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Processos digitais

Procedimentos técnicos de modernização de acervos dimensionam complexidade das ações de digitalização

00:00 · 08.09.2018
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Acervos da Menezes Pimentel e, abaixo, do Instituto do Ceará ( Fotos: Fabiane de Paula/ Kid Junior )

Outras ações tecnológicas puderam fomentar a digitalização do acervo do Arquivo Público. Em 2014, o equipamento ganhou o Edital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), adquirindo um kit simples de digitalização. Conforme enumera Márcio, "temos um scanner de última geração, um computador, uma máquina Cannon 600 e algumas mesas próprias para digitalizar e fotografar os livros mais pesados".

Nesse processo, a digitalização envolveu os arquivos pertencentes à série documental Chefatura de Polícia da Província do Ceará, de 1826 a 1889. Foi, inclusive, com o mote de trabalhar sobre esses itens que o equipamento venceu o edital referente. São cerca de 10 mil documentos - de um total de 50 mil - que já foram organizados, higienizados e catalogados por um funcionário treinado pela Fundação Joaquim Nabuco, no Recife (PE).

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Neles, estão correspondências de chefes de polícia do Estado no período provincial, que podem fomentar pesquisas sobre informações sobre obras públicas realizadas à época, por exemplo. Os documentos - integrantes da digitalização feita pelo próprio Arquivo Público - são mantidos em um banco de dados, no computador do equipamento.

Genealogia

Quanto ao acervo cartorial do Arquivo Público, mais de 900 mil documentos de natureza genealógica já passaram pelo procedimento através da parceria técnica da Secult com a instituição americana Family Search, que desde maio começou a catalogar todo e qualquer documento que comprove a passagem das pessoas que nasceram, casaram e residiram no Estado entre os séculos XVIII e XX.

A ideia, com o projeto, é realizar os processos de limpeza, digitalização e catalogação dos registros de cartórios da Capital e do interior que estavam guardados na sede original do Arquivo Público, no Centro. O banco de dados que alimenta o sistema é mantido na sede da empresa, em Salt Lake City, em Utah (EUA). As informações são gravadas em HDs Externos e repassadas ao equipamento, para resguardo.

O esperado é que, daqui a alguns anos, qualquer pessoa poderá ter acesso online, pelo site da Family Search (www.Familysearch.Org), aos registros de seus antepassados.

Na previsão orçamentária do Arquivo Público para 2019, inserido na Lei de Orçamento Anual (LOA), consta o montante de R$ 200 mil para ações de digitalização do equipamento. A verba deve ser aplicada principalmente na digitalização dos documentos do período colonial e imperial do acervo.

Márcio Porto enfatiza: "O processo técnico de digitalização não se dá de maneira automática. Uma série de procedimentos técnicos da arquivologia, somados a olhares de historiadores e demais profissionais da área das Ciências Humanas e Sociais, são imprescindíveis antes de qualquer ação digitalizadora. A integridade dos documentos deve ser avaliada, no sentido de se observar se a ação não trará danos irreparáveis aos mesmos".

Modernização

Equipamento cultural mais antigo do Estado - datado de 1867 -, a Biblioteca Pública Menezes Pimentel, conforme informações da Secult, também integra a rota de procedimentos técnicos ligados à digitalização de seu acervo, contabilizado em mais de 132 mil obras.

Desde 2016, a casa possui o Projeto Modernização de Implementação do Setor Braille em 53 bibliotecas públicas municipais do Ceará. A ação acontece através da empresa Acesso Educação, que realizou, durante o período de 22 de maio a 15 de julho de 2017, serviços técnicos de informatização de pouco mais de 9.160 obras.

O material passou pelas etapas de catalogação, classificação, indexação, etiquetação e informatização, esta última no software Biblivre, os quais foram entregues para 16 bibliotecas públicas municipais da região Centro Sul do Estado.

Outra iniciativa capitaneada pela casa aconteceu no último mês de agosto, quando foram realizadas três capacitações para digitalização, catalogação, informatização e indexação de livros no Biblivre.

Novas Mídias

Na seara de Obras Raras, uma parte do acervo também já está digitalizada através da conquista de editais - seja do Ministério da Cultura ou de instituições; já quanto aos periódicos que integram a Hemeroteca, Fabiano Piúba afirma que uma considerável parcela da coleção está disponível em microfilmagem. Com o projeto de digitalização previsto para 2019, a proposta é realizar o processo em novas mídias também.

Fabiano Piúba destaca ainda que um dos pontos da agenda estratégica da Secretaria é a aquisição de máquinas adequadas para digitalização de mídias, como livro e jornal, por exemplo.

"Antes, isso era extremamente complexo. Hoje, o mercado já oferece dispositivos que digitalizam arquivos de modo mais acessível", avalia o gestor. "Com esses aparelhos, vamos desenvolver um projeto permanente, partindo, obviamente, do acervo que está mais fragilizado", explica o gestor.

Além disso, outro elemento que o secretário sublinha é a aquisição de e-books por parte da Biblioteca através de um edital do Ministério da Cultura, pelo qual a Secult está concorrendo. "No cenário atual, podemos estar adquirindo acervos que já vêm digitalizados para que sejam feitos empréstimos também de livros digitais, que podem ser lidos por meio dos leitores que existem no mercado.

MIS

No que toca ao Museu da Imagem e do Som (MIS), Xico Aragão, gestor do equipamento, informa que 2% do acervo (5 mil peças de um total de 160 mil) encontra-se digitalizado. De acordo com ele, alguns arquivos que chegaram ao local através de doação já vieram em mídias, como discos, fotografias, VHS e DVDs.

Além disso, entre os anos de 2006 e 2007, o equipamento realizou a digitalização de fitas K7 para CD através de projeto aprovado no Programa Petrobras Cultural. A casa possui uma parte do arquivo digitalizado e gravado em CDs e DVDs, tais como mais de 36 mil fotografias no formato digital - parte do acervo do Nirez e do Centro de Referência Cultural do Ceará (CERES).

O MIS possui um projeto de modernização e digitalização que o novo prédio que está sendo construído contará. O ambiente será equipado com um laboratório de higienização e digitalização de acervos audiovisuais, integrando as ações de salvaguarda do Museu.

"É complicado estimar o tempo em que concluiremos esse trabalho porque temos muitos itens", mensura Xico. Ainda que as iniciativas de digitalização realizadas visem a um maior acesso ao acervo do equipamento, há uma preocupação por parte da gestão da casa na conservação das matrizes nos formatos originais. Deste modo, o museu mantém inúmeros acervos originais em VHS, K7, Betacam, Película e fitas de áudio em rolos.

Perspectiva

Nesse sentido, Xico Aragão avalia o tratamento digital de arquivos com ressalvas: "Apenas o processo de digitalização não é a salvação. Precisamos definir uma política de acervos, manutenção, aquisição ou até de descarte, no sentido do que podemos remanejar de um equipamento para outro", explica.

"Além disso, é necessário disponibilizar o conteúdo digitalizado na internet - considerando que nosso equipamento é público - e investir em capacitação de profissionais. Para a LOA do próximo ano, calculamos o valor de R$ 300 mil para o MIS, valor onde estão inclusos esses processos", completa Aragão.

Ele afirma ainda que pensar um museu sob a perspectiva de que o suporte digital é suficiente para resguardar os arquivos de forma segura é uma ótica que precisa ser mudada. Há uma necessidade, portanto, de que os gestores dos equipamentos desenvolvam um senso de seleção do que deve compor seus acervos.

"Por mais que digamos que tudo cabe no digital, que tudo vai para a nuvem, não dá para guardar todos os arquivos. Temos que ver o que realmente é importante, até porque tudo tem um custo, sobretudo o que é legítimo, do ponto de vista de representação da cultura e da arte do nosso povo. Na minha visão, é por aí que devemos pensar", finaliza.

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