Pintura de Leonilson

Peixe

00:00 · 07.12.2013
José Leonilson Bezerra Dias nasceu na cidade de Fortaleza, em 1 de março de 1957, havendo falecido na cidade de São Paulo, aos 28 de maio de 1993. Dedicou-se, mesmo tão breve a vida, de modo intenso à pintura, ao desenho e à escultura. A harmonia entre as formas e a escolha das cores constitui uma de suas singularidades. Os elementos do cotidiano são transfigurados pelo lúdico

Poemas de Dimas Carvalho

XIX

Onde andarás, secreta criatura
Feita de mel, de harpas, de saliva?
O vento foi que te esculpiu a esquiva
Forma de aérea e leve tessitura.
Onde, secreta voz, que me murmuras
Os mistérios da noite e da água-viva?
Se sempre a sombra minha foi cativa
Das rotas vãs que já não mais procuras...
Onde te escondes, em que fonte pura,
A tua face poderosa ativa
As salobras marés da mente altiva
E as tenebrosas luas da amargura?
Nessa busca sem fim, nessa viagem,
A bússola que me guia é a tua imagem.

XVII

Brolham as flores minerais das ruas
Nos edifícios, pontes, nos segredos
Que o vento conta pras paredes nuas,
Dentro das quais germinam cem mil medos.
Florescem os adubos mais azedos
De que se nutrem os punhais da Lua;
E eis que eu vejo brotar do chão os dedos
Da ancestral raiz da terra crua.
Sombras amargas, pétreas, dolorosas,
Elaboradas nessas solidões;
Pedras sinistras, pedras tenebrosas,
Que ressoam nos ocos dos porões.
Na hora solene, augusta, majestosa,
Floresce o caule do Silêncio, rosa.

XX

Esta mangueira no quintal plantada
Por mão desconhecida, em outras eras,
Já residia aí quando o meu nada
Habitava talvez noutras esferas.
Para ela, quem sou? As passaradas
Que nos seus galhos pousam primaveras
De cores e de sons, não são deveras
Mais que o ruído das minhas passadas?
Para ela, eu existo? Ela me vê?
Percebe a mão no caule pedregoso?
Ou serei eu um ser misterioso
Que com horror ela contempla e lê?
Talvez eu seja na percepção
Dela, o que foi pra mim aquela mão.

XVIII

Memórias do espectro seduzido
Pela magia doce do luar,
Pelo canto suave, milenar,
Que o vento toca junto ao meu ouvido.
E as imagens secretas, construídas
Por uma chuva lenta, devagar;
Os seus corpos brumosos vêm do Mar
Onde eu vivi as minhas nove vidas.
E tu, Musa ancestral, que me convidas
Para uma ceia arcaica, singular,
Tu que me levas para o teu altar
E concelebras nossas despedidas.
Os teus olhos de Górgona serena
Um dia calarão as minhas penas.

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