Ensaio

Retrato dos sertanejos ou que vêm do agreste

00:00 · 29.11.2013
Chamavam-se sertanejos os humildes que se deslocavam das cidadezinhas do interior para a capital: Fortaleza

Vinham em busca de empregos ou de estudos, aspirando mudar de vida, vencer, mediante grandes esforços para sobrevivência. Quando possuíam pessoas amigas, família e parentes na Cidade, tudo se tornava mais fácil porque logo as referências dadas serviam como ponto de apoio e guarida aos jovens, cuja vontade de vencer era o objetivo principal. Mudando-se para Capital, deixando distante o sertão, mas sem esquecer as origens, tentavam a Universidade, a depender de suas aptidões. Para isso não mediam consequências, porque a glória era lema, desejo ardente de se formar e ser doutor

A obra "Os retirantes", de Cândido Portinari", capta, pelo expressionismo, o drama dos sertanejos, expulsos de sua terra, ora pela seca, ora pelo latifúndio

O lugar

À noite na Casa do Estudante, ocupavam dormitórios sem conforto, alimentação precária, que não chegava, muitas as vezes, a duas refeições - sem muito satisfazer a um jovem que mal saíra da puberdade, e não atingira completamente a juventude. Não podiam, pois, desfrutar a plenitude de estudante - como os de classe média - quase sem amparo da família que deixara no sertão.

Distante da Capital, vinha-lhe pequena mesada para garantir o pagamento das principais necessidades de pensão, "republica" partilhada com outros colegas estudantes sem direito a gasto extra ao orçamento, porque era sacrifício pela escassez de recursos paternos.

Os pais dividiam com os filhos, estudantes na Capital, o fruto do trabalho de roçado com esperança de ver o filho "doutor". Mantinham-os pela lavoura do feijão, arroz, algodão, milho e mamona, ou de venda das peles de animais silvestres, suportando as despesas do filho na Cidade.

O alimento

Oriundos do sertão bravo, o projeto deles eram as altas posições sociais, cargos públicos de relevo, fixando-se dentre altas categorias da nossa região, sofrida com secas assoladoras, ressecando o solo árido, sem vegetação do torrão nascedouro.

Era essa a esperança cultivada em família e o desejo de melhores dias para engrandecer o núcleo e membros que compunham aquela gleba familiar.

O solo enrugado, e ressecado pela ardência solar, forma argila a esperar do céu o precioso liquido, para que florescesse repentinamente, com a relva e babugem criadas pelo orvalho no inverno - alimentação do rebanho.

Advogado

ZENILO ALMADA
Colaborador*

FIQUE POR DENTRO

O olhar sobre as sombras insinuantes

Quando aqui chegavam, os "matutos", ansiosos, queriam de imediato conhecer os lugares surpreendentes e fascinantes como libações, lupanares e outros. Eram folguedos por excelência o centro e demais atrações, sem se cansar de olhar abismadamente e fazer indagações ingênuas aos locais contemplando-os. As sertanejas jejunas daquele ambiente entravam ao samba com remelexos, rebolando-se da cintura aos pés, deixando os dançantes dos diversos salões do curral das éguas em estado de êxtase, e de um paraíso nunca visto nem tampouco imaginado. Era por assim dizer deslumbramento proporcionado por "mulher do fado", que se fazia atrair por olhares concupiscentes ou de "cobra feiticeira", cujo veneno de ninja esguichava nos amendoados olhos castanhos, verdes ou azuis de uma "gata siamesa", cujo laço irresistível para atrair o capiau, como é conhecido matuto ou sertanejo; cujo sotaque, chalaceava com impropriedades causando risos aos pares que esbaldavam no dancing Bola Preta e nos demais salões do Curral, como Azul, Tamanqueiros e Lamparinas.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.