Ensaio

Reflexões acerca da problemática do estilo

00:00 · 25.10.2013
O estilo é um dos mais desafiadores elementos da linguagem, cuja complexidade está nas múltiplas definições

Desde a concepção etimológica (stilus - instrumento afiado usado para escrever em tábuas), perpassando pelo "O estilo é o homem", de Buffon, até as concepções mais modernas, o estilo vem sendo objeto de intensa reflexão, no intuito de desvendar suas nuances. No entanto, a maneira divergente como os teóricos o tem conceituado apenas reforça e acentua toda a dificuldade em fixá-lo, fechá-lo numa determinada percepção.

Mas é a Estilística, disciplina nascida em "berço" saussureano, que vem propor um debruçar-se sistematizado e científico sobre o estilo, mas não de maneira unilateral e uníssono. Embora tal expressão já fosse utilizada desde o século XIX, é no século XX que a Estilística toma o lugar deixado pela Retórica e passa a designar uma nova disciplina ligada à Linguística, isso graças, especificamente, aos seus dois mais importantes mestres: Charles Bally, proponente da Estilística da Língua, e também Leo Spitzer, que é o representante maior da Estilística literária (MARTINS, 1997).

A questão do estilo

Houve destacadas e relevantes formas de se pensar o estilo. Charles Bally, discípulo de Ferdinand Saussure, pensou o estilo associado ao conteúdo afetivo da língua, aos fatos de expressão da linguagem, ao potencial expressivo de um determinado idioma, excluindo, assim, a particularidade da fala espontânea, gerando a já mencionada Estilística da língua. Posteriormente, Crystal e Davy aproximam a estilística da sociolinguística ao pensarem o estilo tendo como base a estilística de Bally, porém indo um pouco mais adiante ao cogitar a linguagem como algo passível de adaptação, focando, desse modo, os usos particulares da mesma, ou seja, a fala. O objeto de estudo da estilística seria, pois, nesse contexto, os diferentes tipos de linguagem moldadas de acordo com a situação em que estiverem inseridas. Mas essa forma de pensar o estilo passa a ser abandonada ainda dentro do escopo da Estilística da língua quando dois teóricos, J. Marouzeau e M. Cressot, ligados, assim, a essa teoria, propõem, então, uma leve - porém muito significativa - ruptura metodológica com Bally. Ambos os teóricos sugerem um sutil deslocamento do sistema para o discurso propriamente dito, dando à Estilística uma abordagem mais individual, voltando-se, portanto, para a língua literária. Contudo, Marouzeau e Cressot "analisam os procedimentos expressivos literários, mas não fazem estudos de obras ou de autores. Oferecem um método de descrição da linguagem literária, permanecendo mais presos à Linguística que à Literatura" (MARTINS, 1997), razão pela qual não concretizaram uma ruptura plena com Bally.

A Estilística Literária

Somente a partir de Leo Spitzer é que o estilo individual do escritor, a maneira particular de expressar-se, passa a ser considerado enquanto objeto definitivo de estudo. Com Spitzer dá-se, na Estilística, o importante deslocamento do sistema para o discurso, da langue para a parole, da instância coletiva para a instância individual, gerando, destarte, a Estilística literária.

A reflexão de Spitzer é de cunho psicologista. Entendia ser a emoção, ou uma alteração do estado psíquico normal, a causa dos desvios da linguagem em relação ao uso corriqueiro, presentes no texto literário. Um estado de espírito incomum seria a justificativa do emprego desse tipo de "violência organizada contra a fala comum", do qual fala Roman Jakobson (JAKOBSON apud EAGLETON, 1983).

Outro teórico da Estilística literária, Dámaso Alonso, também possuía uma concepção psicologista de estilo, mas se distinguia de Spitzer em dois aspectos: atribuía papel preeminente à intuição e, diferentemente do estilólogo austríaco, cuja maior preocupação era, então, a manifestação do autor na obra, preocupava-se especialmente com as questões referentes à atmosfera da criação poético-literária.

ANTONIO VINÂNCIO DOS SANTOS & FRANCISCO GEILSON ROCHA
COLABORADORES*

*Ensaístas

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