Ensaio

Reflexões acerca da relação entre moda e literatura

00:00 · 10.01.2014
Ao longo dos tempos, a literatura tem se mostrado como fonte de pesquisa histórica, revelando costumes

Desse modo, apresenta- nos valor informativo à medida que ela nos fornece dados culturais de uma época sob o olhar de seus autores, conforme Dias (2008): (Texto I)

A simbologia

Verificamos que a realidade social transforma-se em significativo componente estrutural das obras literárias, que acabam por nos oferecer simbolismos, constituindo uma espécie de consciência social do período no qual ela foi estruturada. De acordo com Coronel (2008, p. 02), a obra literária também pode ter valor histórico: (Texto II)

A partir da análise de textos literários brasileiros sob o enfoque da descrição da indumentária em obras literárias, percebemos que a moda e a literatura estão bem mais entrelaçadas do que podemos imaginar.

Um fio condutor

É perceptível o fato de que as descrições das vestimentas dos personagens não são meramente ilustrativas ou sem propósito. Elas situam o leitor no tempo histórico ao qual pertence cada obra. Tais descrições também assinalam valores simbólicos, que funcionam como indicadores sobre a história e a moda da vestimenta no Brasil. Desta forma, elas nos oferecem importantes fontes de estudo acerca dos costumes e da cultura de determinado período histórico.

Observamos que as vestes descritas por literatos condizem com o que nos foi apontado em estudos sobre a história da vestimenta. Durante o século XIX, percebemos uma segregação entre os gêneros masculino e feminino, onde às mulheres eram destinadas atividades sedentárias e aos homens eram delegadas as que exigiam um maior movimento e vigor. A roupa também refletia este antagonismo entre os sexos, realçando as características opostas de cada grupo, conforme Souza (1987).

Adornos

Ainda segundo a autora, as mulheres abandonaram os espartilhos, os saltos altos e as anáguas, partindo para formas mais simplificadas, onde o vestido tornou-se escasso e sem formas, assemelhando-se a uma camisola atada abaixo dos seios, realçando, assim, a exibição do corpo. Posteriormente, ocorre o surgimento da crinolina e a figura feminina se constrói em torno de ângulos góticos, com o auxílio das anquinhas, xales e mantilhas.

A roupa masculina percorre, desse modo, o caminho inverso, simplificando-se cada vez mais, tornando-se cada vez mais enxuta e assemelhando-se a um uniforme, sendo ainda um instrumento de afirmação pessoal. (Texto III)

A moda torna possível a compreensão de comportamentos e hábitos, bem como a representação do indivíduo dentro de uma sociedade.

A moda também é responsável por inclusões, exclusões e rotulações das pessoas em um contexto social de determinada época, destacando, com nitidez, os elementos socioculturais do período.

Da Universidade Federal do Ceará

LÍDIA FREITAS
COLABORADORA*

Trechos

TEXTO I

A literatura desenvolve dessa maneira, um diálogo ininterrupto entre a vida e o cotidiano. É no cruzamento do mundo simbolizado pela palavra em estado de literatura, com a realidade diária dos homens, que a obra literária pode assumir seu papel de revelador da sociedade. Buscar o seu auxílio nos parece ser importante para compreender uma época, sendo ela uma criação social e, é nesse sentido que ela tem que ser considerada. (DIAS, 2008, p. 01).

TEXTO II

Nesse sentido, o texto literário pode ser tomado como fonte de estudo da História, ainda que constitua um tipo especial de fonte, uma fonte na qual a dimensão de artefato artístico, no caso literário, não pode ser deixada de lado. É exatamente por dar forma de uma maneira muito peculiar a questões que provêm da conjuntura maior na qual se insere, que a obra literária finca suas raízes no solo da História. (CORONEL, p. 2, 2008).

TEXTO III

Enquanto o traje feminino, passada a voga da simplicidade, se lançou novamente numa compilação de rendas, bordados e fitas, a indumentária masculina partiu, num crescente despojamento, do costume de caça do gentil-homem inglês para o ascetismo da roupa moderna (SOUZA, p.60, 1987).

FIQUE POR DENTRO

O masculino e o feminino

Gilda de Mello e Souza, em "O espírito das roupas" (São Paulo: Cia das Letras, 1987) - importante estudo sobre a moda - acentua que, no século XIX, "Um duplo padrão de moralidade regia as relações humanas, o código de honra sendo diverso do da mulher. Temos realmente de um lado uma moral masculina ´contratual´, um código de honra originado nos contratos da vida pública, comercial, política e das atividades profissionais - e do outro uma moral feminina, relacionada com a pessoa e os hábitos do corpo e ditada por um único objetivo, qual seja, agradar aos homens.( p.58.)

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