MÚSICA

Pela poética de Canudos

Em show no Mercado dos Pinhões, Pingo de Fortaleza lança seu novo disco; o álbum faz uma reedição de "Centauros e Canudos" (1986)

Pingo: três décadas depois de sua estreia em disco, retorno à temática da Guerra de Canudos
00:00 · 14.07.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

O cantor e compositor Pingo de Fortaleza respondia só por "Pingo", há 32 anos, quando lançou seu primeiro disco. "Centauros e Canudos" era um álbum temático, versando sobre a questão do conflito da comunidade de Canudos (BA, que resistiu entre 1896 e 1897, e eternizou a figura do líder religioso cearense Antônio Conselheiro).

Pingo recorda que lançou o disco sem muita expectativa. No entanto, a partir do lançamento, ele foi chamado para participar de outros projetos relacionados com Canudos, a exemplo da Missa pelos Mártires da comunidade, realizada na Bahia.

"Quando cheguei lá na missa, no cartaz tinha escrito 'Pingo de Fortaleza', e de fato eu gostei daquilo. Quando voltei, tinha uma matéria na imprensa local que já me tratava dessa forma", lembra o músico cearense.

Ele agora lança uma reedição do material. Em formato de CD e LP, "Centauros e Canudos Redivivo" recria a sonoridade do álbum original. O show de lançamento acontece neste sábado (14), às 19h, no Mercado dos Pinhões (Centro). Além da apresentação, haverá prosa e uma audição do LP. A entrada é franca.

Pingo de Fortaleza regravou todas as vozes do repertório de nove faixas dos anos 80. E ainda acrescentou novas composições: a suíte "Centauros e Canudos Redivivo" (parceria com Augusto Moita, com arranjos de Tarcísio Lima), mais as duas faixas bônus "Canudos" (gravada em 1996, composição de Marinho Júnior) e a "3ª Missa pelos Mártires de Canudos" (gravada em 1988).

Pingo observa que cada faixa traz um olhar diferente sobre o conflito de Canudos. "Esse tema sempre foi algo recorrente. As pessoas consideram o disco muito complexo, com arranjos clássicos", aponta o cearense. Em 1986, "Centauros e Canudos" foi gravado por gente como o violoncelista Jacques Morelenbaum e outros músicos renomados do cenário da música brasileira, como Paulo Russo, João Daltro e Celso Woltzernlogel.

"Sempre lembrava desse disco com muito carinho, e achava que poderia revisitá-lo. As pessoas me pediam, e eu não tinha mais. Daí achei uma fita de rolo, em 2016, uma fita envelhecida, quebrada, mas recuperei", situa Pingo de Fortaleza.

O compositor cantou todas as músicas de novo, inseriu coros, e o produtor Airton Montezuma fez um tratamento acústico para recuperar a expressão dos timbres dos instrumentos gravados, como o violoncelo e a flauta. O canto foi refeito, segundo Pingo, porque em 86 ele gravou "de uma forma muito imatura ainda". "Não tinha a técnica de hoje", reforça.

Paralelo

Questionado se hoje, de alguma forma, associaria a repressão à comunidade alternativa de Canudos ao conservadorismo da política contemporânea, Pingo faz um paralelo entre os períodos. O artista identifica a "disparidade social" e a "violência" como duas marcas permanentes.

"A realidade de Canudos ainda representa o momento atual, infelizmente. Outras questões são colocadas: a convivência comunitária, por exemplo. A necessidade de experiências mais coletivas. Por último, é possível lembrar de Canudos pra evitar o uso da violência de todas as formas", reflete Pingo de Fortaleza.

Armorial

A referência estética da sonoridade do disco cria uma conexão com o movimento armorial (expressão cultural que reconhece o erudito na estética popular; celebrada por intelectuais como o paraibano Ariano Suassuna). Pingo situa que não pensava nesses termos quando gravou o disco da primeira vez, mas já pesquisava a música nordestina e buscava arranjos clássicos.

"Foi em função desse disco que comecei a ser chamado de 'cantor regional', mas já tinha experiência com o pop, o rock", identifica.

Indagado se ele costuma lidar com muito "estranhamento" do público, por conta da escolha estética distinta das fórmulas do pop e gêneros mais palatáveis, Pingo de Fortaleza reconhece que o repertório do disco requer, sim, um pouco mais de atenção do ouvinte.

"Não é como (o formato) canção, como o pop, como o próprio maracatu (Pingo canta e compõe com o grupo Maracatu Solar, liderado por Descartes Gadelha). Mas sempre existiu um grupo de pessoas que acompanha esse trabalho de modo atencioso. É um disco muito querido", alinha.

Costume

Pingo de Fortaleza aponta que essa impressão é pela falta de costume por uma "experimentação mais heterogênea da nossa experiência musical mesmo. Levei muito tempo, eu mesmo, pra ouvir esse disco de novo. Lembrava da dificuldade de gravar, de algumas questões técnicas do disco. Fui gostar dele de novo, muitos anos depois", recapitula o músico cearense.

"Centauros e Canudos" em sua versão original reúne 12 faixas de Pingo, assinadas ao lado dos parceiros Guaracy Rodrigues, Oswald Barroso, Rosemberg Cariry, Eurico Bivar, Leite Júnior e Diogo Fontenelle. A nova versão traz um livreto junto com o CD, e o LP inclui o mesmo material, além do encarte para o formato (em vinil).

Mais informações:

Show de lançamento do disco "Centauros e Canudos Redivivo", de Pingo de Fortaleza (CE). 
Neste sábado (14), às 19h, no Mercado dos Pinhões (Centro). Além da apresentação, haverá prosa e uma audição do LP. Entrada franca.

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