Argentina

Quase estranho no ninho

O ator Guillermo Pfening é destaque no longa-metragem argentino "Ninguém Está Olhando", de Julia Solomoff, que estreia comercialmente em dezembro
00:00 · 12.08.2017

O novo trabalho da diretora Julia Solomoff, "Ninguém Está Olhando", é ancorado em uma trama basicamente multiétnica. Nico, interpretado por Guillermo Pfening, é um ator argentino em crise profissional e pessoal que vai para Nova York em busca de mais visibilidade e sossego afetivo.

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Sua convivência com os americanos e com outros latinos permeia a obra. Lá, ele não é uma estrela. Após abandonar o elenco de uma série de sucesso em seu país de origem, Nico vivencia a frustração do sonho americano. Na cidade onde tudo acontece, nada parece acontecer para ele.

Nico vive de pequenos bicos de garçom e babá não só para se sustentar, mas também para passar despercebido. O fato é que suas ambições como ator sempre pulsam e aqui existe o arco mais interessante do roteiro. Nico não segue o padrão físico de um ator latino, o que dificulta sua entrada no mercado norte-americano.

A frustração de estar em uma cidade desconhecida, com poucos amigos e vivendo das memórias de um passado recente que envolve um antigo relacionamento amoroso trazem a profundidade que o personagem precisa. Solomoff trabalha em harmonia com Pfening para expor as tensões e angústias do protagonista, que anda sem rumo e começa a construir uma vida que não é a sua.

O longa-metragem também discute sem muita profundidade as questões homoafetivas de Nico, que também fugiu para Nova York após uma decepção amorosa. Nesse ponto, o roteiro trata Nico como um menino, mesmo perto da casa dos 40 anos, que não sabe muito bem administrar o que acontece em sua vida.

Do segundo para o terceiro ato, "Ninguém Está Olhando" ganha uma camada novelesca na relação de seus personagens, que não cai muito bem quando estamos falando da tradição do cinema argentino.

Pode até ser autorreferente, já que o protagonista é um ator de televisão, mas como obra cinematográfica acaba prejudicada pela falta de ambição e tato narrativos, que não deslocam os conflitos dos personagens para um espaço onde exista algo fresco para suprimir da trama.

Cabe a Pfening investir no carisma antitético do protagonista, que tenta maquiar o fracasso com pequenas trapaças. A relação de Nico com o bebê Theo rendem cenas inesperada pela imprevisibilidade e carisma de como os dois abraçam o acaso narrativo.

Falando melhor sobre a crise profissional do que a pessoal de seu protagonista, "Ninguém Está Olhando" escorrega sem grandes danos. Chega a ser um feel good movie sobre solidão e ausência do outro em uma ambiente que as engole e expõe suas fragilidades mais íntimas. (DB)

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