memória

Quando um livro vale ouro

02:56 · 14.09.2004
( João Luís )
A bolsa de valores literária e documental é sem dúvida uma das mais rentáveis. É só verificar o trabalho das instituições de livreiros nacionais e internacionais, apaixonados por obras raras. Ana Maria Bocayuva de Miranda Jordão, presidente da Associação Brasileira de Livreiros Antiquários, disse que o mercado de obras raras, mais do que lucrativo, tem uma função histórica irremediável - garantir a memória do País

Tudo tem início nos sebos, entre o amontoado de prateleiras não esquecidas por um olhar perspicaz dos bibliófilos, grupos seletos de colecionadores. Os documentos do Brasil colonial, os mapas dos fortes do Sul do País, as primeiras edições das obras do modernismo brasileiro, manuscritos de mais de meio século... É preciso ter tino aguçado para perceber quando um livro ou um documento vale ouro. E isso a advogada e bibliófila Ana Maria Bocayuva, neta de Quintino Bocayuva, tem de sobra.

A frente de um dos sebos mais tradicionais do Rio, o “Sebo Fino”, a bibliófila divide-se no trabalho de administrar a livraria, recrutar raridades e garimpar catálogos de leilões internacionais como forma de estabelecer os preços das raridades no Brasil. O antiquariato tem hoje no acervo cerca de dois mil livros, documentos históricos e ilustrações, que custam de 560 a 4,2 mil euros. No Sebo, o que vale não é o tempo do objeto leiloado, mas também seu estado de conservação e sua importância histórica. “A missão dos livreiros é preservar a memória, onde a história corre risco de desaparecer”, define Bocayuva. Nesse ramo não cabe amadorismo. Os interessados no mercado devem respeitar as normas internacionais, segundo critérios de credibilidade e confiabilidade.

Bocayuva lembra que, no século XIX, os sebos foram iniciativas de homens cultos, colecionadores de livros raros e de segunda mão. Nesta lista também entravam os clássicos e os documentos históricos. Ana Maria Bocayuva ressalta a chegada da Imprensa Régia, com a vinda de D. João VI para o Brasil. Dessa fase, um dos documentos mais curiosos é uma declaração de guerra contra os índios Botocudos do Vale do Rio Doce. “É um documento triste porque é um documento oficial do genocídio”, disse. “Iniciaremos uma guerra sem fim até que a última moradia não esteja de pé”, diz Bocayuva, lembrando a carta. O Rio Doce ficava na saída do quadrilátero das minas e era de interesse do império desobstruir a zona de passagem. “Imagine o cacique ou outro superior recebendo uma carta do imperador do Brasil?”, disse.

O Brasil colonial tinha, ainda, as ordens religiosas bastante preocupadas com a preservação da informação. Além disso, a educação das famílias ricas acontecia através dos escravos malés, muçulmanos utilizados como preceptores dos filhos dos homens ricos. Da Abertura dos Portos às Nações Amigas sobreviveram os primeiros documentos, os decretos de D. João ao chegar ao Brasil (cerca de quartorze), além de um documento em espanhol de Carlota Joaquina. Paralela a Imprensa Régia, algumas iniciativas particulares despontaram no Rio de Janeiro e na Bahia, usando as prensas a vapor. “O Brasil foi beneficiado com a vinda da corte”, sintetiza a bibliófila. “Isso porque a Europa tem uma visão de preservação”, acrescenta.

Até aproximadamente 1870, o papel era feito de algodão. Apenas com a industrialização, a celulose passou a ser usada na fabricação de papel. Segundo Ana Maria Bocayuva, o clima do Brasil é prejudicial à preservação do papel. O clima tropical é um prato cheio para traças e outros bichos. “Monsenhor Nabuco dizia que o frio é melhor que o calor, para a preservação do papel. Na época, os cientistas do Instituto Osvaldo Cruz alegaram que não havia comprovação”, acrescenta.

Em 1980, Ana Maria Bocayuva teve a idéia de abrir um sebo, junto com o primo, o jornalista Márcio Moreira Alves. A proposta era agregar o acervo de seu pai, o advogado e bibliófilo Haryberto de Miranda Jordão, com o do primo, mais o conhecimento de ambos sobre livros raros. O “Sebo Fino” não só deu certo como já representou o Brasil no exterior.

Em março de 2004, o Brasil foi representado pela primeira vez numa exposição de livros raros e antigos, paralela à Feira do Livro de Leipzig. Em dez anos, também pela primeira vez, houve a participação de um expositor da América Latina, o “Sebo Fino”.

Para a viagem à Europa, um acervo especial, com dez exemplares reeditados no século XX, destacam-se dois volumes sobre pássaros: Ornitologia Brasileira ou História Nacional das Aves do Brasil. A obra é uma edição especial extremamente rara, com a primeira edição em português datada de 1854, segundo Bocayuva.

Os clientes da Sebo Fino são os mais ecléticos possíveis, desde aristocratas, até os bancos Santos, Itaú e Unibanco e o Governo Federal. Em 1999, o Congresso Nacional comprou de 200 itens, em um total negociado de 180 mil reais.

O Sebo Fino tem a qualidade reconhecida por personalidades do ramo como o bibliófilo José Mindlin. Entre as raridades do sebo, destacam-se a Coleção da Independência, que reúne em 18 volumes encadernados toda a correspondência entre o príncipe regente Dom Pedro e o pai, Dom João VI, após o retorno da corte para Lisboa. Outro destaque é a coleção “Período Monárquico Brasileiro”, com 250 itens (livros e documentos) publicados entre 1808 e 1839. A mais importante peça dessa coleção é o “Código Brasiliense”, uma coleção das primeiras leis editadas no Brasil.

Fazem parte do “Código Brasiliense”, por exemplo, o decreto e o edital baixados por Dom João VI em quinze de junho de 1808, não só declarando guerra ao Imperador Napoleão e seus vassalos, como autorizando a pirataria “a que os meus vassalos queriam propor-se contra a Nação Francesa. E as tomadias e presas, quaisquer que sejam, serão completamente dos apresadores sem dedução alguma para minha real fazenda”, diz o documento.

Por fim, “Sebo Fino” tem ainda os originais das ilustrações que figuraram na primeira edição da “Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, feitos pelo artista plástico brasileiro Alvim Corrêa em 1906. Tratam-se, simplesmente, das primeiras representações iconográficas de extra-terrestres na literatura mundial. “Em uma biografia, Orson Welles contou que se inspirou nas ilustrações de Alvim Corrêa para fazer sua famosa narração da invasão da terra por marcianos”. Os desenhos foram destaque na Mostra do Redescobrimento, que correu o país em 2000.

Há outras preciosidades, como uma edição de “Fêtes Galantes”, de Paul Verlaine, publicada em 1889 com impressão em seda e um soneto original manuscrito. Há também o sensacional “Alphabeto das pessoas que tem vencimentos pela Casa Imperial”, de 1830. Nele, constata-se, por exemplo, que a Marquesa de Santos recebeu um dos maiores salários já pagos no Brasil como pensão para deixar o posto de amante do imperador Pedro I: nada menos que 12 mil contos de réis anuais. Em outras palavras, a marquesa recebia por ano mais da metade da dívida externa daqueles tempos, ou dez vezes mais do que ganhava um dos mais importantes conselheiros do imperador, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, o autor da relação, que figura na lista com rendimentos de apenas mil e duzentos contos anuais.

Em outro livro, “Novelas impressionantes” de Edgar Alan Poe, publicado em 1884, a douração forma pequenos morceguinhos sobre o couro escuro. Em outro, chamado “Organização das Ordens Honoríficas do Império do Brasil”, um folheto de 27 páginas, editado em São Paulo também em 1884, há desenhos coloridos das principais condecorações. “É um livro que tornou-se raro porque as pessoas arrancavam as folhas que tinham os desenhos e jogavam o resto fora”, conta Ana. Há também peças de triste memória, como o decreto de Dona Maria, a Louca, (rainha de Portugal e mãe de Dom João VI) proibindo a existência de qualquer tipo de indústria na colônia.

SERVIÇO: Sebo Fino, Rua Santos Dumont, 677 - Centro. Petrópolis. Rio de Janeiro. Telefone: (024) 2242.0376.

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