Férias no Dragão

Precisamos falar com Silvia

Em novo espetáculo, a bailarina Silvia Moura desvencilha-se de roteiros e se dispõe a cuidar do público

00:00 · 12.01.2017 por Mayara de Araújo - Especial para o caderno 3
Image-1-Artigo-2187257-1
Desde maio de 2016, Silvia vem fazendo apresentações do processo, para ouvir o público.
Image-0-Artigo-2187257-1

Um teaser de um minuto e cinquenta segundos intenta adiantar algo do projeto. No breu da tela, reconhece-se a voz de uma didática Silvia Moura: "Esse projeto se chama A Dança Nossa de Cada Dia ou Como Seria Se... Ou De Dentro do Cuidar. São vários nomes porque são vários caminhos e nós não sabemos onde eles vão dar". Pouco depois, distingue-se imagens de bastidores: numa sala de ensaios, o realizador do vídeo pede para que Silvia faça uma "breve apresentação" do espetáculo. A bailarina reflete, posiciona-se para a câmera e... Irrompe com a pergunta: "mas o que tu chama de breve apresentação"?

A Silvia que se vê naqueles segundos, inquieta, mas serena - que franze a testa e leva a mão à cintura quando questiona - é quem o público encontra em "A Dança Nossa de Cada Dia", trabalho selecionado pela Escola Porto Iracema das Artes em 2016 e com o qual a bailarina sobe, hoje, ao palco do "Férias no Dragão - Ceará em Alta", no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Montado em parceria com Uirá dos Reis (responsável pela trilha sonora) e João Paulo Pinho (quem produz e "segura a mão", segundo a dançarina), o projeto passa longe de ser, de fato, sintetizável em palavras breves, daí a dificuldade da idealizadora no vídeo. Está alicerçado em alguns pilares, no entanto: cuidado, afeto, tradição, memórias e, sobretudo, improviso. "O espetáculo foi feito para ficar em aberto, para ser um espaço de chamar pessoas, acolher e conversar. Quero falar sobre algumas coisas e fazer isso junto, de modo que as pessoas saiam tocadas, transformadas de alguma forma", expõe.

Desapego

Comprovando a proposta transitável da montagem, a equipe optou por abrir o processo desde as primeiras cenas. "No primeiro mês de criação, eu já apresentei um esboço, umas 13 cenas. Depois, voltei a fazer o espetáculo pelo menos uma vez por mês, sempre ouvindo o retorno do público ao final", explica.

Para a bailarina, a interferência do público é fundamental para entender o que é essencial na criação. "Se as pessoas que compõem aquele momento com você não são iguais, então o espetáculo também não vai ser igual. Muda o público, muda a energia do trabalho", afirma, ilustrando com duas ocasiões: uma apresentação no Cuca da Barra do Ceará e outra em Guaramiranga. "Na do Cuca havia muitas crianças na plateia e foi interessante porque elas levaram o momento para onde queriam, eram as protagonistas daquilo".

Já em Guaramiranga, a apresentação não aconteceu em um espaço cênico, mas numa escola, no período da tarde, para 130 adolescentes. "Foi totalmente diferente. Outra energia, outra luz...", confessa. Mas dobra a esquina do pensamento, transformando o depoimento em reflexão: "Não foi ruim. Não é isso. A mudança, a precariedade do espaço, força você a ter uma outra presença no palco. É difícil, mas é bom. É uma provocação". O risco parece ainda instigar a dançarina com 50 anos de vida e 40 de ofício. Também por isso a opção por, neste momento da carreira, lançar-se a um processo formativo longo como o da Escola Iracema das Artes, com tutores e rotinas produtivas. "Não é como se um médico experiente decidisse voltar a fazer residência?", pergunta a repórter. "Nas artes, não é bem assim", ensina a entrevistada. Segundo Silvia, arte é formação contínua. "É importante consentir em se arriscar. Estou há muito anos nisso, mas estar numa escola, trocando saberes com outras pessoas, poder me dedicar um ano inteiro a um trabalho... Isso já vale a pena. Além disso, pensei muito no inverso também: o que eu que estou nas artes e nesta cidade a mais tempo do que essa escola posso trazer pra somar?", avalia.

A gratidão ao tutor, Luiz Mendonça, mestre em Ciências da Arte pela Universidade Federal Fluminense e professor da mesma instituição, ratifica o desejo de formação contínua da veterana. Silvia parece confortável e satisfeita em poder aprofundar cada movimento, cada solução de palco. "A cada vinda do Luiz, quando eu apresentava alguma coisa, aquilo gerava uma discussão, um questionamento... E a cada conversa com outras pessoas que também auxiliaram bastante no processo surgia um novo olhar. Isso cria um ambiente, uma rede pra gente poder saltar".

Das 13 cenas inicialmente apresentadas, restaram sete. Para a seleção, o ouvir e o filtrar foram fundamentais. Segundo a sábia dançarina, formar-se não é o mesmo que se deixar formar: "um processo longo como este não serve só para eu saber o que quero, mas também o que não quero. Tem uma cena dessas que é linda, mas em algum momento eu entendi que não era desse espetáculo. Então, tirei. Se deixasse, seria só por vaidade, entende? Eu não me apego. Agora, nem todo retorno que recebo vai me fazer reformar o trabalho. A gente tem que brigar pelo que acredita também".

Bálsamo

A "rede para poder saltar" estendida pela tutoria, pela equipe do espetáculo e pelo público não foram as únicas formas de cuidado que Silvia Moura experimentou nesses meses de preparação. Seria difícil tratar do cuidar sem deitar na mistura um punhado de biográfico, familiar. "O espetáculo fala desse princípio do cuidado pelo outro e, na mesma hora, lembrei dessas pessoas que rezam, fazem remédios, queria muito chegar nisso", explica. Para tanto, recorreu aos unguentos e às preces do Interior. Em Guaramiranga, encontrou-se com Seu Coca, rezador, e as irmãs Ivanir e Vilanir, ambas rezadeiras e dramistas.

"Isso é essência do Ceará e me levou a algo muito meu, uma coisa ligada à minha avó, às pessoas da minha família. Eu queria muito que essa tradição não morresse", revela, recordando as lembranças em São Luís do Curu, no Norte cearense, onde estão suas raízes. Segundo a dançarina, em vários momentos do espetáculo, a essência das rezadeiras está presente. "Essas pessoas sábias, do Interior, me fizeram pensar sobre cuidado. O cuidar é uma coisa que a gente aprende ou a gente nasce com isso? Antes de incluir as tradições, pensei muito. 'As pessoas vão achar piegas, cafona'... Mas essas coisas me lembram de onde eu vim".

Reforçando o convite para assistir à montagem, Silvia segreda que se agrada muito da atmosfera deixada pela apresentação, ao final. Diz que as pessoas saem mais unidas, como se caminhassem juntas a algum lugar bom. E reitera: "Isso é urgente. Essa união, esse cuidado. Num período tão turbulento da história do País e tão difícil pra cultura, cuidar um do outro vai ser fundamental pra gente passar por isso".

Mais informações:

"A Dança Nossa de Cada Dia ou De Dentro do Cuidar ou De Como Seria Se...", espetáculo de dança com Silvia Moura, Uirá dos Reis e João Paulo Pinho. Hoje, às 17h, no Teatro Dragão do Mar (R. Dragão do Mar 81, Praia de Iracema). Acesso gratuito. Contato: (85) 3488.8600

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.