Ensaio

Reflexões sobre europeísmo e iberismo

00:18 · 13.04.2013
Porém, com o aprofundamento dos estudos em torno da lusofonia, Lourenço muda de opinião e passa, então, a publicar diversas reconsiderações em relação ao que antes havia defendido, inclusive dirigindo críticas acirradas aos seus antigos "companheiros", como é o caso de Roberto Freyre.

Revela, principalmente, como nos informa Freixo (2009, p. 162-163) a preocupação de que a lusofonia conduzisse-nos de volta, de modo ilusório e prejudicial, ao "mito imperial"; visto agora como uma utopia que em muito contribuiu para o atraso de Portugal.

Mais um ponto

Destaca ainda a crítica de Lourenço com relação à natureza essencialmente portuguesa da lusofonia: embora a lusofonia fosse, teoricamente, comum aos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), na verdade, ela acabava por conceder certas regalias, prioridades e supremacia a Portugal em relação aos demais O que nos permite afirmar que a voz de Lourenço, antes de exaltação, tornou-se de desconstrução. Assim, ele acaba por defender uma nova concepção de lusofonia, "uma lusofonia polifônica, na qual as diversas vozes que a compõem deveriam ser escutadas" (FREIXO, 2009, p. 163). Foi um dos edificadores do período de exaltação; mas, ao mesmo tempo e paradoxalmente, deu início ao período de desconstrução.

Dois veios

Reforçando o período de desconstrução, temos a voz de Margarido que, como afirma Freixo (2009, p. 164), "desconstrói de forma radical este projeto". Para o primeiro, a lusofonia é um engodo, ou melhor, uma manobra política, que mascarou outras intenções veladas de Portugal que teria usado a língua portuguesa como elemento primordial de unificação quando, na prática, nem mesmo esse argumento era, assim, absolutamente verdadeiro: (Texto III)

Uma falácia

Para Margarido, a língua foi "usada" como argumento, de forma falaciosa, para atingir objetivos políticos. Assim, fica claro que, antes, no período colonial, quando Portugal detinha a hegemonia política sobre as colônias, não houve esta "valorização" linguística. Destaca outras questões tais como: o fato de Portugal não tratar bem os imigrantes brasileiros e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Comentando Margarido, Freixo (2009, p. 167) afirma: "o fato de serem lusófonos não lhes cria facilidade alguma para transitar e se estabelecer na "pátria-mãe" da lusofonia. Concordamos com Freixo (2009, p. 168) ao finalizar acerca das críticas de Margarido: "a quebra da ideia de lusofonia - e dos mitos sobre os quais ela se sustenta - aparece como uma condição essencial para que Portugal atinja, enfim, a modernidade". Ao acompanhar, então, os percursos dessas vozes, desde o luso-tropicalismo de Roberto Freyre até a "lusofonia polifônica" de Margarido, a reflexão que ora desenvolvemos nos conduz a advertir sobre a seguinte questão: analisando os dois percursos, de exaltação e de desconstrução, claramente evidenciamos uma evolução do pensamento acadêmico em torno do tema

No sentido literal, o europeísmo é a "tendência a admirar e/ou imitar o modo de vida, os valores, a cultura etc. da Europa e/ou dos europeus" ou, europeísmo é a "influência exercida pela Europa sobre os países de outros continentes; eurocentrismo", como nos informe Houaiss (2009, p. 850). Entretanto, politicamente, o sentido do termo vai muito além destes verbetes. Resumidamente: refere-se à proposta de união entre as nações europeias visando à comunhão econômica e política e até mesmo a uma mudança na concepção de nações na qual o continente europeu se organizou até hoje. Entretanto, esta proposta implica em desdobramentos nem sempre favoráveis a todos os países participantes dela, como nos adverte Cruz (1992, p.12): (Texto IV)

A outra face

Como afirma Cruz (1992, p. 1) a questão do europeísmo é, teoricamente, muito simples e positiva; entretanto, na prática, a questão se complica muito. O que, a princípio, parece-nos de fácil aceitação, se considerarmos, com mais atenção, a situação de Portugal, diante das disparidades e distâncias geográficas mencionadas por Cruz (1992) no fragmento destacado, perceberemos que, a posição dos países ibéricos, principalmente a de Portugal, não é muito confortável.

Segundo muitos estudiosos da área, Portugal jamais teria os mesmos direitos de voz que têm os países como, Alemanha, França, Itália e outros, tampouco - o que é singular- seria visto como igual nesta comunidade europeia.

Desse modo, o termo europeísmo que deveria soar como algo positivo a todos os portugueses, por conter a ideia de inclusão; passou a ser, para muitos, quase um sinônimo de tratamento preconceituoso, ou seja, de exclusão, o que acarretou uma carga negativa sobre o termo e até certo repúdio à ideia de pô-lo em prática. A mesma ideia ora apresentada encontra confirmação nas seguintes palavras de Mundi (2008, p. 2): (Texto V)

O iberismo se refere à antiga proposta de união política e cultural entre Espanha e Portugal, que resultaria no Estado ibérico. Esta proposta vai para além de mera união. Na verdade, os iberistas chegaram a propor a unificação dos dois países - o que nos remonta ao século XVIII. O iberismo tem sido um ponto polêmico entre espanhóis e portugueses dados os contrastes sociais existentes, mesmo com as muitas afinidades que encontramos entre os dois países. Assim, entre afinidades e contrastes, o iberismo tem oscilado entre momentos de glória e de declínio no curso da história ibérica. Como se lê, a propósito, nas palavras de Petschen (2013, p. 4): (Texto VI)

Cientes da densidade semântica dos temas: europeísmo e iberismo, e alertados para a complexidade e natureza polêmica dos dois conceitos, seguiremos, na próxima edição deste Caderno, a análise da obra "A Jangada de Pedra", de José Saramago. (H. L.)

Trechos

TEXTO III

a lusofonia teria surgido então, no contexto pós-colonial, como um novo mecanismo ideológico para retomar a antiga "política atlântica", tentando, por meio do discurso da "língua comum", apagar as marcas do passado colonial e as relações traumáticas com as ex-colônias decorrentes dele.
(FREIXO, 2009, p. 165).

TEXTO IV

O moderno europeísmo político e económico nasceu assim do claro desígnio de ultrapassar a incapacidade do sistema de Estados europeus de fazer face à concorrência externa e de assegurar a estabilidade política interna que permitisse entrar nela e vencê-la. Pode, pois, dizer-se que o europeísmo representa, sem dúvida, uma importante alteração do quadro político institucional europeu. Não se trata de uma substituição, mas de uma reformulação. A dimensão política nacional não desaparece, mas é superada pela dimensão internacional, em termos de protagonismo mundial. Mas esta concertação de nações ao nível europeu, para ganhar maior expressão em termos mundiais, significa, inevitavelmente, maior concentração decisional, transferência real e formal de capacidade decisória dos centros nacionais para o novo centro europeu. Com a concentração política cresce, obviamente, também a burocracia administrativa europeia, e com ela os riscos de enfraquecimento cívico decorrente do afastamento entre a maioria dos cidadãos e os centros de governo, bem como aumentam ainda os problemas das disparidades não só entre nações europeias, mas também entre regiões mais e menos desenvolvidas.

TEXTO V

O facto de Portugal ser um país geograficamente periférico da UE também não é favorável à sua economia, pelo factor dos custos de transporte dos seus produtos para os mercados dos países centrais. É igualmente impossível a Portugal competir com os produtos provenientes do Extremo Oriente que entram na Europa e que muitas vezes através de práticas de dumping têm destruído as indústrias, têxtil e de calçado, no nosso país.

TEXTO VI

As relações históricas de Espanha e Portugal são caracterizadas por fortes contrastes. Por um lado, juntamente com a proximidade geográfica (âmbito peninsular, longa fronteira comum, partilha de grandes rios, base rural similar) aconteceu um forte paralelismo social e político. Devido a ele, Teófilo Braga, já no séc. XIX, descreveu o caminhar conjunto de Portugal e Espanha nada mais nada menos do que como fazendo parte da ordem natural das coisas. Por outro lado, estabeleceram-se entre os dois países enormes distâncias que chegaram até aos nossos dias. (...) A ordem natural a que levava a geografia foi distorcida pela geopolítica. O forte controlo da Grã-Bretanha sobre Portugal e o seu comércio e a existência do império colonial do país vizinho - condicionamentos relacionados entre si - causavam entre ambos os países um afastamento notório. Mas quando, em determinado momento histórico, a influência inglesa diminuiu devido às hostilidades entre britânicos e portugueses no Sul de África e as relações ficaram marcadas pelas divergências daí nascidas, o iberismo começou a florescer como criação portuguesa influente em Espanha.

Saiba Mais

CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1993

FREIXO, Adriano de. Minha Pátria é a Língua Portuguesa: a construção da ideia de Lusofonia em Portugal. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua portuguesa. Rio de janeiro: Objetiva. 2009.

LOURENÇO, Eduardo. A Nau de Ícaro e imagens e miragens da lusofonia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

SARAMAGO, José. A Jangada de Pedra. In: Obras de Saramago - v.III. PORTO: Lello, 1991

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