Memória

Quando a morte visitou o poeta

"O livro das mesas" reúne transcrições das experimentações espíritas do escritor Victor Hugo

00:00 · 14.04.2018 por Dellano Rios - Editor de Área
A moda das mesas volantes, na Paris dos anos 1850, em ilustração de Gustave Doré; ao lado, o escritor Victor Hugo, à época de seu exílio na ilha de Jersey

O ano é 1854. O ruído das ondas denuncia a proximidade do mar, que banha as praias da ilha anglo-normanda de Jersey. A noite já ia avançada na sala de estar de um casarão branco, que mais parecia um túmulo. Eles se dedicam a uma prática recém chegada dos EUA, que invadia os salões parisienses: as mesas-volantes. A intenção dos homens e mulheres, sentadas à mesa, era de se comunicar com as almas dos mortos. De 3 a 10 de setembro daquele ano, uma presença se manifestou regularmente. "Quem está aqui?", lhe perguntam. "A Morte", responde. A visitante tem mensagens para o patriarca do clã ali reunido, Victor Hugo (1802-1885), deputado francês exilado após o golpe de estado de Luís Bonaparte e um dos nomes mais importantes da literatura.

O enredo, com toques de terror vitoriano, pode sugerir que se está lendo a sinopse de um romance, do tipo escrito por autores contemporâneos habituados a fundir fato e ficção e levar personagens históricas para o centro da ação. Mas a natureza do material é bem diversa. Trata-se, de fato, do resumo de uma das sessões espíritas registradas nos quatro cadernos que compõem "O livro das mesas", de Victor Hugo.

A obra póstuma é assinada pelo escritor por uma decisão editorial, já que não se trata exatamente de um livro que Hugo deixou inacabado. O fato é que ele não foi o único autor dessas anotações, um fração sobrevivente de um volume maior de atas de sessões do tipo. Também ajudaram a redigi-las os familiares do autor de "Os miseráveis" e amigos que os acompanharam no exílio em Jersey e, com o escritor, mergulharam na moda das técnicas de comunicação com os mortos.

A mais completa coleção dos registros dessas sessões, que aconteceram de 1853 a 1855, ganhou edição nacional. A Três Estrelas lançou, no sábado (15), "O livro das mesas - As sessões espíritas da ilha de Jersey", organizado por Patrice Boivin, com tradução de André Telles. Boivin registra e contextualiza as experiências espíritas de Victor Hugo, transcreve o conteúdo dos cadernos sobreviventes, lista aqueles que se perderam e enumera as personalidades e entidades que se manifestaram nessas sessões.

Ciência

Em que estante o livro merece figurar? Decerto, é um capítulo importante na biografia de Victor Hugo. Mas suas qualidades factuais são de uma natureza incomum. "O livro das mesas" certamente terá lugar entre as obras, de valor histórico, que documentam as origens do espiritismo, antes da popularização de sua codificação, feita por Hippolyte Léon Denizard Rivail, famoso como Allan Kardeck (1804-1869). As sessões, então, tomavam ares de experiências racionais, científicas até.

Aquelas conduzidas por Victor Hugo têm um sabor mais filosófico. À mesa do poeta, recorrem figuras importantes da história universal, como Jesus e Maomé; e grandes nomes da literatura e do pensamento, caso de Shakespeare, Voltaire e Molière. Impressiona, ainda mais, a aparição de entidades abstratas, como se as próprias sessões tivessem uma natureza poética ou literária. Afinal, os espíritos que se pronunciam, por vezes, se nomeiam como A Ideia, A Prece, O Devaneio, O Drama, A Tragédia, O Romance, A Crítica e a insistente Morte.

O livro das mesas - As sessões espíritas da Ilha de Jersey

Victor Hugo

Organização: Patrice Boivin
Tradução: André Telles
Três Estrelas
2018, 632 páginas
R$ 99

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.