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Quem são os seus inimigos?

Em palestra no Mediamorfosis 2018, fotojornalista Karim Ben Khelifa falou sobre projeto em x-reality

00:00 · 08.09.2018 por Adriana Martins - Enviada a São Paulo
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O fotojornalista Karim Ben Khelifa e seu projeto "The Enemy": a ideia é levar as pessoas a experimentarem um mergulho no que há de humano na guerra

Em um cenário de profundas transformações tecnológicas, as indústrias de comunicação e entretenimento estão entre os que atravessam mudanças mais aceleradas em suas lógicas de produção. Com o objetivo de promover o debate e o intercâmbio de ideias para melhor compreender o momento atual, o Mediamorfosis realizou nesta terça-feira (4) mais uma edição no Brasil, na capital paulista.

Dedicado a analisar e promover, em toda a América Latina, o desenvolvimento de novas narrativas a partir do uso inovador da tecnologia e em função dos novos hábitos de consumo, o evento foi criado em 2014, na Argentina, pelo empreendedor, produtor e professor Damian Kirzner. Neste ano, o Mediamorfosis aconteceu pela terceira vez no Brasil - idealizado pelo Instituto de Conteúdos Audiovisuais Brasileiros (ICAB), com o apoio da SPCine -, além de Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e, claro, Argentina.

Transmídia, múltiplas plataformas, interatividade, inteligência artificial e x-reality foram temas abordados na maratona de sete palestras, nas quais os convidados falaram sobre os projetos que desenvolvem e perspectivas do mercado.

Um deles foi o belga-tunisiano Karim Ben Khelifa, fotojornalista premiado especializado na cobertura de conflitos. Colaborador regular de veículos como Time Magazine, Vanity Fair, Le Monde, Stern e GEO, é conhecido pela atuação no Oriente Médio, em especial nas guerras do Iraque e Afeganistão. Já realizou trabalhos em mais de 80 países e exposições em pelo menos quatro continentes.

Imersão

A despeito do muitos pontos altos em sua trajetória, Karim sentiu-se frustrado - sentimento que o levou a uma completa virada na atuação profissional - ao idealizar o projeto de realidade virtual (e Realidade Aumentada) "The Enemy".

A proposta traz uma experiência imersiva e interativa envolvendo relatos de combatentes, soldados, membros de gangues e outros personagens inseridos em diferentes conflitos - em Israel, Índia e El Salvador, para ficar em três exemplos. Os entrevistados são separados em pares, cada um obrigatoriamente pertencente a lados opostos do conflito (palestinos e israelenses, por exemplo) - "inimigos" (daí o nome do projeto, "The Enemy"). Eles são fotografados em 360º de maneira a gerar um avatar interativo.

Ambos respondem a perguntas como "quem é você?"; "quem é seu inimigo?"; "você já matou algum inimigo?"; "o que é violência para você ?"; "o que é paz para você?"; e "onde você se vê daqui a 20 anos?".

A entrevista busca entender quem eram essas pessoas além do aspecto do conflito, suas experiências de vida, contextos sociais, perspectivas, motivações e, a partir disso, sua própria humanidade e o que tinham em comum com aquele considerado o oposto, seu "inimigo".

Construção

Áudio e imagens são, então, trabalhados na construção de uma experiência em realidade virtual, na qual personagem e interagente ficam cara a cara. O público pode ouvir dois lados do mesmo conflito, mas em vez de ler ou ver um vídeo, tem acesso aos relatos "diretamente" com seus autores.

Se não chegam a ser pessoas "reais" ali, a proximidade física, o olhar do personagem direcionado ao seu - enfim, toda a experiência cognitiva proporcionada pela RV - impactam profundamente o processo e oferece um exemplo da prática jornalística levada a outro patamar.

Antes de "The Enemy" abraçar a RV, o projeto se chamava "Portraits of the Enemies" (Retratos dos Inimigos). Ainda em 2009, Khelifa chegou a um ponto de saturação como fotógrafo de guerra. Tendo atuado por 15 anos na área, percebeu que seu trabalho não alcançava o impacto que ele sempre desejou, de promover uma profunda reflexão nas pessoas. "À época, eu também havia me tornado pai. Pensei: 'por que vou sair de casa, arriscar-me de novo a levar um tiro, ser sequestrado (como já havia acontecido antes) em meio aos combates se não percebo o resultado disso?", explicou em entrevista ao Caderno 3.

Khelifa considera, porém, que a razão para não alcançar esse impacto não eram as fotos em si, mas a maneira como eram disseminadas - em um mundo já saturado de imagens e mensagens, produzir conteúdos que extraiam reações significativas das pessoas é um desafio constante.

O jornalista percebeu, então, a necessidade de uma outra forma de narrativa, que engaje a audiência de maneira mais participativa e passional. A partir daí, Khelifa idealizou uma instalação, na qual fotografias em tamanho real de combatentes fossem justapostas em um cômodo, separaras por uma linha bem no meio do espaço.

Simetricamente alinhados, os personagens nas fotos observavam um ao outro na altura dos olhos. O visitante podia explorar o ambiente a partir do meio, onde havia também imagens, vídeos e sons dos cenários onde aqueles conflitos se desenrolavam. Ao se aproximar de um dos dois retratos, passava a ouvir o relato daquele combatente, na própria voz dele.

"Ao possibilitar àqueles que promovem a violência explicar quem são e quais motivos e sonhos carregam, o projeto desafia diferentes entendimentos e visões sobre o conflito e, em última instância, humaniza os combatentes. Eu não forneço respostas", escreveu Khelifa em um artigo de 2013 para o Nieman Reports.

"Em vez disso, desejo prover uma experiência e estimular a o debate. Ao passo que a objetividade se revela impossível na cobertura de guerra, acredito que, ao deixar os combatentes falarem e trazendo inimigos virtualmente face a face, o público, situado no meio disso, pode experimentar a dimensão humana da guerra. Meu objetivo é desafiar o espectador a se identificar com ambos os lados de um conflito", completa, no texto.

Repercussão

Na época, a repercussão de "Portraits of the Enemies" lhe rendeu um convite da Fundação Nieman, da Universidade de Harvard (EUA), para uma bolsa de pesquisa. Foi nesse período que apareceu outro convite, do Massachusetts Institute of Technology - MIT, para conhecer as instalações e projetos da instituição. Foi quando Khelifa teve a primeira experiência mais próxima com Realidade Virtual.

"Pus os óculos (de VR) e de repente me vi à beira de um lugar muito alto. Mesmo sabendo, conscientemente, que estava numa sala, em solo firme, tive sensação de vertigem", recorda ele. Impressionado com a potência do efeito, Khelifa não demorou a perceber o impacto que aquela tecnologia poderia ter em seu trabalho. "Entrei em contato com alguns amigos e disse: 'estou com uma ideia'. Juntamos uma equipe e tive o apoio da estrutura e dos profissionais do MIT", conta.

De lá para cá, "The Enemy" já passou por mudanças de conteúdo, de equipamentos (antes mais desengonçados e difíceis de manusear), ganhou prêmios e foi apresentado, por exemplo, no Festival de Cinema de Tribeca, em Nova York.

Um passo mais recente foi a mudança da realidade virtual para realidade aumentada (tecnologia que permite visualizar e interagir com elementos virtuais adicionados ao ambiente "real" onde a pessoa está; um dos casos de maior sucesso foi o jogo Pokémon Go).

Agora, a partir de um aplicativo (disponível para iOS e Android), o público pode interagir com os combatentes sem precisar se deslocar para o lugar onde o projeto está em funcionamento (no MIT ou de passagem em algum evento).

"Com isso, minha proposta ganhou avance antes impossível apenas com as fotografias", compara Khelifa, em retrospecto sobre a carreira. O jornalista encerrou sua fala no Mediamorfosis com a frase que acredita melhor resumir a proposta do seu trabalho: "Nós compreendemos o mundo por meio de histórias, e nos lembramos disso por meio de experiências". Um momento inspirador para quem ainda é apaixonado por jornalismo e acredita na sua fundamentalidade para a sociedade.

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