Ensaio

Reflexões sobre mitologia, individuação e criatividade

A mitologia sempre fascinou a humanidade. Com seus heróis poderosos e seus monstros fantásticos, os mitos parecem ser um mundo a parte que, no fundo, desejamos ter sido apenas esquecido

00:00 · 25.05.2014

Gostaria de começar esse texto trazendo uma problemática levantada por Campbell (2008) em uma de suas palestras e que foi transcrita no primeiro capítulo do livro Mito e Transformação, organizado por David Kudler. Nesta ocasião, Campbell conta como foi perturbador para ele testemunhar a viagem à lua da Apollo 10. Nesta viagem, anterior à alunissagem propriamente dita, três homens voaram ao redor da lua na época do Natal. Conversavam sobre como a lua era árida e desolada e para comemorar a data festiva, começaram a ler o primeiro capítulo do Livro do Gênesis.

Mitologia viva

Naquelas palavras antigas, o cosmos era explicitamente diferente daquele que eles atravessavam. Não parecia um bolo achatado de três camadas, criado em sete dias. O texto do Gênesis falava da separação das águas acima e abaixo do firmamento no mesmo momento em que eles apontavam quão árida a lua parecia. Diante disso, Campbell comenta: "a enorme lacuna entre a tradição religiosa e a situação física concreta mexeu muito comigo naquela noite" (CAMPBELL, 2008: 35). Seu questionamento representa a necessidade humana de possuir um modelo explicativo tão forte quanto são estes das grandes religiões e que ao mesmo tempo faça sentido diante de um universo verdadeiro experienciado.

Mitologia viva

A este tipo de discurso que é válido para uma cultura tanto do ponto de vista racional ou consciente como do ponto de vista místico ou inconsciente chamamos de mitologia viva. Contudo, os diversos processos de racionalização pelos quais passamos, principalmente no chamado lado ocidental do planeta, levou-nos progressivamente a substituir as explicações mitológicas pelas explicações lógicas e científicas. Bachelard (1991 apud DIEL,1991), prefaciando o livro de Paul Diel intitulado "O simbolismo na mitologia grega", diz que todo mito é um drama humano condensado. Com o interesse de pensar o papel do mito para o psiquismo do individuo e seu desenvolvimento, nos propusemos a investigar o processo de individuação, nome dado por Carl Gustav Jung a um modelo específico de desenvolvimento psíquico, as características do discurso mitológico e o processo de criatividade de forma a poder fundamentar o pensamento mitológico como catalizador do desenvolvimento humano do ponto de vista psicológico, bem como aproximar o processo de individuação do processo criativo afim de melhor entender a subjetividade que enfrenta este processo.

Mitologia comparada

Os mitos não são apenas histórias. Muitas vezes entendida como ficção e confundida com outras histórias tais como fábulas ou alegorias, a história mítica representa muito mais de que apenas um discurso ou imagem fantástica. Através dos mitos, diversos homens e culturas suportaram e descobriram a vida. Para Joseph Campbell, grande estudioso no campo da mitologia comparada, um mito não é apenas uma história sobre criaturas fantásticas e feitos heroicos, um mito é uma janela para o transcendente.

Segundo ele, os símbolos de uma mitologia "são produções espontâneas da psique e cada um deles traz em si, intacto, o poder criador de sua fonte" (CAMPBELL, 2007, pág. 16). A ideia do transcendente aqui é bastante cara e é através dela que faremos algumas conexões com outros temas abordados. De acordo com o dicionário Aurélio (FERREIRA, 1999), transcender significa, entre outras coisas, ultrapassar, ser superior a, passar além de.

Desta forma, o substantivo "transcendente" geralmente se refere à coisa ou estado que se distingue por uma qualidade elevada, superior ou posterior em uma escala de desenvolvimento ou valor.

FIQUE POR DENTRO

A presença dos mitos na cultura ao longo das eras

Em tempos passados, os mitos eram a parte central da cultura e da verdade sobre o mundo, de forma que toda civilização antiga já se utilizou, em algum momento, deste discurso e desta forma de pensamento. A partir destas percepções, nos perguntamos que papel tem uma mitologia para o homem e, mais especificamente, para o indivíduo psicológico. Através de uma indução analítica com base bibliográfica e documental, buscamos em Rollo May, Joseph Campbell e Carl Jung fundamentações que justifiquem o papel dos mitos no desenvolvimento psicológico do indivíduo que, tal como parece acontecer com as mitologias, envolvem, em grande parte, processos de criatividade. Percebemos através das análises, que através de símbolos vivo, uma mitologia pode fundamentar o amadurecimento psicológico do indivíduo, mais especificamente no que diz respeito ao processo de individuação. Ademais, vimos como esse desenvolvimento é árduo na medida em que coloca o indivíduo frente ao inédito de si, que não tendo precedentes exige uma postura de coragem essencial para o movimento criativo autêntico.

José Krishnamurti*
Carlos Velázquez**
Especial para o ler

Graduando em Psicologia pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza) e em Filosofia pela UECE (Universidade Estadual do Ceará). Bolsista FUNCAP do grupo de pesquisa MITHO - UNIFOR. Jkrishna.Cf@hotmail.Com

 

* Doutor em música antiga pelo Conservatório Nacional de Rancy, França. Coordenador do Movimento Investigativo Transdisciplinar do Homem - MITHO - UNIFOR. Caveru@unifor.Br

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