Debate

Por uma arte plural

A exposição-fórum "Artes Descoloniais" discute o pensamento eurocêntrico ao longo da história da arte

00:00 · 13.09.2017 por Iracema Sales - Repórter
Imagens do artista Alex Hermes, colocadas na fachada do museu: fotografias aludem à estética das máscaras, aos ex-votos e à questão da migração

A segunda edição da exposição-fórum "Artes Descoloniais" - que pode ser visitada até 30 de setembro, no Museu de Arte Sobrado Dr. José Lourenço - mostra que a arte continua seguindo à risca uma das suas principais funções: provocar debate com a sociedade, além de contestar teorias e pensamentos unilaterais em torno da narrativa da arte mundial.

É justamente o que propõem os organizadores, que demonstram ousadia ao reunir artistas, pesquisadores, professores, educadores de museus e curadores "para dialogar em torno do mesmo tema" - conforme avalia a historiadora Carolina Ruoso, professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante da comissão científica do evento. Ela colaborou com a primeira edição, realizada no ano passado.

A mostra é formada por 16 propostas concebidas por artistas e cooperadores, em uma exposição que tenta criar interseção entre discurso obra. Carolina Ruoso defende novas formas de pensar modelos de exposições de arte, bem como a valorização dos trabalhos artísticos, para que deixem de ser coadjuvantes, sobretudo aos olhos da Academia.

O peso da exposição é sempre menor, instiga a historiadora. Neste ano, quando o Sobrado Dr. José Lourenço festeja uma década de criação, a direção do museu demonstra maturidade ao tomar para si a responsabilidade de levantar questões dessa natureza. Ou seja, não resume sua tarefa apenas a abrigar objetos ou mostras.

No bojo do discurso dos estudos pós-coloniais, a proposta é engrossar o debate em torno da "arte descolonial, que vem sendo discutida internacionalmente", atenta Ruoso.

Ela lembra que a discussão remonta aos escritores modernistas Mário de Andrade (1893- 1945) e Oswald de Andrade (1890-1954) com o movimento antropofágico.

"A antropofagia constituía uma filosofia descolonial", frisda ela - aplicada nas artes visuais, sinalizava para essa visão eurocêntrica predominante na história da arte mundial. Outros povos, a exemplos dos africanos, tiveram seus trabalhos relegados à condição de subalternos, vistos como primitivos.

Quando muito, serviam de inspiração a artistas europeus, que afirmavam descobrir essa arte exótica, como as máscaras africanas, bastante aproveitadas pela arte moderna. O artesanato ilustra também essa situação de desigualdade, sendo caracterizado pela repetição passada de geração a geração, daí a importância do debate, segue a historiadora.

Ela ressalta que o debate põe em xeque o papel da própria escrita da história da arte, que deve levar em consideração a pluralidade. Ainda segundo Ruoso, esse novo pensar tem um componente também político, chamando a atenção para a produção pós-colonial relacionada à arte africana.

Capoeira

Nesse aspecto, a capoeira ganha destaque, sendo abordada na exposição-fórum, que traz à tona trabalhos relacionados a temas até então considerados subalternos. "A capoeira é uma filosofia descolonial", reitera a historiadora, destacando as propostas dos educadores Paulo Lima e Adriana Botelho, que comandarão roda de conversa.

Carolina Ruoso lembra do episódio envolvendo o artista visual carioca Hélio Oiticica, impedido de entrar na Opinião 65, acompanhado por passistas da Mangueira. "Hoje, o museu recebe uma roda de capoeira", comemora

A situação começa a mudar a partir das décadas de 1950 e 60, quando museus deixam de ser templos sagrados ou para contemplação da arte. Essa é a proposta da mostra, que deverá ser realizada todos os anos, por ocasião da Primavera dos Museus, no mês de setembro.

"O objetivo é envolver todos esses atores no debate", assegura Ruoso, informando que serão realizadas rodas de conversas tendo como foco a questão da descolonização do discurso artístico.

Imbuídos desse espírito de desconstruir a visão americana e europeia da narrativa da arte, os artistas e cooperadores da exposição-fórum passeiam por diversas temáticas. Alex Hermes, por exemplo, fotografou sua proposta, que recorre às mascaras, podendo aludir também aos ex-votos e à migração.

As imagens foram colocadas na fachada do museu, fazendo valer sua intervenção de forma ousada e pertinente.

Já a artista visual Sílvia Roque resolveu dar voz à comunidade do Trilho, em Fortaleza, que há vários anos sofre ameaça de despejo devido à especulação imobiliária.

Sua série de desenhos conta as histórias de luta e resistência de moradores como Fátima, Antônio, Josefa e Maria do Carmo.

As fotos foram construídas a partir das narrativa orais dos moradores. "Ela conta a história de um povo", afirma Carolina Ruoso.

Diálogo

Natália Maranhão, coordenadora do Sobrado Dr. José Lourenço e produtora da exposição-fórum, esclarece que a ideia é aproximar a teoria e a prática artística, possibilitando que os visitantes, artistas, pesquisadores, educadores e demais colaboradores das artes possam dialogar. "Os museus são espaços propícios para esses eventos, sendo locais de tensão onde sobressaem-se pontos de vista sobre determinados contextos históricos e artísticos", argumenta.

Nos últimos 40 anos, os museus têm buscado se aproximar de seu entorno, de sua comunidade, possibilitando que as exposições possuam outros impactos fora do ambiente museal, prossegue.

Quanto ao questionamento acerca do conceito "arte descolonial, afirma que não há um consenso. "Para além de um contexto histórico, é preciso considerar que é urgente desconstruir conceitos, descolonizar o pensamento quanto à produção artística e as formas de curadoria e expografia dos objetos e de todas suas ressignificações no Museu".

Para ela, muito do que se faz possui perspectiva descolonial, mas classificar as obras dentro desta nomeação é complexo e fruto de muitas discussões. Como zona de contato, o Sobrado traz mais perguntas que respostas, instigando o visitante a expor seu ponto de vista e tirar suas conclusões.

Mais informações:

Exposição-fórum "Artes Descoloniais". Em cartaz até 30 de setembro, no Museu Sobrado Dr. José Lourenço (R. Major Facundo, 154). Gratuito. Contato: (85) 3101.8826

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