Ensaio

Regine Limaverde: especulações em torno de um discurso poético

Palmilhar um livro de poemas, se bem urdido, é , antes de tudo, fundir labirintos e longas e sinuosas veredas

00:00 · 10.08.2014

Estando em todo lugar, pouco importando o corpo em que assome, a poesia é, antes de tudo, um estado. Se existe é, sobremaneira, para provocar estranhamento, ou seja, para tirar aquele que a contempla da imobilidade de seu conforto, dando movimentos à paralisia do, antes, invisível. Eis o motor de "Canção do amor inesperado", de Regine Limaverde - uma composição substancialmente lírica, concentrada na expressão de sentimentos; não como simples confissão, mas, sim, espelho do que é perene na efemeridade do drama da existência.

A abertura

Abre-se este livro com um soneto, de forma desconstruída, uma vez que não finca uma métrica rigorosa, tampouco obedece a um rígido esquema de rimas. E nada mais intrigante do que a leveza que escorre desses ritmos quebrados, a passar a perna nos que não se permitem surpreender com possibilidades outras, que não as impressas a ferro e fogo em antiquíssimas tábuas. Toda a sua força, portanto, concentra-se na tessitura da densidade de seu lirismo, de que se evola a função emotiva, isto é, a que se concentra no eu, em torno qual gira o interesse da comunicação. Eis os versos de "Premonição": (Texto I)

Leitura do poema

A primeira estrofe desse poema, como uma espécie de epígrafe, antecipa ao leitor uma das singularidades da construção poética desse livro: os jogos de revelar e de esconder. Nesse sentido, em seus quatro versos, o erotismo é mais estético do que carnal, consoante a confissão: "eu o desejo assim: poesia dentro de mim" (v.4). Por sua vez, a voz de abertura ("Já madura, antevendo um solitário fim," - v.1) descortina aqueles jogos - os de revelar e de esconder - pois, ardilosamente, conduz o leitor a uma falsa direção: ora, o ritmo alexandrino, em perfeita harmonia com a desolação advinda da premonição de que, em breve, a velhice há de advir com suas ofertas de inexoráveis perdas, costura uma atmosfera anunciadora de frustrações. O verso seguinte parece reforçar tudo isso, ao colocar o eu lírico nas mãos das forças fatais da natureza: "se do destino ganhar um novo amor" (v.2); os dois versos finais confirmam a postura de imobilidade da voz lírica: esta tão somente alude a uma aspiração ("eu o desejo assim..." - v.4), sem tomá-la, entanto, como um fio condutor do haver.

Outro movimento

Nos dois tercetos, dá-se a dessacralização do "Amor", convertido, agora, em metonímia de um "amante", habitante de um espaço profano, sendo, por extensão de sentido, ele, o amante, representado pela imagem "adaga" (v.12) - fruto da fusão de um processo metonímico e metafórico; inscreve-se, portanto, como a imagem fulcro do poema, já que inverte a postura do erotismo: antes, estético; agora, carnal: (Texto II)

Por fim, considerando-se os recursos expressivos - a linguagem figurada e os processos de edificação textual - e os da organização semântica, constata-se a desconstrução formal orientadora dessa composição: se o soneto, enquanto forma poética, comporta, a rigor, uma estruturação lógica - introdução, desenvolvimento e conclusão - este possui tão somente dois movimentos, ordenados, com vigor, pelo processo da gradação.

Trechos

TEXTO I
Já madura, antevendo um solitário fim, / se do destino ganhar um novo amor, / não, não o desejo pulsando em parto ou dor, / eu o desejo assim: poesia dentro de mim. /// Quero-o na noite estrelada, no sol / nas tardes, nas manhãs orvalhadas. / Quero-o sussurrando baixinho, / teso, amando-me nas madrugadas. /// Quero seus toques e eu gritando / de amor, de prazer, de paixão / quero partir ficando e fincando /// sua adaga amada e eu delirando / sua boca a falar ao meu coração / e eu chorando, chorando e gozando. (p.27)

TEXTO II
Não importa muito, no mundo de hoje, por onde se começa a abordagem de um tema, desde que se continue até voltar ao ponto de partida. Como se, começando por uma esfera ou um cubo, se continuasse até ter mostrado o objeto de todos os lados. Ou, se se quer falar sobre uma mesa, é preciso continuar até que ela tenha três pernas e possa ficar em pé ou quarto pernas e já não corra o risco de balançar tão facilmente. (Pound, 1959, p.24)

Fique por dentro

Notas líricas acerca da autora e de sua obra
A escritora Aíla Sampaio, (professora da Unifor) que se dedica, com plenitude, à poesia e ao ensaio, fez a seguinte síntese: Regine Limaverde é poeta de muitas estradas, muitos percursos, alguns desvios. Sim, desvios, porque a prosa também a seduz. E a seduz também o ensaio científico. Mas a poesia é que é seu caminho mais largo para todos os portos e estações, e nela cabem todas as veredas e desvios que a vida prepara. A poeta, movida integralmente pelos quatro elementos - água, terra, fogo e ar -, construiu sua poética amorosa com raízes bem fincadas e certezas; é mulher-mãe-avó-amiga apaixonada, rendida e, declaradamente, 'mais coração do que carne e osso'. Essa mesma mulher de raízes presas a terra articula voos por territórios diversos, feito pássaro; vira vulcão e navega mares, mas sempre aporta no cais, pois seu estro é o amor vivido, compartilhado, amor com carnação, beijo e abraço.

Na segunda estrofe, os dois primeiros versos conservam ainda o "amor", em seu estado de abstração, em sua materialidade de Nume, deslocando-se, por entre a alternância das horas, estampadas em variados tons, num misto de sensações táteis e visuais; e, paulatinamente, ele, o Amor, como uma concha, trescala sussurros, até a corporificação: "teso" (v.8)

Carlos Augusto Viana
Editor

Comentários


Li e aceito os termos de regulamento para moderação de comentários do site.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.