Audiovisual

Regulação para o streaming

Netflix, plataforma que domina hoje o streaming de produtos audiovisuais: só no Brasil são sete milhões de assinantes e receita maior que emissoras tradicionais
00:00 · 21.04.2017 por Guilherme Genestreti - Folhapress

A sombra da Netflix e a ameaça dos serviços de VoD (vídeo sob demanda) sobre a indústria do cinema dominou debate entre gestores de órgãos estatais do audiovisual de França, Alemanha e Brasil.

O encontro, realizado na última quarta (19), no Rio, foi organizado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema). Em comum, defenderam a regulação desses tipos de serviços como forma de preservar o cinema tradicional.

"A sala de cinema é o elo indispensável para a promoção e exploração de filmes", disse Christophe Tardieu, diretor-geral delegado do CNC (Centre National du Cinéma et de L'Image Animée), entidade que regula a atividade na França. "O VoD é incrível, mas deve acontecer sempre depois do cinema". A França, um dos maiores mercados audiovisuais do mundo, trava uma queda de braço com a Netflix, que esquentou assim que foi anunciada a seleção oficial do Festival de Cannes deste ano, no último dia 13.

Dois filmes que compõem a mostra de cinema, "Okja" e "The Meyerowitz Stories", são produções da Netflix, que anunciou a estreia de ambos diretamente na plataforma sem passar pelas salas de cinema, o que desencadeou a ira da entidade audiovisual francesa.

"A ideia não é dizer que a Netflix é do mal por ser americana", disse Tardieu. "Mas é indispensável que ela seja tributada. Consideramos que é lógico que serviços de vídeo sob demanda ajudem nisso porque vão viver da exposição dessas obras".

Na França, a janela de exibição, isto é, o período entre a estreia de um filme nos cinemas e a sua chegada a plataformas sob demanda, vai de 22 a 34 meses. Nesse ínterim, boa parte dessas produções é exibida em TVs por assinatura. "É natural favorecer aqueles que investem nos filmes. E quem mais investe são os canais pagos, que dedicam 12,5% de seu faturamento ao investimento em novas produções", afirmou Tardieu.

Risco

Peter Dinges, que preside o FFA, entidade alemã do audiovisual, fez coro, mas ressalvou que o modelo convencional das salas de cinema corre risco de extinção. "Não há futuro para o cinema tradicional, aquele que oferece todo tipo de filme e simplesmente espera pelo cliente".

"Especializar a sala com base na sua clientela é a solução", completou Dinges, que citou como exemplo locais que oferecem propostas de cardápio "gourmet" ou realizam grandes eventos, como concurso de fantasias, para promover certos tipos de filmes. Ao abrir o evento, o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, tratou do crescimento do mercado audiovisual brasileiro nos últimos 15 anos - aumento das bilheterias, dos assinantes de TV por assinatura e do número de salas de cinema -, e também defendeu regulação dos serviços de vídeo sob demanda.

"O vídeo sob demanda é a próxima fronteira do audiovisual", disse. "Eles têm relevância econômica o suficiente para requerer uma regulação do Estado. Só a Netflix tem 7 milhões de assinantes e receitas superiores às do SBT, vice-líder em audiência na televisão", completou

A Ancine deve publicar a notícia regulatória sobre esses serviços ainda neste ano. Rangel também detalhou o aumento do número das salas de cinema no Brasil. "Em 2016 mais salas foram abertas no interior do que nas capitais. E isso tem sido também muito forte nas cidades do Norte e Nordeste".

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