Entrevista com Fafá de Belém

Quando o poder é da voz

A cantora Fafá de Belém: "só faço (um novo trabalho) quando me emociono", afirma a paraense
00:00 · 13.04.2018

Com 43 anos de carreira, Fafá de Belém retorna ao Ceará para três shows com o maestro Luiz Karan

Nomes como Sandra de Sá, Luiza Possi, Erasmo Carlos e, mais recentemente, Ednardo já passaram pelos palcos do Sesc-CE em diferentes municípios. Nesse mês é a vez da cantora Fafá de Belém entrar em cena com estilo mais intimista, sua voz grave e marcante, acompanhada pelo toque do piano de Luiz Karan.

O projeto Estacionamento da Música, iniciativa de difusão cultural apoiada pelo Sistema Fecomércio, leva a cantora paraense a três cidades do Ceará. O Cariri recebeu o primeiro show, no Sesc Crato, nesta quinta (12). A venda dos ingressos foi associada à doação de alimentos não perecíveis, destinados ao programa banco de alimentos do programa Mesa Brasil.

Nesta sexta-feira (13) é a vez de Sobral, região norte do Estado, receber Fafá de Belém. Com show marcado para as 20h, a apresentação acontece no estacionamento da Escola Educar Sesc. Os ingressos custam R$ 15 para comerciários, R$ 20 para conveniados e R$ 25 para o público em geral, à venda na Unidade do Sesc em Sobral.

Capital

Em Fortaleza a apresentação acontece no sábado (14), às 21h, na Unidade do Sesc Fortaleza. Os ingressos estão à venda na unidade do Centro, na Rua 24 de Maio, e na unidade onde irá acontecer o show, em horário comercial. Os preços são diferenciados para comerciários (R$ 20). Para conveniados, o valor é R$ 30; para o público em geral R$ 40.

Acompanhada do pianista Luiz Karan, Fafá de Belém passeia por seu repertório de 43 anos de carreira. Sucessos como "Nuvem de Lágrimas", gravado pela cantora em 1989, é um dos sucessos que não devem ficar de fora. O setlist inclui ainda "Foi Assim", "Sedução", "Abandonada" e "Coração do Agreste", entre outras composições.

Em 2015, Fafá de Belém gravou o álbum intitulado "Do Tamanho Certo Para o Meu Sorriso", em comemoração aos 40 anos de carreira. O álbum deu origem a um DVD, lançado em 2017 pelo selo Joia Moderna.

O disco foi produzido por Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro e está cheio sucessos da carreira da artista, além de músicas inéditas como "Asfalto Amarelo" (Manoel Cordeiro, Felipe Cordeiro e Zeca Baleiro, 2015), "Pedra Sem Valor" (Dona Onete, 2015) e "Meu Coração é Brega" (Veloso Dias, 2015).

"Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso" é o 22º álbum de estúdio da cantora. A produção foi reconhecida com dois prêmios em 2016 - o 27º Prêmio da Música Brasileira de Melhor Álbum e o de Melhor Cantora.

Carreira

Fafá é cantora, compositora e também atriz. Batizada Maria de Fátima, nasceu em Belém, capital do Pará e foi com o nome de sua cidade que ganhou notoriedade.

Em 1975 despontou com a música "Filho da Bahia" (Walter Queiroz) gravada exclusivamente para a trilha sonora da novela "Gabriela", da Rede Globo. A artista lançou seu primeiro álbum em 1976, chamado "Tamba-Tajá".

Sempre muito ativa na vida política do País, Fafá participou dos 32 comícios do movimento Diretas Já (1983-1984) e se apresentava gratuitamente nas passeatas. Ela chegou a ser apelidada de "musa das Diretas".

Em 85 cantou o Hino Nacional Brasileiro em seu álbum intitulado "Aprendizes da Esperança". A canção recebeu críticas da Justiça por ter sido sofrido modificações nos arranjos. O disco chamava a população a participar do movimento que foi determinante para a redemocratização do País. A capa, na qual Fafá aparece em frente a uma bandeira do Brasil, deixa claro o convite à nação.

Em sua casa na capital paulista São Paulo, onde vive há mais de 20 anos, Fafá de Belém falou ao Caderno 3 sobre seu estado, Pará, o cenário musical e sobre política.

Seu último show em Fortaleza foi em 2017. Como é voltar para o público cearense?

É sempre bom voltar a Fortaleza, sempre bom retornar ao Ceará. Tenho familiares que moram aí há muitos anos e de vez em quando, sem que ninguém saiba, fujo pra ir, pra mergulhar naquelas praias maravilhosas, comer caranguejo e abraçar esse povo tão feliz. Apesar de toda a seca e a dureza do Nordeste, o Ceará tem uma felicidade na alma. É muito bom voltar, agora em um modelo diferente, piano e voz. Quando passei por aí fiz um dos melhores dos espetáculos, de "Do Tamanho Certo Para o Meu Sorriso".

A parceira com Luiz Karan é recente? Como vai ser esse show mais intimista, apenas com piano e voz?

Piano e voz faz parecer que é uma seresta, uma serenata, um sarau. É algo muito nosso, próprio do Norte e Nordeste, essa coisa de sexta, sábado e domingo juntar os amigos e começar a tocar; ter um instrumento, dois, e aquilo virar uma serenata noite adentro. Essa é a intenção, de trazer um espetáculo intimista. Não é eles me ouvirem, mas todo mundo se ouvir e cantar junto.

Em Fortaleza o repertório será do disco mais recente e seus grandes sucessos?

É um olhar sobre minha carreira e até sobre coisas que nunca cantei, o que nunca gravei mas que gosto de cantar. Como é o piano e a voz a gente até se permite mexer no repertório no meio show, caso me bata um feeling, alguma coisa, que eu olhe para a plateia e recorde de algo. É muito livre, converso muito, falo muito. O importante é a informalidade e a proximidade com a plateia. Sobre o maestro Karan, nós trabalhamos juntos há 30 anos, então não há riscos.

A televisão sempre teve grande importância na sua carreira. Hoje ela ainda tem influência no seu trabalho, mesmo com o advento da internet?

A televisão sempre é um veículo muito importante apesar da internet ter uma abrangência muito grande e território livre. Ela facilita muito, principalmente para quem não está no mainstream, quem tem trabalho autoral, ou um caminho diferente do que está na mídia. Adoro procurar músicas na internet, pessoas, compositores e canções novas, compositores. É um território muito forte e de alcance grande, mas a televisão e o rádio são imbatíveis.

Seu mais recente disco, laçado em 2015, é uma comemoração dos 40 anos de carreira. Como é estar há tanto tempo nesse cenário musical?

Eu só entro em estúdio quando o disco... Quando é, quando acontece de eu ouvir uma música, de chegar pra mim, de eu estar em um lugar a tocar e a minha alma sacudir. Então passei quase 10 anos sem entrar em um estúdio porque não acontecia isso. E pra fazer regravações, coletâneas, eu já tinha feito vários. Os shows são o que mais gosto, porque a gente tá ali olho a olho com o público, mandando uma energia pra lá e recebendo de volta. Adoro show! Adoro cantar para as pessoas, o estúdio às vezes é muito chato. Mas quando uma música me atropela e ela tem que sair pela minha garganta, aí começa um novo trabalho.

Como foi o processo de gravar o último disco?

Foi maravilhoso fazer o "Do Tamanho Certo Para o Meu Sorriso", foi de uma forma completamente nova para mim. Tenho 43 anos de carreira, sou de outra geração, tenho 61 anos de idade, a gente gravava com aquela banda orquestra inteira, então gravar com duas guitarras e um computador foi para mim muito inovador, e eu amei fazer. Então é isso, só faço quando me emociono, não por obrigação. Aliás, não faço por obrigação nada na minha vida.

Mesmo após esses anos o seu estado, Pará, ainda é uma marca sua; Como foi e como é levar a região Norte para o restante do País?

O Pará é muito forte musicalmente. Há 40 e poucos anos, quando eu vim, nós tínhamos que ter muita coragem porque não havia patrocínio, não tinha apoio, o Pará é distante, não fica aqui no lado, ele fica de fora do eixo Rio-São Paulo. Existe uma cultura plural e muito significativa do estado, desde o maestro Waldemar Henrique, o erudito, até os carimbós, as coisas mais populares, os ciriais e o boi do Pará. Hoje, o Pará está na moda e eu acho maravilhoso. Ver grandes figuras surgindo de lá, pessoas novas, meninas, mulheres, compositores, músicos. De todos que chegaram nessa leva, acho que todos nós temos que bater cabeça e reverenciar uma mulher de uma coragem incrível, de um talento maravilhoso, chamada dona Onete. Uma pessoa que muda de vida aos 79 anos e conquista o mundo é maravilhoso. Isso é o Pará.

Você sempre foi muito atuante na política, participou do Diretas Já. Como vê o cenário hoje, essa descrença com os políticos em geral?

Estou como todo brasileiro. Triste, decepcionada, mas ao mesmo tempo com muita esperança de que nosso povo reaja. Não escolha mais corruptos, que lembrem quem está na lista negra, que aposte em pessoas novas e que não troquem mais voto por favor nenhum. Voto não se troca. Assistencialismo é a pior coisa que se pode fazer em política. Eu sigo um pouco desesperançada, mas a minha esperança no povo brasileiro é sempre enorme e jamais finda.

Mais informações:

Fafá de Belém - Piano e Voz em Sobral. Hoje (13), às 20h, na Escola Educar Sesc em Sobral (R. Dom Lourenço, 855, Junco). Ingressos: R$25. Contato: (88) 3611.0954

Em Fortaleza: neste sábado (14), às 21h, na unidade Fortaleza do Sesc (R. Clarindo de Queiroz, 1740, Centro). Ingressos: R$ 40. Contato: 0800.275 5250

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