Ensaio

Reflexões sobre a lírica feminina

00:00 · 13.04.2014

Numa cultura de tradição falocêntrica, a alma feminina nunca foi totalmente desvelada. Freud finalizou sua extensa obra sem conseguir a resposta para a célebre pergunta: O que quer uma mulher? Considerava uma tarefa irrealizável desbravar o continente negro e aconselhava que se alguém quisesse aprender um pouco mais sobre as mulheres, interrogassem a própria experiência ou então perguntassem aos poetas.

Sorte nossa. Hoje, são as mulheres que se explicam e falam como protagonistas de suas próprias histórias. São elas que pedem a palavra e, incisivas, dizem: (Texto V)

Tanto entusiasmo, por mais extraordinário e surpreendente que seja, é a voz de quem se permite arder de paixão e desejo: (Textos VI, VII, VIII e IX)

Das palavras

Certamente a palavra é o verdadeiro instrumento da magia. Através dela, Regine Lima Verde transforma os padecimentos de amor numa fascinante liturgia da paixão. Portanto, sendo uma das faces do amor, o erotismo e a sensualidade dominam toda a sua poesia. Sua mente inquieta e inovadora compreende o poder do corpo. Esse corpo vinculado com o prazer, o coração e a alma. Esse corpo não mais submisso, um corpo usado por inteiro como uma benção! Afinal, segundo Bataille, há muito mais no erotismo do que a simples gratificação física. É uma atitude de compartilhamento e harmonia comparável à dança.

Talvez por isso, embalada pela melodia e o ritmo intenso de seus versos, Regine convida a pessoa amada para, nesta dança, ser o seu par, no poema "Convite para um bolero": (Texto X)

Assim é a poesia de Regine Limaverde. Ora sensual, ora romântica. Entretanto, ainda hoje, por mais que as mulheres se utilizem de imagens poéticas, por mais que se esforcem para dar à vida um sentido amoroso, a escrita erótica é considerada transgressora. Falar do contato efêmero do corpo masculino com o corpo feminino é visto, por muitos, como ousadia temática. Vejam-se os versos de "Um dia diferente": (Texto XI)

Desse modo, fugir dos caminhos convencionais é colocar-se sob o signo da ruptura. Tanto que a Lúcia Castello Branco, em sua tese "Eros Travestido: um estudo do realismo burguês brasileiro" - afirma que: (Texto XII)

Regras sempre desafiadas pelos artistas e poetas, livres das amarras, das convenções sociais e estéticas. É preciso lembrar que, para a Psicanálise, é exatamente a força de Eros que determina o movimento vital.

A construção

Segundo Nabor Nunes, ele é o princípio fundamental e insuflador da vida. Entretanto, como registram os escritos psicanalíticos, não é possível menosprezarmos as expressões primitivas e licenciosas do deus que, graças às criações artísticas, são sublimadas e deslocadas para fins considerados mais nobres.

Na poesia, isto se dá pela sensibilidade e habilidade do poeta em lidar com a forma e a estrutura de seus versos, em experienciar novos significados resultantes das interações das palavras no interior do poema.

É isso que Regine Limaverde faz: uma espécie de encanto sensual e sagrado, como no primeiro quarteto do soneto "Premonição": (Texto XIII)

Aqui, num impulso audacioso, Regine justifica nossa eterna busca de unidade.

Revela-se vivendo o desejo ilusório de unir-se e confundir-se com o amado, e de dois ficarem um só, como poeticamente Aristófanes definiu o sentido do amor no Banquete de Platão.

Mas o caminho que os amantes trilham é também repleto de tropeços, há toques de sombra e variadas nuances de luz.

Há encantos de chegadas e nostalgias de partidas. Finalmente, há a estimulante questão da sensação de provocar e ser provocado pelo desejo, sempre insaciável.

Assim, para falar da ambiguidade de prazer e sofrimento contidos no amor, Regine Limaverde faz uma analogia entre as etapas da caminhada de Cristo e aquelas pelas quais passam os amantes: A Via Sacra do Amor.

Considerações finais

De forma inspirada nos conta o que viveu em seus versos, onde as palavras se unem e tecem uma linha que envolve o antes, o durante e o depois. Neste ponto, vale lembrar que Clarice Lispector em "A Paixão, segundo G.H" escreveu: "A via crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela." Sentimento semelhante é expresso por Regine Limaverde quando afirma em "A compreensão da dificuldade do amor": (Texto XIV)

É este livro é um inesperado encantamento em forma de canção, que fala do poder revigorante e restaurador do amor e, sobretudo, da impossibilidade de se calar o desejo e a sexualidade da mulher. Em tempos mais remotos, nossas antepassadas eram caladas nas chamas escaldantes das fogueiras. Como avançamos! Hoje, só nos deixamos queimar pelo fogo criador e avassalador das paixões!

SAIBA MAIS

LIMAVERDE, Regine. Canção do amor inesperado. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2014

MOISÉS, Massaud. A criação literária - poesia. São Paulo: Cultrix, 1995

REIS, Carlos. O conhecimento da literatura. Coimbra: Almedina, 2001

Trechos

TEXTO V

E eu sorri orgulhosa / de ter a força de um deus. / Ainda sou capaz de causar tempestade

TEXTO VI

Eu quero o homem que me aquece / e que rendas em meu corpo tece. (p. 50)

TEXTO VII

Busca minhas terras / Elas te esperam. / Vem vadiar na minha alma. (p. 34 - 5)

TEXTO VIII

Meu homem tem vulcão / Nas entranhas / Que queimam meu corpo maduro. (p. 66

TEXTO IX

Não conhecia a música que farias em meu corpo(p.67)

TEXTO X

E meu coração / uma teia de nervos e vasos / se fecha com teu nome. / Por que o segredo? / Por que não te proclamo / se vives aprisionado nas minhas entranhas? / Sei o que tenho. / Sei o que quero. / Danças? / Bolero? (p. 38)

TEXTO XI

Jamais te amei tanto quanto hoje / quando me confessaste / teu amor por mim . / Desse dia, sentirei sempre a mordida de / gostas d'água nos cavelos, / e o gosto salgado na boca, / da água escorrendo dos meus olhos. (p. 72)

TEXTO XII

"Não é possível falarmos de uma história do erotismo sem considerarmos a história de sua repressão. Os mais diversos tipos de civilização parecm alimentar temores semelhantes no que diz respeito à sexualidade e constroem regras específicas para se salvaguardarem dos poderes de Eros."

TEXTO XIII

Já madura, antevendo um solitário fim, / Se do destino ganhar um novo amor, / Não, não o desejo pulsando em parto ou dor, / Eu o desejo assim: poesia dentro de mim.

TEXTO XIV

Um caminho longo deveria / ser percorrido / até o entendimento do amor."(P.85)

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.