Retrato de uma sociedade - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Cinema

Retrato de uma sociedade

Em "O apartamento", Asghar Farhadi aborda as dicotomias e problemas da sociedade iraniana moderna

00:00 · 09.01.2017 por Carlos Helí de Almeida - Agência O Globo
Cenas de "O apartamento", que disputa o Globo de Ouro de Melhor Produção Estrangeira

O iraniano Asghar Farhadi tem um modo peculiar de construir os enredos dos filmes que dirige. Eles costumam sair de pedaços de diálogo, ideias para um personagem, um detalhe de iluminação ou informação sobre determinado set. Tudo vai sendo anotado e guardado para uso posterior, "até que algumas partes começam a fazer sentido juntas e ganham a forma de história".

O ponto de partida para "O apartamento", que chegou ao circuito brasileiro na última quinta-feira (5) disputando o Globo de Ouro de melhor produção estrangeira, pode estar em uma pergunta, feita em tom de clemência: "Você quer me humilhar diante da minha família?".

"Era uma frase de que gostava muito, por causa de todas as suas implicações, mas não sabia qual personagem poderia proferi-la. Anotei e guardei", contou o cineasta de 44 anos no último Festival de Cannes, em maio, de onde "O apartamento" saiu com os prêmios de roteiro e ator (Shahab Hosseini).

"Há uma outra situação que me pareceu bastante pertinente, envolvendo uma mulher e um táxi dirigido por um homem, que acabei incorporando à trama. Desejava fazer um filme sobre as dicotomias da sociedade iraniana moderna, principalmente no que diz respeito aos conceitos de público e privado, que podem ser também universais", detalha.

Tais dicotomias são expostas a partir de uma história de vingança e mistério envolvendo um professor, Emad (Hosseini), e sua mulher, Rana (Taraneh Alidoosti), ambos integrantes de uma companhia de teatro que encena "A morte do caixeiro viajante", de Arthur Miller.

Forçado a abandonar o prédio onde mora, por causa de uma obra vizinha, o casal muda-se temporariamente para um apartamento no centro de Teerã. Certa noite, na ausência de Emad, o interfone toca, e Rana, pensando ser o marido, libera a entrada de um estranho, que a ataca durante o banho, em incidente nunca mostrado.

Temendo por sua privacidade, Rana recusa-se a dar queixa na polícia e até mesmo a confessar se foi ou não estuprada. O incidente desperta profundo desejo de vingança em Emad, até então um homem afável, adorado inclusive por seus alunos, e que agora prefere ver o agressor de sua mulher "humilhado publicamente" a entregá-lo nas mãos da lei.

"Perante a sociedade, o maior valor que um cidadão tem é a sua reputação, então, a pior punição que alguém pode receber é a perda de sua reputação, a humilhação pública", conta Farhadi, explicando a lógica do pensamento iraniano.

"O julgamento de um criminoso acontece numa esfera privada. Só as pessoas daquele tribunal sabem que ele está indo para a cadeia. Mas até para atos menores, como vandalismo ou roubo, há uma punição considerada legal que é uma espécie de humilhação pública: a vítima leva o criminoso à comunidade onde ele vive e o expõe diante da família e dos vizinhos. Isso não me deixa feliz, mas é assim que os códigos da sociedade funcionam", observa.

Mudanças

A agressão afeta a relação do casal e prejudica o trabalho de Emad na escola secundária onde dá aulas - que separa meninos de meninas - e o desempenho de ambos na montagem de "A morte do caixeiro viajante". Farhadi encontrou um perfeito paralelo entre Emad e Willy Loman, protagonista da peça de Miller, o angustiado e frustrado vendedor que volta para casa determinado a fazer as pazes com a família e com o mundo. O texto original estreou na Broadway em 1949, no auge das transformações urbanísticas de Nova York.

"Toda vez que olho pelas janelas de meu apartamento em Teerã me deparo com guindastes enormes, como se fossem grandes espaçonaves. Tal como a Nova York dos anos 1940 e 50, estamos vivendo uma febre de construções sem precedentes, que demole prédios antigos para construir outros novos e mais modernos", afirma o diretor.

"Em suas primeiras descrições da peça, Miller diz que Nova York está crescendo e se modernizando, mas que há muitas coisas que se perdem nesse processo, como a identidade dos indivíduos, porque eles não conseguem se ajustar às mudanças na mesma velocidade. É exatamente o que está acontecendo com Teerã".

Teatro

Farhadi estudou teatro antes de começar a trabalhar com filmes e séries. Diz que o seu cinema é influenciado pelo treino nos palcos. Já havia trabalhado antes com "A morte do caixeiro viajante", um texto que sempre o intrigou "por seus aspectos multidimensionais", que permite observar a sociedade de uma época por diferentes ângulos, do emocional ao econômico.

A companhia da qual Emad e Rana fazem parte é um retrato da cena teatral iraniana, marcada por montagens semiprofissionais.

"Há muitos teatros e grupos como o de Emad e Rana, semiprofissionais. Muitas peças são encenadas por universitários, mais ousados e abertos à experimentação. Só não são profissionais no sentido de que não conseguiriam sobreviver só de teatro, embora existam peças que permaneçam em cartaz por longas temporadas. E, por incrível que pareça, é uma área menos cerceada que a do cinema", esclarece o realizador, que ganhou fama internacional com "A separação" (2011), vencedor do Urso de Ouro em Berlim e do Oscar de filme estrangeiro.

"Sou mais respeitado pelos iranianos agora. Quando ponho os pés fora de casa, sou recebido como um jogador de futebol (risos)".

Fique por dentro

Desencanto e as entrelinhas barulhentas
 
 
Em “O apartamento”, o fracasso do sonho americano de “A morte do caixeiro viajante” se encontra com o pesadelo iraniano da Revolução Islâmica. Na peça de Arthur Miller, escrita no fim da década de 1940, no pós-guerra, escancarou-se a prosperidade seletiva de uma sociedade em que os ricos ficavam mais ricos e os pobres... Bem, quem se importaria com um velho e humilde vendedor numa nação dourada? O Irã retratado por Asghar Farhadi em seus filmes têm muito dessa decepção com aquilo que “poderíamos ter sido”. Imposições religiosas, preconceitos, machismo, hipocrisia social: está tudo lá, não escancarado para evitar problemas com uma habitual censura do governo pós-1979, mas em entrelinhas que têm tanto valor para suas histórias quanto o enredo principal. Duas ações estão no centro de “O apartamento”. Enquanto os protagonistas Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti), atores e casados, se preparam para encenar em Teerã uma versão persa de “A morte do caixeiro viajante”, eles também lidam com um crime. Numa noite em que Emad demora a voltar, um homem desconhecido entra no apartamento em que o casal vive provisoriamente e agride Rana. A natureza da agressão não é exatamente esclarecida para o espectador, assim como nada fica muito claro num país em que nem todas as verdades podem ser ditas fora das sombras. Entre os ensaios para a peça e a tentativa de se compreender o ocorrido no apartamento, Farhadi expõe as fragilidades do Irã. Seu tom é crítico, porém nunca arrogante. O diretor não se coloca à parte de sua sociedade, o ângulo de sua câmera é de dentro para dentro, apontada para o próprio umbigo. É como se seu cinema não fosse uma denúncia dos problemas iranianos, mas uma exaltação de um povo que luta dia após dia, em pequenos gestos, para enfrentá-los. - (André Miranda, Agência O Globo)
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