Mostra de cinema

Poéticas de Tarkovsky

12ª edição da Mostra Perfil de Cinema exibe, neste sábado (16), filmes do renomado cineasta russo

De cima para baixo, os filmes "Andrei Rublev" (1966), "Solaris" (1972) e "Stalker" (1979): universos de pessimismo e introspecção com a assinatura de Tarkovsky
00:00 · 15.06.2018 por Diego Barbosa - Repórter

Sensível, introspectivo e filosófico estão entre adjetivos característicos para assinalar o cinema de Andrei Tarkovsky (1932-1986). Com uma linguagem visual apurada, senso estético e técnico aclamados por críticos e apreciadores, o diretor, apesar do pouco que produziu - foram apenas sete longas e três curtas-metragens - conseguiu o feito de gravar seu nome no panteão da sétima arte.

> Importando clássicos 

Um recorte do que compõe a filmografia do artista russo poderá ser conferida neste sábado (16), no Cineteatro São Luiz, com a Mostra Perfil de Cinema. O projeto está em sua 12ª edição e trará, na programação, três obras que marcaram a produção de Tarkovsky: "Andrei Rublev", às 10h; "Solaris", às 14h; e "Stalker", às 17h30.

Selecionados pelo curador do equipamento, Duarte Dias, os filmes devem oferecer ao público um panorama da produção de Tarkovsky, funcionando tanto como introdução aos que não conhecem quanto um momento de digressão para fãs.

Vale ressaltar que é desejo antigo de Duarte dedicar uma edição ao cineasta. "Faz tempo que queria montar uma programação da Mostra que enfocasse os trabalhos do Tarkovsky. Mas houve algumas questões envolvendo direitos autorais e distribuição, que gerou certa demora. Assim que conseguimos resolver essas pendências, anunciamos a atração", justifica.

Coincidentemente, a mostra será exibida no contexto da Copa do Mundo, realizada, neste ano, na Rússia, o que pode alimentar, nos espectadores, um maior desejo de conhecer melhor a cultura e a tradição do país, em diferentes aspectos.

Visionário

Conforme o curador observa, Tarkovsky ultrapassou a fronteira do que é ser artista, configurando-se como lúcido pensador de seu tempo. Sua produção - concentrada no período da Guerra Fria, quando o território russo tornou-se epicentro de ações referentes ao movimento bélico - mostra-se nivelada às questões que atravessaram aquela geração.

Entram em pauta, assim, uma aura de melancolia e desgaste humano, que circunda os filmes do diretor. "Ele soube compreender que a arte - neste caso, a do cinema - é um meio que acontece independentemente das instâncias de poder. Era um livre pensador e, nesse quesito, aproxima-se muito do Bergman, por exemplo", compara Duarte.

Outro aspecto que merece consideração é o quanto a perspectiva do russo contempla os anseios coletivos a partir do humano em sua individualidade, ou seja, vai das macro-realidades para as micro. Nessa travessia, nota-se, diante do mundo de incertezas em que vivia, um forte desejo de transcendência.

"Atribuo a melancolia que cerca suas obras ao contexto de repressão pelo qual passou. A perspectiva para um homem tão sensível era de natural pessimismo diante do que via e isso foi transposto para as telas. Porém, mais do que essa questão, havia uma grande vontade dele de transpor barreiras", percebe Duarte.

Tríade

Dadas as bases do cinema tarkovskiniano, centremos agora nos filmes integrantes da mostra. Iniciando a programação, "Andrei Rublev", lançado em 1966, é uma das obras mais complexas do realizador. Premiado em Cannes com o Fipresci e escrito em parceria com Andrei Konchalovski, conta a história do personagem que lhe dá título, um monge e artista que viveu entre o final do século XIV e as primeiras décadas do século XV.

Jovem e sonhador, ele sai do monastério com outros dois monges, Kirill e Danil, e parte em direção a Moscou. Apesar de saber que a cidade já tinha muitos artistas empregados, a busca por um ofício que contemplasse seu talento como pintor sacro torna-se a motivação da viagem.

É justamente o espaço de tempo entre a saída de Rublev do monastério até seu segundo despertar como artista o foco da película - banida da Rússia pelas autoridades comunistas pelo conteúdo crítico ao regime soviético.

Por sua vez, "Solaris", de 1972, sai do plano terreno e percorre o espaço sideral com o drama que envolve o planetatítulo e o psicólogo Kelvin. Na trama, ele é mandado a uma estação especial para averiguar a situação do astro celeste, há tempos analisado devido ao mistério que circunda seu oceano.

Chegando lá, Kelvin percebe que Solaris é mais que um planeta: é um espelho da alma, o que explica o mergulho psíquico promovido pela obra. O filme é considerado o "anti-2001" de Kubrick, já que Tarkovsky considerava "2001: Uma Odisseia no Espaço" um filme "estéril". À época de seu lançamento, foi vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes.

Finalizando o dia, "Stalker", de 1979, repete o feito da produção anterior e também centra-se no misto de drama e ficção científica. No enredo, a suposta queda de um meteorito em um país não nomeado criou uma área com propriedades curiosas, onde as leis da Física e da Geografia não se aplicam. Chamam-na de Zona. Apenas algumas pessoas têm a habilidade de entrar e sobreviver no local, os "Stalkers". Porém, um cientista e um escritor querem entrar na área e, para isso, contratam um stalker para guiá-lo. Na estrada que percorrem pelo interior do campo, rotas misteriosas aparecem.

Balanço

A Mostra Perfil de Cinema faz parte de uma das políticas do Cineteatro São Luiz de acesso a uma programação que contemple diferentes gêneros e apelos cinematográficos. Diretores como Woody Allen, Peter Jackson e Stanley Kubrick já tiveram obras exibidas na telona do equipamento e o retorno tem sido comemorado por Duarte Dias.

"Acreditamos que, tanto para nós, enquanto curadoria, quanto para os espectadores, a mostra dá oportunidade para que observemos as evoluções e involuções dos artistas com o passar do tempo. Não é à toa que o projeto é um dos que promovem o maior retorno de público", dimensiona.

Nesse mês de junho, além da Mostra, está em cartaz no São Luiz o Festival Varilux de Cinema Francês, com 21 filmes em exibição, e, a partir do dia 26, entra em cena o projeto Gêneros de Cinema, dedicado ao anime.

Programação

Mostra perfil de cinema - TarkoVsky

10h - "Andrei Rublev"

Drama. URSS, Rússia. 1966. 2h30. Legendado
Classificação indicativa: 12 anos

14h - "Solaris"

Ficção Científica. URSS, Rússia. 1972. 2h45. Legendado
Classificação indicativa: 14 anos

17h30 - "Stalker"

Drama, Ficção Científica. URSS, Rússia. 1979. 2h43. Legendado
Classificação indicativa: 12 anos

Mais informações:

Mostra Perfil de Cinema - Tarkovsky. Amanhã (16), a partir das 10h, no Cineteatro São Luiz (R. Major Facundo, 500, Centro). Entrada franca. Contato: (85) 3252.4138

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.