Música

Pelo direito de delirar

O paraense Saulo Duarte lança o disco "Avante Delírio", que inaugura nova fase de sua carreira solo

00:00 · 12.09.2018 por Felipe Gurgel - Repórter
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Saulo Duarte: "quis gravar o disco todo com violão", ressalta o músico ( Foto: Paola Alfamor )

Para o público mais antenado ao novo cenário da MPB, pode soar esquisita a notícia de que, agora, o paraense Saulo Duarte lança seu primeiro disco solo. "Avante Delírio" está disponível nas plataformas digitais e sucede os três álbuns lançados por Saulo Duarte & a Unidade (o último, o bom "Cine Ruptura", saiu em meados de 2016).

A formação com a Unidade não deixa de ser uma carreira solo. No entanto, a força dos músicos cearenses e paulistas, na identidade do grupo, motivou Saulo a mexer num baú de canções feitas há cinco, seis anos, para pensar o novo trabalho. Uma pausa (não anunciada oficialmente) nas atividades da banda também foi outro ponto de partida que inspirou o lançamento de "Avante Delírio".

O single "Flor do Sonho" (parceria entre ele e o cearense Daniel Medina) tinha saído em julho passado, com um lyric video no YouTube. Antes, um ano atrás, Saulo lançou o primeiro aperitivo do disco solo, através do clipe da canção "O Lance".

Em entrevista por telefone, ele observa como decidiu lançar um trabalho para além da carreira com a Unidade. "Parte de algumas questões. A primeira é do grupo mesmo. A gente cumpriu um ciclo de três discos e oito anos tocando juntos. Daí todo mundo sentiu uma necessidade de expansão. Ficamos concentrados na Unidade durante muito tempo, era a 'gig' que a gente sempre priorizava fazer", destaca o músico.

Saulo coloca que a banda gravou o último disco pelo programa Natura Musical, faturou o Prêmio da Música Brasileira em 2017 (na categoria de melhor grupo de "Canção Popular") e ainda, para pontuar o ciclo, integrantes como o baterista Beto Gibbs foram embora de São Paulo (onde a maioria da formação reside até hoje).

"O Beto voltou a morar em Fortaleza, quis trabalhar com produção. O (tecladista) João Leão lançou disco solo ("Bílis Negra", em abril passado). O (percussionista) Igor Caracas também vai lançar. Então foi uma consequência fazer o meu", expõe Saulo.

Ele situa que "o desejo principal era fazer um disco para além da sonoridade que a gente fazia com a Unidade. Não tinha isso com urgência, mas pintou durante esse intervalo. A galera mesmo deu esse espaço", resume o paraense.

Experimentação

Das 11 faixas de "Avante Delírio", Saulo conta que somente a quarta, "Não existe resposta para Eu te amo", tinha sido experimentada ao lado da Unidade. O restante do repertório partiu de uma "seleção natural" dentre as composições que ele criava e não cabia para a ampla formação de músicos.

"Eu devia ter umas 20 músicas. Discuti uma seleção, que desse liga, com o Curumin e o Zé Nigro", identifica Saulo. O músico assina a produção do novo disco ao lado dos dois parceiros. Curumin (também produtor de "Cine Ruptura"), na bateria e no MPC, e Zé Nigro, no baixo, ainda são a base do trio ("ou, no máximo, um quarteto", adianta Saulo) que apresentará o repertório nos shows ao vivo.

Sonoridade

"Eu quis muito gravar o disco todo com o violão, porque é meu primeiro instrumento e amo essa sonoridade. Com toda a humildade, mas queria trazer o som que o Jorge Ben evocou (a partir do influente "Tábua de Esmeralda", 1974) com o violão de nylon e a banda atrás. Ao vivo, é difícil captar um bom som de violão, então vou tentar traduzir tudo pra guitarra", vislumbra Saulo.

Dentre as temáticas do novo álbum, o paraense observa como o recado político (atento ao cenário extremista atual) e a necessidade de seguir fazendo arte caminham juntos. Em "Cine Ruptura", canções como "Quem quer que seja" e "Uma música" se equilibravam entre o discurso contundente e um apelo estético envolvente.

Para "Avante Delírio", Saulo Duarte situa que o disco sairá em vinil. E o lado B do LP deve reunir a maioria das canções com essa carga política. "O (título) 'Avante Delírio' (que também batiza a última faixa) já é uma manifestação política em meio a tudo isso. É um 'avante' à música, à poesia", compara.

Fique por dentro

Compositor soa minimalista

A abertura com "Rebuliço" já revela que, em "Avante Delírio", Saulo Duarte tenta equilibrar o balanço de suas canções e um minimalismo que ajude a expressar mais sua forma de compor. É como se não faltassem os elementos (o ritmo dançante, as boas melodias, a percussão envolvente) que ganharam destaque na formação com a Unidade, mas sem excessos. O repertório apresenta canções que quebram o ritmo dessa fórmula, a exemplo da "torta" "As luzes da cidade"; e as que mergulham nas influências declaradas de Saulo, como a ótima "Não existe resposta para eu te amo" e seu pé na estética clássica de Jorge Ben Jor. A versão "festiva" de Saulo Duarte, sumida da concepção de "Cine Ruptura", retorna com a carnavalesca "Se esqueça não". A bela balada de clima tribal "Estrela d'água" ilustra como o compositor cearense tem um apelo plural, para além de um repertório festivo. Por fim, a faixa-título encerra a sequência de 11 canções, trazendo uma das mais belas melodias do disco e um tom reflexivo, sobre a necessidade de se criar poesia e beleza em tempos de tanto descaso com a cultura e com a própria vida.

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