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Reino do eu mesmo

Ex-astro dos filmes de ação, Jean Claude Van Damme aumenta fileira dos astros que se entregam à autoparódia

Acima, James Franco, Jonah Hill, Craig Robinson, Seth Rogen, Jay Baruchel and Danny McBride interpretam eles mesmos no filme "È o fim";abaixo, Jean-Claude Van Damme na série "Jean Claude Van Johnson"
00:00 · 03.01.2018 / atualizado às 11:41 · 04.01.2018 por Antonio Laudenir - Repórter

Com uma desenvoltura singular, Peter Sellers (1925-1980) criou inúmeros personagens para as telonas. Às vezes, encarnando mais de um papel, caso do irretocável "Dr. Fantástico" (1964), o britânico atravessou da comédia ao drama e integra uma seleta lista de artistas versáteis. Entretanto, o lado pessoal do astro era afetado por essa facilidade em construir tipos.

Como revelou uma de suas esposas, o genial e genioso Sellers adentrava com tal intensidade outras vidas que, no caso dele, a fronteira entre o que era real ou ficção era imprecisa. Um bom aprofundamento deste tema pode ser apreciado em "A Vida e Morte de Peter Sellers" (2004), cinebiografia que desvenda o cotidiano errático de um homem preso em muitas facetas.

Sellers, assim, confundia-se com as criaturas concebidas por ele. O exemplo do inglês suscita questionamentos sobre onde começa e se encerra o faz de conta. Lança dúvidas sobre quem realmente segue no comando das emoções, o criador ou a criatura. De vez em quando, a carreira de um ator irá levá-lo a olhar para dentro de si mesmo e a relação entre intimidade e lado profissional pode resultar em substanciais narrativas tanto para o cinema quanto TV.

Filmes e séries baseadas nas vidas reais dos próprios atores é algo regular no universo do entretenimento. Atuando como si mesmos, estes realizadores escancaram o fetiche dos fãs sobre o cotidiano dos famosos. Cria-se assim um jogo metalinguístico responsável por esfarelar as aparências. Entre os figurões que circulam por Hollywood, Jean-Claude Van Damme mergulhou neste filão e vem se dedicando a trabalhos que revisam sua imagem enquanto personalidade.

Redenção

Nome quente no cinema de ação da década de 1990, o belga sentiu o impacto do ostracismo nas décadas seguintes. Para se ter uma ideia, nesse intervalo de tempo o astro encabeçou uma série de filmes que foram direto para o DVD. Excetuando uma participação como dublador em "Kung Fu Panda 3" (2016) e o papel de vilão em "Os Mercenários 2", o último filme protagonizado pelo ator, hoje com 57 anos, a ser lançado no cinema foi "Replicante", em 2001.

Com "O Grande Dragão Branco" (1988) e "Kickboxer - O Desafio do Dragão" (1989), Van Damme angariou grande popularidade entre a molecada daquela era. Ciente de toda essa trajetória de sucessos e falhas, o eterno Frank Dux compreendeu que sua persona renderia, assim, um bom roteiro. Depois do elogiado "JCVD" (2008) - em que interpretava um astro de filmes de ação decadente, que voltavam a seu país natal -, o ator retorna ao universo da autoficção com "Jean-Claude Van Johnson". Produzida pela Amazon Studios, a série foi disponibilizada na plataforma de streaming Amazon Prime Video, no mês passado.

Criada por Dave Callaham, roteirista de "Os Mercenários", a série ganhou uma primeira temporada com seis episódios, de meia hora cada. Todos foram dirigidos por Peter Atencio, que havia feito "Key & Peele", para o canal pago Comedy Cental. Jean-Claude Van Damme interpreta uma versão de si mesmo. Ele ainda é o ator que vive confortavelmente graças aos bem-sucedidos filmes de ação que fez no passado; mas este Van Damme de uma realidade paralela, porém, esconde um segredo: ele também é o agente secreto Jean-Claude Van Johnson, e o trabalho de ator foi usado como disfarce para combater o crime mundo afora.

A comédia com elementos de ação (claro) devassa uma estrela em decadência. Emerge, assim, a figura de um artista cujos os problemas emocionais são intuídos pelo próprio público. Van Damme ri de si mesmo e faz troça de seu desapego com Hollywood e de todas as seduções advindas com a fama.

"Jean Claude Van Johnson" percorre dois caminhos distintos. É tanto uma homenagem divertida à carreira de Van Damme, como uma ácida visão da própria indústria do entretenimento. No primeiro caso, são explícitas as referências à filmografia do ex-campeão belga de fisiculturismo e tiradas com seus sucessos - caso de "Soldado Universal" e "Timecop" - são encaixadas na trama.

Por outro viés, a série discute o quanto a fama custa caro nessa área. Trata de como a ditadura da beleza e a indústria do entretenimento podem incutir nesses sujeitos uma vida sem graça e mediada por episódios de depressão. Quando os holofotes se apagam, sobra nesse instante a indecisão sobre quem seja mais importante, o homem Van Damme ou suas glórias do passado.

Esse processo de criticar os desmandos e desvios em Hollywood foi retratado de maneira radical em "Crepúsculo dos Deuses" (1950). Na obra prima de Billy Wilder (1906-2002), vemos Gloria Swanson (1899-1983) como Norma Desmond, uma decadente atriz da era do cinema mudo que insiste em viver dos tempos áureos. Em uma das cenas mais perversas do cinema, Norma participa de um jogo de cartas com os amigos de cinema mudo. Apelidados de "bonecos de cera" pelo cínico roteirista vivido por William Holden (1918-1981), entre estes convidados está Buster Keaton (1895-1966) como ele mesmo.

Essa visão amarga desnudou a verdadeira face de Hollywood. Explanou como o sucesso e o ostracismo das estrelas pesam em medidas extremas. Adverte sobre o lado cruel da indústria cinematográfica de forma como nunca antes houvera sido feito. A interpretação de Gloria para sua Norma é irretocável. As duas, em certa medida, tiveram o mesmo passado.

Aspectos

Quando se estabelece um paralelo mais severo sobre produções desta natureza, no caso, filmes e séries que partem das histórias reais dos artistas, é notório como o segmento do humor acolhe bem essas narrativas. Em "Life's Too Short", acompanhamos a versão ficcional do ator Warwick Davis, famoso por seus papeis em "Willow" (1988) e "Guerra nas Estrelas: O Retorno de Jedi". A premissa da obra é apresentar a luta do ator anão para se manter no mercado. Esse clima de paródia é presente em "Curb Your Enthusiasm", onde o ator e produtor Larry David brincam com os bastidores do show business.

Vale destacar que ao longo dos anos é comum a prática de atores fazerem pequenas pontas como eles mesmos em alguma produção. Nos exemplos citados, no entanto, os artistas tem papéis centrais e a projeção da intimidade destes artistas é capaz de elaborar uma história que reverbera nos modos de consumo do cinema.

Trabalhos como "Quero ser John Malkovich" (1999), "My Name Is Bruce" (2007), "Almas à Venda", "Eu Ainda Estou Aqui" (2010) e "É o Fim" (2013) contribuem, cada um ao seu modo, para essa perspectiva sobre a Sétima Arte. Infelizmente, na maioria das obras pesquisadas predomina a incidência de histórias masculinas. Sinal de que o entretenimento tem muito a evoluir ainda.

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