Circo com filosofia

Picadeiro recriado

Artistas do circo experimental rompem a lona dos circos tradicionais e trazem em suas narrativas até questionamentos filosóficos

00:00 · 05.09.2018
Image-0-Artigo-2448791-1
Circo enquanto arte capaz de se reinventar através de diferentes técnicas e linguagens ( Foto: VIRGINIA PINHO )

Desde sua origem, o circo traz consigo a heterogeneidade. É uma mistura de linguagens. Teatro, música, dança: tudo em um único lugar. Ainda que diversa, é uma arte que se fez tradição, com recorrência de elementos.

Mas há que rompa com a tradição, evocando essa natureza múltipla - o circo experimental. Essa nova estrutura não vem para tomar lugar do circo clássico. Ela funciona mais como uma espécie de extensão. "O novo termo vem de tudo aquilo em que os artistas não se sentem contemplados com a fórmula tradicional", explica Maurício Rodrigues, ator e palhaço.

Maurício estuda a linguagem do circo no Co-Laboratório em Artes Circenses (Ceará) e a arte da palhaçaria na Escola Livre de Palhaços (Eslipa) no Rio de Janeiro. Ele apresenta nesta quarta-feira (5), às 20h, seu número "O Trapezista", na programação dedicada ao circo experimental na Temporada de Arte Cearense (TAC) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC).

Tradição

Para entender melhor o de circo experimental é voltar ao significado circo tradicional. Sâmia Bittencourt, diretora da Cia. Circo Lúdico Experimental, grupo que trabalha essencialmente com o circo tradicional define o estilo. "O circo tradicional é passado de geração em geração. É feito por pessoas que aprenderam as técnicas debaixo da lona", revela a artista.

"O espetáculo tradicional tem um foco maior na virtuosidade, na dificuldade dos truques e tenta criar uma tensão e uma grande expectativa no público", conceitua Alex Albuquerque, artista de circo contemporâneo que se apresentou em julho na TAC.

Há três princípios que diferenciam o tradicional do circo novo, são eles: habilidade (técnicas), risco (números perigosos como: trapezista ou globo da morte) e o encanto (performance). Tudo isso em busca de entreter o público. Com o advento das escolas de circo, que chegaram ao Brasil na década de 1970, outras pessoas começaram a ter acesso à arte circense e, cada vez mais, artistas fora das famílias tradicionais começaram a adentrar no mundo circense.

No formato clássico, o circo traz número atrás de número, sem necessariamente chegar ao final com uma narrativa linear, que se complementa. Até a inserção do palhaço foi uma maneira encontrada para distrair a plateia enquanto a estrutura para a próxima atração era montada. A técnica era chamada de Reprise.

Contemporâneo

"O circo contemporâneo não precisa necessariamente de uma lona ou de um picadeiro. Ele tenta trazer uma caracterização maior, apelando mais para a estética e a criação de personagem ou narrativa, como se o número ou o espetáculo contasse uma historia", pontua Alex Albuquerque, se referindo a iniciativas que priorizam o lado comercial .

Para Maurício Rodrigues, "os números mais experimentais não tem a estética como ponto principal. Não estamos preocupados com o encanto, ou a exposição do risco ou a habilidade. Estamos preocupados com questões filosóficas, culturais".

O experimental rompe com a lona e os espetáculos podem tanto acontecer em diversos espaços, incluindo "palcos" das artes cênicas, como os teatros e as ruas.

Mas não é apenas o local que define o circo experimental. O rompimento com as funções ditas "tradicionais" do circo, como o palhaço, apenas feito por homens, pode facilmente ser feito por uma mulher no estilo contemporâneo. "O rompimento com o machismo, por si só, já causa um movimento de circo experimental", conclui Maurício.

Mais informações

Espetáculo circense "O Trapezista". Nesta quarta-feira (5) e nos dias 12, 19 e 26 de setembro, às 20h. No Teatro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Ingressos: R$ 10 (inteira). Classificação livre. Contato: (85) 3488.8600

FIQUE POR DENTRO

Circo experimental no Dragão

O circo experimental ganhou espaço no edital 2018/2019 da Temporada de Arte Cearense (TAC), no Dragão do Mar. Neste mês Maurício Rodrigues apresenta seu número solo, "O Trapezista". O ator traz Batuta, um palhaço, que realiza todas as fórmulas tradicionais do circo, como o trapézio, o arremesso de facas e a hipnose. Com 15 minutos de duração, o número é um recorte de um espetáculo maior criado pelo artista em 2016. Na ocasião haverá também a apresentação do espetáculo "De Conto em Conto", de Tatiana Soares Gonçalves. "A programação de circo não se resume apenas ao experimental. Acontece todas as quartas-feiras e é uma programação que vai desde o circo tradicional até o experimental, que é uma forma mais contemporânea, que tem uma linguagem híbrida", ressalta Camila Rodrigues, gerente de Programação do Dragão do Mar. A performance fica em cartaz todas as quartas-feiras de setembro. Desde maio já passaram pelo Teatro do Dragão do Mar: "Solamente", de Alysson Lemos; "Barro Estrela", de Gabriela Jardim; "O Fim do Túnel", de Alex Albuquerque e David Santos, com "Grand Finale", no mês de agosto.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.