Ensaio

Relações entre a tragédia e o teatro alencarino

00:51 · 31.08.2013
Agora vamos ver outros elementos a serem considerados esboçando uma trajetória resumida da tragédia e em que ela se compara com a obra alencarina. O primeiro dos pontos é o fato de a tragédia descrever um comportamento vicioso em relação ao herói. A conduta escravista de Jorge atende a todas as características da armatía: o comportamento de Jorge é uma ação fruto de "voluntariedade", ou seja, o herói decide realizar o ato; deve possuir "liberdade" para fazê-lo, sem coerção externa; deve ter sempre "conhecimento" das opções possíveis além daquela ação e, por fim, o comportamento precisa possuir também um caráter de" constância", ou seja, ser reiterado outras vezes e não apenas uma.

A identificação

A apresentação dos personagens deve ser acompanhada com empatia pelo público, à medida que as característic são tomadas como suas pelo público. Dar-se aí "um processo de reconhecimento": o espectador projeta-se nas qualidades do personagem. No início as características de Jorge eram todas positivas, bem como o seu relacionamento com Elisa. O público por conta dessa positividade se espelha no personagem.

Em seguida, dentro dos fenômenos teatrais trágicos, vem a reversão. Após a identificação, o público percebe que o herói não é tão perfeito assim. Deve ainda o herói reconhecer o seu erro; fenômeno chamado de anagnórisis, seria o autorreconhecimento. E por fim teríamos a catástrofe e seu resultado seria a catarsis, que purificaria o espectador. Segundo Aristóteles: "suscitando a compaixão e o terror, a tragédia tem por objetivo obter a purgação dessas emoções".

A reversão

Em "Mãe" há todos os fenômenos de uma tragédia burguesa. No momento em que Jorge sofre ao ver Joana sendo maltratada por Peixoto, dá-se a reversão, pois a imagem de herói burguês é destruída, embora Jorge não saiba que Joana é sua mãe; já o público sabe e percebe que ele faz sofrer a pessoa que o tanto quer bem. O espectador percebe a harmatía de Jorge. Ele reconhece seu erro quando já esclarecida a revelação e com Joana fugida, Jorge lamenta-se: "E ter vivido vinte anos com ela, recebendo todos os dias, a todos os instantes as efusões desse amor sublime!... e não adivinhar!... Não pressentir!... Perdão, minha mãe!..." Aí aconteceu a anagnórisis.

A epifania

A catástrofe faz o espectador perceber as consequências de se cometer um erro. O suicídio de Joana protege a integridade social do filho. Para que ele não fosse estigmatizado por ser filho de uma escrava. Com a catástrofe, seguindo a ordem apresentada dos elementos, nós teríamos a catarsis do espectador. Ou como chama Aristóteles a purgação das emoções. Por meio da piedade e do temor do espectador em relação ao herói haveria aí um ensinamento transmitido pela peça. O espectador sentiria piedade de Jorge por inicialmente ter tido empatia por ele. Por saber que ele apenas cometeu aquele erro, mas que sua essência não é ruim. Sentiria temor por saber que aquele erro também poderia ser cometido por ele. O sacrifico de Joana, ao fim do drama, seria uma metáfora da sociedade burguesa. Quando o casamento de Jorge e de Elisa só acontece por conta da venda de sua mãe e se concretiza após a morte de Joana, nós vamos ter aí como se a sociedade burguesa só se tornasse realmente burguesa quando desse fim a escravidão.

O interessante aqui é como José de Alencar tem essa visão ampla da tragédia. Ao ver como um método didático capaz de transmitir suas perspectivas antiescravistas, como bem percebeu. Se para Aristóteles a tragédia estava ligada a imitação dos heróis, reis, homens superiores, em mãe, para termos esse ser superior é necessário apenas que Jorge abandone a sua harmatía Como foi possível perceber há semelhanças entre a tragédia grega e a burguesa. Utilizar-se de Aristóteles em nossa análise foi necessária, pois o caráter pedagógico de tal gênero não é deixado a margem e sim materializado através da reação do público.

As duas peças

Antes de José de Alencar escrever as peças Mãe (1860) e Demônio familiar (1857), teve sua atuação em romances e na peça Verso e Reverso (1857), uma comédia em dois atos, que seria uma miniatura elegante de episódios copiados da vida comum, da vida real, que seriam ligados a sua idéia poética. A primeira representação da peça foi feita sem ser sabido o nome do autor e trazia uma idéia central, o efeito do amor nas impressões do homem. Essa idéia permeia todas as peças de Alencar. Ele utiliza o amor para redimir os personagens e para puni-los.

Comparando os escravos da peças temos que tanto Joana quanto Pedro são personagens apaixonados.

Pedro, o moleque escravo da peça Demônio familiar, no início da trama era o mimo da família, o enfant galé, que no decorrer da peça irá abusar de todas as liberdades impostas pela sua posição especial, tudo por um objetivo: ambicionava se tornar pajem ou cocheiro, que para nós seria ambições fúteis, para o menino seria uma forma de tentar se inserir socialmente, tendo mais atuação frente à sociedade.

Uma metonímia

A Família retratada na obra mostra o verdadeiro espírito da época da família brasileira, pois acaba por reinar um clima de convivência e paz doméstica. As ambições e a fofoca de Pedro proviam do amor que o menino sentia pelos senhores. Ele achava que dessa forma estaria ajudando, na verdade estava fazendo o contrário, assim ele acaba sendo punido. Seus senhores lhe dão uma carta de alforria, assim ele passa a mendigar e a viver longe dos entes queridos. Dando continuidade ao amor vividos pelos personagens, esse será uma característica de Joana, escrava da peça Mãe, que há anos mantém o segredo da maternidade de Jorge, seu filho querido e adorado. Ela sempre o criou, o educou e o ajudou. Ele se torna advogado e sempre manteve um carinho pela escrava, ele a liberta por meio da carta de alforria, mas acaba a vendendo, devido os problemas financeiros enfrentado pelo futuro sogro.Jorge acaba por vender a mãe , ao fim o médico revela o segredo, Joana se suicida com o veneno achado na casa pertencente ao futuro sogro do filho. O motivo relevante para a Joana acabar com a própria vida foi o amor, pois ela preferia morrer a causar dor e vergonha ao filho por ter uma mãe escrava.

Vasos comunicantes

Tentando fazer uma aproximação entre as peças percebemos que José de Alencar tratou do tema da escravidão em ambas, tentou retratar as angústias e esperanças humanas de maneira mais realista e verdadeira que irão girar em torno de um conflito geral, no caso das peças citadas aqui, temos o da inconveniência da domesticidade escrava e os problemas advindos da escravidão, pois esses escravos acabaram por se intrometer na vida dos senhores e causarem transtornos. Esse posicionamento retratado nas peças advém de José de Alencar ser escravocrata, pois ele via a liberdade dos escravos como uma agressão ao direito da prosperidade, pois o direito existente na constituição só era destinado aos constituintes do império, ou seja, os senhores donos de escravo. Há uma moralidade em cada peça, esse caráter provém da pedagogia imposta de Alencar como forma de "educar" a sociedade, pois ele fazia desta um espelho da sociedade. A moralidade imposta nas duas está referida nos costumes que devem ser condenados, como: fazer fofoca, mentir, utilizar intrigas para se favorecer, etc.

Conclusão

As peças possuem várias características em comum, que ao fim irão dá um caráter pedagógico à obra: conscientizar os leitores dos problemas vividos do século XIX. É um José de Alencar mais realista no retrato da sociedade, trazendo seus questionamentos, seus dramas, como forma de mostrar suas ideologias.

Assim, contemplamos o estudo apontando e direcionando a leitura das peças do senhor José de Alencar, contemplando a tudo que foi dito inicialmente e mostrando um José de Alencar diferente do tão conhecido romancista, o eterno cantor da nossa brasilidade. (L. P. A & S. M. A. F. )

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