DISCO

Proletários do experimento

Versado na experimentação, o trio Dronedeus (CE) lança seu primeiro álbum, "Proletariadx"

O trio dronedeus: experimentação envolve sonoridade e shows ( Foto: Tais Monteiro/ divulgação )
00:00 · 14.06.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

Houve, e ainda há, no cenário da música e da cultura em geral, um estigma que envolve projetos experimentais: essas criações seriam feitas para a satisfação (única) dos próprios autores, sem interação com o público. Noutra direção, a ideia tem sido desconstruída através do formato de grupos que pensam (e se dispõem, na prática) a se apresentar reinventando a relação com os espectadores.

É o caso do trio cearense dronedeus. A formação lança seu primeiro álbum, "Proletariadx" (Mercúrio Música), nas plataformas digitais, e se consolida como um projeto de arte sonora na cena local.

Desde o princípio, o músico e produtor Lenildo Gomes (texto e voz), Vitor Colares (baixo, casiotone e sintetizador) e Rodrigo Colares (batidas, sintetizador e samples) se apresentam, ao vivo, sentados no chão.

A ideia é questionar a posição "intocável" do artista que sobe aos palcos tradicionais. "Acho que Fortaleza vive um momento bacana nessa questão da experimentação. Quanto ao público, acho que esse formato aproxima as pessoas", observa Lenildo em entrevista.

"O palco comum coloca o artista num tipo de altar, de pedestal. E a gente se coloca no mesmo nível das outras pessoas", completa ele.

Ideia

No início, em setembro de 2016, o dronedeus era um quarteto. O guitarrista Gabriel Sousa saiu da formação por motivos pessoais.

O ponto de partida da criação sempre foram os textos de Lenildo. Dentre as seis faixas de "Proletariadx", todas as letras já tinham sido publicadas em outro formato, no livro "Música ao fundo, poucos acordes, uma voz rouca", lançado no ano passado. "A primeira ideia era fazer uma experimentação eletrônica a partir dos poemas. Então já pensamos esse formato desde o começo, com inspiração no trip hop. E a narrativa vem do gênero 'spoken word': a ideia é manter o texto com a narrativa de texto", situa Lenildo.

O músico conta que o trio precisou passar por longos ensaios até amadurecer as composições. O primeiro show, realizado em novembro de 2016, no Salão das Ilusões (Centro), foi todo gravado e lançado online, mas a formação considera "Proletariadx" o primeiro álbum.

Ao vivo, a proposta ganha uma ambientação similar às apresentações intimistas das artes cênicas. "E as narrativas das letras são todas muito íntimas, sobre questões de relacionamento. Então acho que funciona melhor nesse formato", sugere o compositor.

Conexão

"Sem querer", o disco do dronedeus faz referência, pelo título, ao nome do novo álbum de Wado (AL), "Precariado". Lenildo observa que a produção artística está atenta para tempos de "angústia, desespero e desesperança" em relação ao cenário político no Brasil e no mundo.

"Nossa discussão, pra chegar nesse título, foi bem interessante. Apesar das letras não terem um discurso político tão óbvio, elas falam de amor e dor, questões próprias a todas as pessoas. E a gente se vê no lugar da classe trabalhadora, e isso traz questões relacionadas à estética da vida, do afeto, às vezes pouco percebidas", reflete Lenildo.

Para ele, o cenário da música local tem sido mais receptivo aos projetos experimentais. Ele cita eventos como o festival Synth Punk Party, cuja programação reúne vários grupos "dialogando nesse sentido, do instrumental ao eletrônico", anota.

"Tem um público bom. Mas as pessoas do circuito das artes precisam estar mais atentas ao que os outros (locais) fazem. E como a arte é cada vez mais híbrida, os artistas precisam se hibridizar (também)", avalia.

Para o músico e jornalista Rodrigo Colares, a criação dele e do irmão, Vitor, compõem um cenário para os textos de Lenildo Gomes. "Tanto num texto cantado, como no mais falado, há essa intenção de diálogo, entre a voz e o que é tocado pelos instrumentos. Conhecendo o texto do Lenildo, a gente aponta para uma estética a ser descoberta nas pistas, nos climas que os textos trazem", observa.

Referências

As referências do dronedeus para "Proletariadx" passam por ícones de outras linguagens artísticas, a exemplo do cinema. O álbum faz referência ao filme nacional "Bandido da Luz Vermelha" (1968, Rogério Sganzerla). A citação já fez parte da concepção do primeiro disco solo do guitarrista do grupo, Vitor Colares ("Saboteur", 2012).

"(O filme) é uma referência estética, de uma crítica super atual à sociedade brasileira. Essa estética mais 'borrada', que a gente procurou inclusive para a capa do disco, com o (artista) Diego Maia, a questão do preto e branco, vem dessa obra (também). É um filme necessário, ácido", observa Lenildo.

A cantora e atriz cearense Marta Aurélia participa de "Alcóolicas" (a composição de menor duração do álbum, com 4min33seg). Na faixa, ela recita um poema de Hilda Hist (1930-2004). Antes de Marta colaborar, o grupo usava um áudio da própria Hilda narrando o texto.

"Ela (a cantora) deu outra cara para o poema. E quando não puder participar do show, a gente deve usar o áudio (gravado para o disco). Ficou muito bacana", detalha Lenildo.

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