Realidade inventada

Mesmo invertendo o rigor comum aos documentários, os "mockumentários" são capazes de refletir a indústria musical

“Mocumentários”: diálogo entre narrativas ficcionais e a estética do documentário
00:00 · 15.04.2017 por Antonio Laudenir - Repórter
De cima para baixo: “Isto é Spinal Tap” (1984) e “Popstar: Sem Parar, Sem Limites” (2016) desferem ácidas críticas a diferentes momentos da indústria fonográfica

A busca pela veracidade e o cuidado pelos detalhes históricos, relatos, documentos e reconstituição precisa dos fatos são algumas das premissas básicas de quem se dispõe a produzir um documentário. Mesmo assim, esse compromisso com a exploração da realidade acaba esbarrando muitas vezes em representações parciais e subjetivas. Sim, mesmo revestido da noção de “credibilidade” é necessário um olhar sempre criterioso e crítico em relação a estas obras.

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.Para ir direto à fonte 

Das primeiras experiências “Nanook do Norte” (1922) e “Um Homem com uma Câmera” (1929) ao mais recente vencedor do Oscar, “O.J.: Made in America”, os serviços prestados por este gênero cinematográfico foram inúmeros. Seja pela força de educar, denunciar, corrigir erros históricos ou lançar luz sobre histórias e vivências pouco conhecidas do público.

Todo este necessário rigor quanto ao contato com a verdade pode sofrer algum tipo de mutação e gerar subsídios para narrativas ficcionais. Isso mesmo, além de informar, o documentário também pode emprestar seus recursos estilísticos para narrar “falsas realidades”. 

Este modo invertido e até mesmo radical de apresentar causos e situações é estabelecido pelo subgênero “mocumentário”. Consolidadas nas últimas três décadas através do cinema, televisão e atualmente disponibilizado nos serviços de streaming, estas produções se caracterizam por apresentar eventos fictícios simulando as características gerais de um documentário. 

O mocumentário, neologismo das palavras inglesas “mock” (imitar) e “documentary” (documentário), não esconde sua natureza fictícia e conta com uma produção historicamente aproximada de obras humorísticas. Entretanto, outros gêneros como o drama, suspense e até terror foram explorados por diferentes realizadores. 

O artigo “The History of the Mockumentary Artform”, publicado no site da New York Film Academy, aponta que o primeiro exemplo da língua inglesa na área foi estabelecido na década de 1930. Precisamente em 1938, quando o jovem Orson Welles (1915-1985) realizou a famosa transmissão radiofônica do livro “Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells (1866-1946). 

Welles simulou um noticiário e fez com que ouvintes desinformados acreditassem estar presenciando uma invasão alienígena. Mesmo com o anúncio no início da transmissão de que se tratava de uma dramatização do livro, os ouvintes que acabaram sintonizado durante o decorrer do show acreditaram na história. O resultado foi uma onda de caos e relatos de histeria pública e autoridades invadindo os estúdios da rede norte-americana CBS.

Após a transmissão de Welles, nada ocorreu no gênero no decorrer das décadas. Em 1964, algo aproximando do que atualmente conhecemos como um recurso mocumentário veio sob a forma de “Os Reis do Iê, Iê, Iê”. Ao retratar um dia na vida dos Beatles, o cineasta Richard Lester utilizou arquivos documentais, embora de forma primitiva, e desenvolveu a imagem do cotidiano da banda. Este formato audiovisual ressoou decisivamente nos fãs do quarteto de Liverpool e trouxe um apelo visual extremamente influente nos filmes de música produzidos posteriormente.

Cinco anos depois da experiência entre os britânicos, o cinema norte-americano abraçava o segmento através da produção “Um Assaltante bem Trapalhão”. Em sua segunda experiência como diretor, Woody Allen aliou o conceito de documentário daquele momento a elementos como depoimentos fictícios e narração em off. De modo mais desenvolvido, tanto nos quesitos técnicos quanto narrativos, Allen criou “Zelig” (1983).

Aqui, a consolidação destes pseudodocumentários é extremamente significativa. Ambientado entre 1920 e 1930, somos apresentados a Leonard Zelig (Woody Allen), um homem pacato e desinteressante que passaria anônimo na história, não fosse a estranha capacidade de transformar sua aparência segundo a das pessoas que o cercam – por exemplo, na presença de chineses adquire traços orientais; na presença de judeus transforma-se em um rabino. 

Com o auxílio de “croma key” o diretor inseriu o personagem e outros atores em imagens reais de cinejornais da época, antecipando técnicas usadas em filmes como “Forrest Gump” (1994). Para diluir os limites entre realidade e ficção, o filme ainda conta com depoimentos de figuras reais do mundo acadêmico para debater o caso de Zelig, como a ensaísta Susan Sontag (1933-2004) e o psicólogo Bruno Bettelheim (1903-1990). 

“Independente do gênero ao qual pertence, o mockumentary (sic) geralmente é construído através de uma paródia ou de uma sátira. No primeiro caso, identifica-se uma reprodução exagerada de elementos da sociedade, de forma quase grotesca. Sem representar, necessariamente, uma crítica ou algum tipo de rompimento, o autor brinca com estereótipos e convenções culturais, delimitando a natureza ficcional da obra através de seus elementos caricatos e consolidados”, explica Marcelo Flora Grava através do artigo “A análise do discurso na realidade ficcional dos mockumentaries”.

Comédia

Duas experiências lançadas quase que simultaneamente em território inglês aqueceriam a produção de falsos documentários ligados à música. Em 1978, foi lançado “The Rutles: All You Need Is Cash”. Contando com integrantes do grupo Monty Python como Eric Idle (que aqui dirige o longa) e Michael Palin, o filme é uma sátira direta sobre a sobre a trajetória dos Beatles. O elenco ainda reuniu astros do rock como o próprio beatle George Harrison (1943-2001), Ronnie Wood, Mick Jagger, Paul Simon e os comediantes Bill Murray, Dan Aykroyd e John Belushi (1949-1982).

Em seguida foi a vez de “The Great Rock’n’Roll Swindle” (1980), documentário “livre” sobre a trajetória do grupo punk britânico Sex Pistols. Além dos integrantes John Lydon, Steve Jones, Paul Cook e Sid Vicious (1957-1979), o reconhecido “ladrão do século”, Ronald Biggs (1929-2013) deu as caras na empreitada. Famoso por conta do assalto ao trem pagador (que trafegava entre Glasgow e Londres ocorrido em 1963), <MC0>Biggs fugiu para o Brasil e ficou mais de 30 anos em liberdade no Rio de Janeiro. 

Em 1984, a sétima arte conheceu a produção considerada fundamental ao universo dos mocumentários: “Isto É Spinal Tap”, de Rob Reiner. O “documentário” cobre a turnê da banda inglesa Spinal Tap pelos Estados Unidos em 1982. Somos apresentados a entrevistas com todos os integrantes, imagens dos bastidores, depoimento de fãs, produtores e pessoas ligadas aos bastidores. 

Com um humor afiado e tiradas fantásticas, o filme é um escracho direto contra a cena rock/metal do período e não perdoa ninguém. A obra é montada de forma tão natural e próxima do que seria uma banda de verdade que o espectador acaba por sentir que o Spinal Tap realmente existe. A sátira soa perfeita e para acrescentar ainda mais graça ao material, o filme conta com músicas originalmente produzidas para a obra – canções que ficaram clássicas como “Tonight I’m Gonna Rock You Tonight”, “Big Bottom”, “Stonehenge” e “Sex Farm”. Estão ali o egocentrismo, os figurinos e os cenários exagerados dos anos 1980.

Sobre o trabalho observado em <MC0>“Isto É Spinal Tap”, Grava aponta que, apesar do uso de elementos mais próximos do documentário (como depoimentos dos personagens), o filme explicita, através da exageração, a natureza cômica de sua aproximação ao cinema documental. 

“Conforme o mockumentary (sic) se distancia de uma mera paródia e se aproxima da sátira e da crítica, observamos que essa fronteira entre o factual e o ficcional torna-se mais tênue, utilizando ferramentas cinematográficas menos ortodoxas e propositalmente confundindo a audiência”, escreve. 

Tradição

Atualmente, a diversidade dos mocumentários foi mantida através das séries “The Office” e “Parks and Recreation”, e no cinema existem exemplos recentes como o sul-africano “Distrito 9” (2009), “Dark Side of the Moon” (2002) e “Eu Ainda Estou Aqui” (2010). Em 2016, o filme “Popstar: Sem Parar, Sem Limites” desferiu uma ácida crítica por cima do pop mundial dos últimos anos e não perdoou desde o cantor Justin Bieber<MC0> até a mídia e pseudopersonalidades. 

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