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Por uma vida menos ordinária

Lembrado como um dos atores mais queridos do cinema alternativo norte-americano, Harry Dean Stanton, morto em setembro deste ano, se despede de maneira triunfal com o simples e delicado "Lucky"

00:00 · 07.12.2017 por Antonio Laudenir - Repórter
filme
"Lucky" é uma espécie de testamento e tributo ao norte-americano Harry Dean Stanton, que faleceu este ano, após participar de mais de 200 produções audiovisuais

Quando Harry Dean Stanton saiu de cena em setembro, aos 91 anos de idade, muito de uma desconhecida Hollywood também foi junto com este artista para o caixão. O corpo magro, os olhos profundos e tristes e a fala arrastada deste homem representaram a incisiva imagem de uma América periférica e pouco celebrada. Marcado como um ator de papeis secundários, ele brilhou nos mais diferentes gêneros cinematográficos que pode abraçar.

Se existe um rosto para essa América desprovida do jogo de aparências, Stanton foi o cara. Após uma vida de cigarros, pontas quase despercebidas, seja em produções menores ou de alto calibre, a aura em torno deste homem é renovada com a estreia de "Lucky", filme póstumo dirigido pelo também ator John Carroll Lynch.

Depois de mais de 200 produções audiovisuais em que esteve envolvido, foi com "Lucky" que Stanton teve a segunda chance de protagonizar um filme. A primeira aconteceu com o icônico "Paris, Texas" (1984), do realizador alemão Wim Wenders. O que poderia corresponder a uma nódoa na carreira (o fato de poucas vez ter o nome no cartaz) foi responsável por estabelecer toda uma rede de encantamento à maioria dos projetos em que ele se envolveu.

Em "Lucky", os detalhes da trajetória real de Stanton alimentaram a vida fictícia do personagem principal. Lucky, assim, é um paradoxo. Solitário, o nativo do Kentucky e cozinheiro pela Marinha na Segunda Guerra Mundial (por não estar na frente de batalha, daí o apelido de "Sortudo"), o protagonista nunca se casou ou teve filhos. Morando em uma cidade sem nome e cravada no meio do nada, o idoso começa o dia com alguns exercícios de ioga e uma caminhada rápida para a cidade. A levada de Stanton em "Lucky" é a de um homem que parece estar pisando obstáculos invisíveis, alguém que conhece o caminho das pedras justamente por ter pisado em muitas delas por aí.

Rotina

Muito pouco desse cotidiano parece incomodar o protagonista. Café e palavras cruzadas pela manhã, uma ida ao mercadinho no início da tarde e, durante a noite, uns drinks em um bar. Ali, ele troca figurinhas com um sensível senhor da cidade (vivido por David Lynch, justamente o diretor com quem trabalhou várias vezes), um cara de terno sempre polido e ex-vagabundo (James Darren) e a espirituosa proprietária, Elaine (Beth Grant), que mantém um olho afiado nas ações do anti-herói na história.

Lucky, no entanto, dá sinais de que a saúde começa a vacilar. Após uma breve perda de consciência, ele visita ao médico local (Ed Begley Jr.), que agrava o incidente com uma constatação simples: "Você é velho e envelhece". Sob os olhares incrédulos do paciente, o doutor aconselha Lucky a "examinar claramente" seu lugar na vida, o fim inevitável e a ideia de aceitar o destino.

A estreia na direção de John Carroll Lynch funciona e se assegura a partir de um roteiro simples e caseiro de Logan Sparks e Drago Sumonja, ambos amigos de longos anos de Harry Dean Stanton (o filho do primeiro até é afilhado deste). A dupla inspirou-se na vida, nas histórias, nas conversas e nos "causos" do ator para escreverem "Lucky". O veterano teve, enfim, a chance de um filme especialmente para ele.

Lynch gravou "Lucky" rapidamente. As filmagens ocuparam algumas semanas dos arredores de Los Angeles e dois dias do deserto do Arizona. Ali, o estreante capturou as cores e nuances necessárias ao universo do personagem. A cada momento somos lançados a um último encontro com Stanton. Sua conversa com outro veterano da Segunda Guerra Mundial, cujas memórias dolorosas desse conflito ecoam dentro da própria experiência de Lucky, reforçam o quanto somos jogados naquela rotina.

Medo

Através da respiração ofegante e dos passos imprecisos de Lucky aprendemos o quanto a morte é tão ou mais complexa como a realidade. Tememos o fim de nossas existências, tudo por conta de uma série de convenções supérfluas e até desnecessárias. Buscar subterfúgios torna-se muito mais cômodo do que encarar a realidade. Mesmo com medo, Lucky busca contornar a situação mantendo a rotina como ela sempre foi. O mundo é imenso lá fora, porém você vai ficar bem com um maço de cigarros, camisas xadrez bem passadas e música mexicana no rádio.

John Carrol Lynch entrega um filme comovente. Trata-se de um presente não apenas para Stanton, mas para todos aqueles cinéfilos que identificaram, pelo menos uma vez, o rosto daquele homem em algum filme. "Lucky" dialoga sobre a brevidade, a melancolia e sob o quanto nossos reflexos no espelho são frágeis e fugidios. Vivemos em um castelo de cartas, porém não aprendemos a lidar quando elas desmoronam. Harry Dean Stanton mostra como patinhos feios podem cantar como os mais bonitos e enfadonhos cisnes. A vida é ordinária, aprenda. A ideia é suportar e fazê-la uma experiência melhor. "Vaya Con Dios", Lucky Stanton.

Carreira

Harry Dean Stanton nasceu em West Irvine, pequena cidade do Kentucky em 14 de julho de 1926. Filho de Sheridan Harry Stanton, este barbeiro e plantador de tabaco e de Ersel Moberly, uma cozinheira. Depois de servir na Marinha no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, ele frequentou a Universidade de Kentucky, onde se interessou pelo teatro. Saindo da faculdade depois de três anos, ele se mudou para Los Angeles e estudou atuando no Pasadena Playhouse.

No início da carreira costumava ser creditado apenas como "Dean Stanton", tudo para evitar qualquer confusão com outro ator, no caso, Harry Stanton (1901-1978). O primeiro papel acontece na televisão em 1954, em um episódio da série "Inner Sanctum", programa voltado para o suspense e mistério. A estreia no cinema foi com "O Festim da Morte (1957)", faroeste estrelado por Chuck Connors (1921-1992). Um detalhe é que Stanton participou de "Sinistra Emboscada" (1956) e "O Homem Errado" (1956), de Alfred Hitchcock. Porém, suas pontas não foram creditadas.

Entre os inúmeros faroestes de TV em que foi visto estão "Rawhide", "Bonanza" e "The Big Valley". Outro trabalho ocorre em oito episódios de "Gunsmoke", onde interpreta um personagem diferente em cada parte. Stanton passou duas décadas em Hollywood encarnando cowboys e vilões antes que seu talento começasse a se notado. Após performances nos filmes "Alien - O Oitavo Passageiro" "Sangue Selvagem" e "A Rosa" (ambos de 1979); e "Fuga de Nova York" (1981), a carreira deste ator ganhou outras proporções.

Nesses papéis viveu personagens distintos e independentes. Permaneceu desconhecido para o público em geral até 1984, quando o inesperado aconteceu. Stanton estrelou um amnésico errante em "Paris, Texas", grande vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes. Outro destaque foi como um ladrão de automóveis em "Repo Man". Stanton nunca mais voltou a ser anônimo, embora continuasse fazendo suas contribuições quase inteiramente em papéis de apoio.

Na música, liderou a própria banda, conhecida inicialmente como "Harry Dean Stanton e Repo Men". O projeto foi mudado mais tarde apenas para "Harry Dean Stanton Band" e o grupo se apresentou em pequenos clubes da área de L.A. Era amigo de Bob Dylan, com quem trabalhou no filme de Sam Peckinpah, "Pat Garrett e Billy the Kid". Outro camarada foi Hunter S. Thompson (1932-2005), e Stanton chegou a cantar no funeral do pai do jornalismo gonzo.

Foi tema de dois documentários: "Harry Dean Stanton: Crossing Mulholland", de 2011, e "Harry Dean Stanton: Part Fiction" de Sophie Huber, obra que contou com entrevistas de Wenders, Sam Shepard (1943-2017) e do diretor David Lynch.

Saiba mais

Filmografia selecionada de harry dean stanton

"O Homem Errado" (1956);

"A Conquista do Oeste" (1962);

"No Calor da Noite" (1967);

"Rebeldia Indomável (1967);

"Corrida Sem Fim" (1971);

"Pat Garrett e Billy the Kid" (1973);

"O Poderoso Chefão II" (1974);

"Alien - O Oitavo Passageiro" (1979);

"A Recruta Benjamin" (1980);

"Fuga de Nova York" (1981);

"Christine, O Carro Assassino" (1983);

"Repo Man - A Onda Punk" (1984);

"Paris, Texas" (1984);

"Amanhecer Violento" (1984);

"A Garota de Rosa-Shocking" (1986);

"A Última Tentação de Cristo" (1988);

"Coração Selvagem" (1990);

"Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer" (1992);

"Medo e Delírio" (1998);

"Uma História Real" (1999);

"À Espera de um Milagre" (1999);

"Império dos Sonhos" (2006);

"Rango" (2011);

"Lucky" (2017).

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