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Resgate necessário

Artistas ganham novo fôlego com o crescente relançamento virtual de álbuns que estavam fora de circulação nas lojas

00:00 · 07.10.2017
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Cearenses da Plastique Noir e da Cidadão Instigado estão de olho nas possibilidades de difusão nos meios físicos ou virtuais ( Foto: FRED SIEWERDT/DIV. )
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Os modos de arquivar, escutar, produzir e compartilhar música foram substancialmente alterados nos últimos 17 anos. Se o século XX apresentou a "música em conserva", materializada nos fonogramas, a atual construção da memória musical nos meios digitais apresenta novas características e formas de comportamento.

No artigo "A música em sua contemporaneidade digital: os desafios da construção de uma memória", Gabriel de Oliveira Piotto trava rico diálogo sobre esta nova realidade no terreno fonográfico. O pesquisador aponta que essa recente lógica de produção e consumo musical revela grande mudança no trato e na cultura de se relacionar com a música. Entretanto, apesar de toda a euforia, o texto apresenta algumas observações contundentes.

> Desafios da memória digital

"Grande parte das gravações mais recentes estão sob grande risco de se perderem por causa das mudanças de distribuição da indústria musical. As cópias físicas das novas, e também antigas, publicações estão sendo substituídas pelo áudio digital e distribuídas por companhias terceiras (iTunes, Amazon, eMusic). Ao mesmo tempo, a relação de compra tem se alterado e se limitado apenas ao nível pessoal, não comercial e de entretenimento que, muitas vezes, não é classificado nem como uma compra", observa Piotto.

Publicado em 2016 na revista "Humanidades em Diálogo", da Universidade de São Paulo (USP), o artigo busca, diante dessa nova dinâmica, refletir sobre como se dá a construção de uma memória musical no meio digital. Uma provocação é levantada quando o autor pontua que "em uma situação hipotética, aquele que teoricamente compra uma música digital não se torna o proprietário desta e está impossibilitado até mesmo de transferi-la para um herdeiro ou instituição (prática comum entre colecionadores)".

Outro prisma passível de exploração dá conta de como os arquivos institucionais têm digitalizado seus acervos em busca da preservação destes. O futuro da preservação do áudio pode estar no meio digital. "Além da capacidade de copiar o documento analógico para o formato digital, com grande proximidade ao original, a digitalização permite grande facilidade no transporte, armazenamento e transmissão desses documentos, possibilitando um acesso público mais fácil, ágil e barato", descreve Piotto. É necessária, todavia, toda uma reflexão acerca das ferramentas para o acesso a estas fontes.

Retornos

Essa tendência passa a ser cotidiana em toda uma rede produtiva. Desde as famosa majors do calibre de uma Universal, por exemplo, até iniciativas mais modestas por parte de artistas independentes. Resgatar alguns discos do limbo tornou-se opção viável e atrativa a estas duas realidades da cadeia fonográfica.

Recentes casos de artistas locais são capazes de estabelecer um parâmetro em torno das possibilidades do streaming. O Cidadão Instigado resolveu comemorar os 20 anos de estrada com uma série de relançamentos que atravessam os meios virtuais e físicos.

Além de uma turnê repassando faixas de todos os discos do grupo, a banda liderada por Fernando Catatau soltou no mercado versões em LP dos seus quatro discos de estúdio. Outro atrativo foi o resgate da demo/EP de 2000.

Além da escolha em disponibilizar este primeiro trabalho em plataformas de streaming, a demo pode ser adquirida e ouvida no formato K7. Distribuída pela EAEO Records, de João Noronha, a fita tem edição limitada e inclui as faixas bônus "Zé Doidim" e "O Resto Da Tinta".

Já a turma do Siege Of Hate (S.O.H) lançou uma edição caprichada do trabalho de estreia, "Return To Ashes" (1997). À época, este disco circulou nos formatos K7 e CD-R e estava fora de catálogo. Após uma revirada no arquivo pessoal da banda, as nove faixas originais ganharam remasterização e retornam em edição limitada a 500 cópias. Além do material original, o CD Digipack conta com 25 músicas bônus, livreto com 16 páginas contendo fotos, cartazes e depoimentos dos músicos envolvidos no projeto.

Outro caso curioso envolve os cearenses da Plastique Noir. O debut do trio, o disco "Dead Pop" (2008), está com a prensagem esgotada. Em um site especializado em vendas como o Discogs, uma cópia deste trabalho chega a custar $45, algo em torno de R$141. Entretanto, o álbum pode ser ouvido via streaming.

Vale citar que esses três exemplos se integram totalmente em meio à revolução tecnológica das duas últimas décadas. Atuando no underground, estes grupos buscam formas profissionais de divulgar sua música.

É curioso entender como o caso do citado "Dead Pop" (que ainda vai completar 10 anos de criação) se enquadra nesse processo de atenção à memória. A forma mais rápida de acessar e ouvir este trabalho será através da internet.

O recurso do digital também é realidade para os medalhões da música. No último mês de setembro, a Universal Music apresentou um catálogo nas plataformas online recheado de grandes nomes. Altemar Dutra, teve três álbuns na lista: "Altemar Dutra Especial" (1990), "Mensagem" (1963) e "A Grande Revelação" (1963).

Clara Nunes marcou presença com o álbum "Alvorecer" (1974), que traz sucessos como "Meu Sapato Já Furou" e "O Que é Que a Baiana Tem". Evaldo Braga teve o disco "O Ídolo Negro" (1973) incluído no pacote.

Retornando ao pensamento de Piotto, ele discorre que a primeira memória musical é aquela que se dá exatamente na memória pessoal de cada indivíduo, sendo a memória digital um recurso para auxiliar e evitar o esquecimento.

Ele mostra um questionamento: "não depositamos confiança demais em uma memória muleta, uma bengala digital que talvez possa estar rachada ou então simplesmente passível de sumir subitamente?". A se pensar.

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