personagens em cena.

A montagem foca nesse grupo niilista, que assassina o estudante, militante e ativista Ivanov - também chamado de Chatov, acusado de traição.

Bárbara, uma aristocrata burguesa, é interpretada pela atriz e diretora do espetáculo, Angela Moura. Edgleison Sousa (Piotre), George Hudson (Kirilov), Getsêmane Machado (Nikolas) e Sara Síntique (Liza) interpretam os cinco demônios. O papel de Chatov, o estudante assassinado, fica a cargo de um ator convidado.

A peça entrou em cartaz na última sexta-feira (3) e faz hoje (10) sua segunda apresentação, seguindo em temporada nos dias 17 e 24, no Teatro Dragão do Mar, sempre às 20h, sob classificação etária de 18 anos. Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do teatro, no valor de R$ 20 (inteira).

Temas atuais

O livro de Dostoiévski é baseado em um episódio verídico, o assassinato do estudante I. I. Ivanov pelo grupo niilista liderado por S. G. Nietcháiev em 1869. A obra foi escrita um ano depois e permeava as conspirações políticas, falava de delações, corrupções e foi essa temática que atraiu o grupo a fazer mais esta adaptação do escritor russo.

"Chamo 'Os Demônios' de uma obra profética, apocalíptica, por ter sido escrita em 1870. É uma obra que aborda assuntos políticos contemporâneos. Na época, o texto estava muito relacionado com a questão da desumanidade dos partidos, que se tornavam um lugar onde se briga apenas por poder, sem nenhuma preocupação com as pessoas", explica Moura, também responsável pela adaptação do texto.

A peça constitui-se, assim, uma representação de um sistema político decadente e fracassado e consegue chegar na realidade do Brasil. Em cena, as personagens utilizam inclusive discursos de alguns políticos brasileiros.

O próprio texto traz ligações com o que o País vem passando atualmente. "A gente faz um link com o que temos visto hoje. É inevitável não relacionarmos com caso da Marielle (vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março deste ano), até hoje sem solução. Há um interesse político por trás disso, até a própria prisão do Lula também. Todos esses fatores que temos visto hoje têm muito a ver com o que a gente percebe na obra", relata a diretora.

Cena

O Grupo Experimental de Teatro trabalha sempre com textos literários clássicos. Além de Dostoiévski, a companhia já recorreu a textos de William Shakespeare e Bertolt Brecht, sempre fazendo releituras e adaptações nos diálogos, que são de épocas distantes para um público contemporâneo.

Seguindo a abordagem do grupo, o figurino também permeia o clássico, não chegando a ser de época, mas atemporal. "Pesquisamos um figurino de acordo com os personagens, com as características de cada um. Vou fazer uma aristocrata burguesa, então vou me vestir mais ou menos nessa linha. Assim como o revolucionário niilista se veste de acordo com o caráter do personagem", ressalta Angela.

O cenário é formado apenas por um velho sofá, de aspecto decadente, já que é nele onde os demônios se reúnem para fazer seus acordos. O sofá serve para mostrar esse ambiente decaído. A iluminação compõe a cena por meio de uma luz de cor avermelhada por trás do "divã", que escuta as maldades dos cinco demônios. A escolha faz referência ao imaginário do inferno.

Sendo uma obra que fala de política, o microfone de pedestal instalado no palco serve como uma parlamento, onde os principais discursos dos cinco personagens (demônios) são proferidos.

Improviso

O sexto personagem, Chatov, é reservado a um ator que recebe o convite na mesma semana da apresentação. No presente caso, com a temporada acontecendo todas as sextas no Dragão do Mar, ele é chamado no início da semana.

A única informação passada ao escolhido é a de que deve chagar meia hora antes da sessão começar. "É o único comando que passamos a ele", alerta Angela. Durante a semana o ator grava um vídeo falando do convite, informando o local e avisa que não conhece o roteiro, não conhece o texto e não participou da concepção da peça.

Após aceitar o desafio de subir ao palco sem saber o que irá interpretar, o ator exercita o improviso. Como no livro, em que Ivanov (Chatov) não sabe que irá ser assassinado e nem porque foi assassinado, o personagem no palco também não conhece seu destino.

A cada apresentação há um convidado diferente. Na semana passada, o desafio coube ao ator e músico Luis Carlos Prata. Nesta sexta (10) será a vez da atriz e produtora de teatro Amália Moraes descobrir, juntamente com o público, o destino de seu personagem.

Mais informações:

Espetáculo "Os Demônios". Nesta sexta-feira (10) e nos dias 17 e 24, às 20h, no Teatro Dragão do Mar (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). 
Classificação: 18 anos. 
Ingressos: R$ 20 (inteira). 
Contato: (85) 3488.8600

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