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Pioneiros & Empreendedores

02:08 · 14.02.2012
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O industrial Edson Queiroz é um dos cearenses retratados no livro que deu origem à mostra que entra em cartaz, amanhã, no Espaço Cultural Unifor: 24 personalidades históricas que deram suas contribuições ao
O industrial Edson Queiroz é um dos cearenses retratados no livro que deu origem à mostra que entra em cartaz, amanhã, no Espaço Cultural Unifor: 24 personalidades históricas que deram suas contribuições ao ( )
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O Espaço Cultural Unifor recebe, a partir de amanhã, exposição que destaca brasileiros pioneiros em suas áreas

A compreensão do processo de desenvolvimento do Brasil passa pelo conhecimento da história exitosa de grandes empresários brasileiros. Um olhar, muitas vezes, relegado pelas pesquisas acadêmicas, que costumam se deter mais sobre movimentos sociais coletivos do que personagens individuais. "Já foi notado que os empreendedores brasileiros são mais desconhecidos do que os índios", escreve Jacques Marcovitch no primeiro capítulo de seu livro "Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil".

O trabalho de Marcovitch, professor de Administração e ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP), busca preencher essa lacuna na historiografia econômica e empresarial do Brasil. O projeto de dez anos de pesquisa se consolidou em três livros, seminários e uma mostra homônima itinerante - que chega agora a Fortaleza. A partir de amanhã, no Espaço Cultural Unifor, os cearenses terão a oportunidade de conhecer as trajetórias de 24 empresários que tiveram papel decisivo no desenvolvimento no País.

A mostra vem de uma temporada no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, onde atraiu a atenção de mais de 13 mil visitantes em dois meses. Também curador da exposição, Marcovitch conta que, desde o início da carreira docente, há 40 anos, observa o interesse dos alunos em conhecer trajetórias e lições deixadas pelos pioneiros do desenvolvimento no Brasil. Entretanto, o empreendedorismo na área empresarial, em tempos mais recentes, vinha sendo mais abordado midiaticamente na forma de recomendações para sucesso nos negócios, deixando à margem os exemplos de vida.

O exemplo que todos deixam em comum, segundo o pesquisador, é a dedicação ao trabalho. "Eles, cada um a seu modo, entregaram-se apaixonadamente aos seus negócios". Outro traço dominante desses homens é sua origem modesta.

O tempo histórico demarcado pela pesquisa começa na primeira metade do século XIX e, na maioria dos casos, chega aos dias de hoje, com várias empresas globalizadas. São apresentadas singularidades marcantes de cada empresário em seu contexto histórico, social e econômico. Assim, o visitante verá a transição do Brasil do café para o Brasil moderno representada pelo Barão de Iguape, o patriarca da família Prado, o pioneirismo da grande indústria nacional em Francesco Matarazzo e a consciência social na figura de Jorge Street.

Muitos empreendedores espalharam suas ações por todo o País, muitas vezes com negócios bastante diversificados. Considerado o primeiro empresário brasileiro, o Barão de Mauá ficou mais conhecido por ter construído a primeira estrada de ferro do Brasil, em Petrópolis (RJ), mas foi responsável também pela Companhia de Navegação do Amazonas, pioneira na região Norte. De maneira geral, porém, se concentram em sua maioria no Sul e Sudeste. O Nordeste é representado pelo baiano Luiz Tarquínio e pelo sueco Herman Lundgren, que se instalou em Pernambuco, além dos cearenses Delmiro Gouveia e Edson Queiroz.

A exposição mostra a preocupação com a preservação da memória do legado patrimonial brasileiro. Para tanto, foi realizada uma busca em instituições preservacionistas, públicas e privadas e foram encontradas empresas herdeiras que valorizam o espírito empreendedor e a preservação dessa histórica. A mostra reúne 142 objetos que simbolizam as transformações que ajudaram no progresso do País.

A exposição é dividida em cinco módulos: "O encontro com os pioneiros e seus empreendimentos" - onde será possível ouvir frases dos personagens ao se aproximar deles -, "Os pioneiros e o Brasil", "Os percursos e as ações dos pioneiros", "Diálogos entre os pioneiros" e "Os pioneiros, os empreendimento e nós".

Seminário

Com o tema "O que é o empreendedorismo hoje?", um seminário com Jacques Marcovitch, hoje, às 15h, no Teatro Celina Queiroz, antecede a abertura da mostra. É uma ação do programa educativo da exposição e quer fomentar a construção do empreendedorismo entre os jovens.

Mais informações:
Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil. De 15 de fevereiro a 13 de maio, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). De terça a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, de 10h às 18h. Entrada e estacionamento gratuitos. Contato: (85) 3477.3319


FIQUE POR DENTRO
"Tramando Mundos", por Luiz Hermano

Os visitantes da mostra "Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil" podem aproveitar a ocasião para apreciar o trabalho do artista plástico cearense Luiz Hermano. Sua exposição "Tramando Mundos" também estará em cartaz a partir de amanhã, no Espaço Cultural Unifor Anexo. Em uma revisão de 30 anos de carreira, estão expostas 28 de suas obras mais emblemáticas, entre aquarelas, esculturas e uma grande instalação. O que as une é a reflexão que provocam sobre a formação de mundos e a matemática do universo. Pelo menos quatro fases do artista estão representadas na mostra, que segue até 13 de maio.

ENTREVISTA
Nomes que representam cada região do Brasil

Jacques Marcovitch
Curador da exposição

Como o senhor chegou a esse recorte de 24 nomes?

Foram consideradas quatro regiões brasileiras para formar o universo da pesquisa. Adotou-se a linha de biografar, nesta primeira etapa, personagens representativos destas regiões e que tivessem cumprido seu ciclo.

Como foi o processo de transformar os livros em exposição?

Procurei a melhor competência brasileira na área de museologia, representada pela professora Maria Cristina Bruno. Ela, juntamente com a equipe da Expomus, dirigida por Maria Ignez Mantovani Franco elaborou e montou o projeto.

Havia uma lacuna em relação ao assunto nos estudos de História?

Os homens de negócios dificilmente poderiam obter destaque na historiografia brasileira numa época em que os chamados "dons de espírito" eram vistos como a expressão única e verdadeira da capacidade individual.

Edson Queiroz entre escolhidos

É impossível falar da história econômica do Ceará sem destacar o empresário Edson Queiroz (1925-1982), um dos protagonistas da trilogia escrita pelo professor Jacques Marcovitch e, consequentemente, da exposição em cartaz no Espaço Cultural Unifor. Queiroz faz parte do grupo dos empreendedores contemporâneos, responsáveis pelo salto que relativiza limites geográficos, inaugurando uma nova fase, que se estende até hoje, em que ações se desenraizam e negócios ganham magnitude global.

Seu tino para os negócios dava sinais ainda na juventude - quando, já em Fortaleza, trabalhava em sociedade com o pai, o comerciante Genésio Queiroz.

Em 1941, teve a primeira grande ideia que mudaria sua vida. Nessa época, as importações estavam praticamente suspensas, por conta dos riscos de ataque de submarinos e embarcações nazistas aos navios mercantes brasileiros. Edson Queiroz encontrou uma alternativa: a utilização de pequenas embarcações que o exército alemão preferia ignorar por sua insignificância. A tática deu certo. Vários produtos, como o açúcar pernambucano, eram exclusivos no catálogo de pai e filho na cidade.

Inquieto, com o fim da guerra, diversificou os negócios, apostando na importação de automóveis americanos para venda no Rio de Janeiro, criando a Loteria Estadual do Ceará e um centro comercial na Praça do Ferreira, em Fortaleza. Empreendimentos que permitiram o investimento no grande negócio da sua vida: o comércio de gás de cozinha. Para isso, apostou todas as suas fichas, vendendo sua parte dos demais negócios ao pai.

O empresário mostrou, nesse momento, ter de sobra uma característica essencial a um pioneiro: visão de futuro. Queiroz viu naquele negócio uma oportunidade que, para outros, parecia mais uma barca furada. Era uma época em que o produto só podia ser adquirido através de importação, quase não havia botijões no mercado e tinha que conquistar a preferência das donas de casa, ainda acostumadas ao fogão a lenha. Dedicou-se com afinco à superação das dificuldades, iniciando a venda de fogões e firmando parceria com o único fabricante brasileiro de botijões.

Edson Queiroz deu vários passos depois disso. Criou a Esmaltec, para fabricar os próprios fogões, uma empresa marítima para transporte de suas mercadorias, passou a produzir seus próprios botijões e assim por diante. A Unifor veio da constatação de que o Ceará, precisando tanto de seus filhos mais talentosos, exportava-os. Naquele tempo, entre os anos 60 e 70, havia apenas uma universidade no Ceará. Quem não conseguia ingressar na UFC abandonava os estudos ou migrava para outros estados.

Trajetória

Incansável desde a juventude, quando mantinha uma rotina de estudo e trabalho de 6 horas da manhã às 9 da noite, Queiroz recordou anos mais tarde em entrevista à revista Manchete: "a regra do jogo lá em casa era essa: quem pode se mexer, carrega pedra". A vontade de trabalhar não diminuiu com o sucesso nos negócios. Pelo contrário.

Marcovitch lembra que "há uma frase dele que traduz uma constante disponibilidade para o trabalho: ´Estou sempre à disposição, 24 horas por dia, seja para o que for´". Foi assim nos ramos simultâneos a que se dedicou. Ao falecer em um acidente aéreo, em 1982, controlava 24 empresas e empregava diretamente 10.312 trabalhadores. "A influência de Queiroz alcançava um público maior ainda, graças ao Sistema Verdes Mares de jornais, rádio e televisão. E, na base de tudo, a distribuição gás de cozinha, atividade da qual ele foi o grande pioneiro no Nordeste".

Um legado que continua em expansão com sua viúva, Yolanda Queiroz, e herdeiros. "Os números seguiram crescendo após sua morte. Considerando apenas o negócio do gás, no início do atual milênio, o Grupo Edson Queiroz controlava uma rede de mais de seis mil representantes exclusivos e 50 filais de distribuição, atingindo 40 milhões de brasileiros em 22 estados".

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