Teatro

Peça ´O Duelo´ abre mão dos formatos tradicionais de palco

00:54 · 01.08.2013
Cia. Mundana encena, no Theatro José de Alencar, uma adaptação de novela do russo Antón Tchékhov

Ainda contagiados pela troca afetiva e cultural vivenciada durante os 45 dias em que passaram no sertão cearense, os integrantes da Mundana Companhia receberam a imprensa com muita música e animação.

As atrizes Camila Pitanga e Carol Badra, em cena de "O Duelo". Temporada até 11 de agosto, no TJA

O grupo (que conta com a global Camila Pitanga) vai apresentar, a partir de amanhã, o espetáculo "O Duelo" - baseado na novela homônima do escritor e dramaturgo russo Antón Tchékhov (1860 - 1904). Os artistas mostraram uma prévia da peça, num ensaio aberto, ontem, no Theatro José de Alencar (TJA). No local, O grupo inicia amanhã uma temporada que se estenderá até o dia 11.

Ao som de violão e flauta, Camila Pitanga soltou a voz. "Pode ser que o amor, assim como o teatro, não saiba aonde ir...", brincou. Acompanhada pelos integrantes da companhia paulista, a atriz falou com entusiasmo sobre a sua experiência, considerada "a mais vertiginosa no teatro".

"Estou envolvida apenas com o teatro", disse satisfeita Camila Pitanga, que interpreta a personagem Nadiejda, nome que em russo significa "esperança". O grupo realizou apresentações e oficinas teatrais nas cidades de Arneiroz, Lavras da Mangabeira e Iracema. O teatro será adaptado para receber os saltimbancos. Com a concepção de obra aberta, levada ao pé da letra, os artistas tanto influenciam quanto recebem influência por onde passam. O espetáculo começou a ser construído em São Paulo, em março do ano passado. De Fortaleza, a peça segue para a Serra da Capivara, no Piauí; seguida de João Pessoa (PB), Brasília e São Paulo.

Os oito atores em cena convidam o público a fazer um verdadeiro passeio pela história, mas sem perder a conexão com o presente, uma vez que existe relação, sim, entre o universo da novela de Tchékhov, que se passa na Rússia tsarista de meados do século XIX tanto como no sertão nordestino, no Brasil, no século XXI. O elo não está apenas na geografia do Cáucaso, região entre os mares Negro e Cáspio, considerada parte da fronteira natural entre a Europa e a Ásia. Ali, para onde Ivan Laiévski fugiu com a amante, Nadiejda. O elo também reside na alma humana. Daí a atualidade da obra, escrita em 1891, que mostra conflitos entre civilizações e ideologias.

Projeto

O "pai do projeto" é o ator e diretor Aury Porto, um cearense de Lavras da Mangabeira. Oriundo do Teatro Oficina, conseguiu convencer José Celso Martinez Corrêa a montar "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Em 2007, Porto criou a Companhia Mundana, com uma proposta mais aberta de fazer teatro. A ideia de encenar "O Duelo" surgiu em 2011, quando apresentou a peça "O Idiota", adaptação do romance de Fiódor Dostoievski (1821 - 1881), no Rio de Janeiro, e encontrou Camila. "Ela demonstrou interesse" conta, lembrando que o formato do espetáculo não comporta sua exibição em palco de arena ou italiano.

A decisão veio em março de 2012, após o "sim" de Camila Pitanga, atriz cujo último trabalho em TV foi na novela "Lado a Lado", da Rede Globo. "Agora sou mundana", diz, festejando o envolvimento total com o palco, afastando qualquer projeto televisivo até o fim do ano. O próximo passo foi encontrar outros aventureiros, totalizando 20 pessoas, entre atores e produção.

"O teatro proporciona uma relação", observa o ator, completando que é um espaço de união de forças com o objetivo de criar uma obra juntos. As decisões são coletivas, afirma a atriz e diretora Geogette Fadel, resumindo ser essa a gênese do processo, no qual todos têm vez e voz no momento da construção do espetáculo que mescla diversas linguagens artísticas, como música e dança.

Geogette chama a atenção para a importância do surgimento dos coletivos, citando que, nas últimas décadas, foram criados diversos deles, sobretudo em São Paulo. "É emocionante trabalhar de forma coletiva". Para Aury Porto é preciso fugir dos preceitos individualistas, afirmando que o grupo tornou-se indivíduo, indo além do teatro.

Geogette Fadel destaca a importância da escolha do texto que fala de "amor e possui personagens inteligentes, verdadeiros", sendo essa a ligação com o mundo real. Sobre o papel do diretor, concordam que seria mais fácil trabalhar com uma ideia já pronta e apenas coordenar. Mas a companhia optou pelo caminho mais difícil. "É um espetáculo complexo", diz, a diretora, afirmando assim como é particular a situação social, política e cultural do País nesse momento. O Brasil não pode se eximir das discussões sérias, pontua o diretor Pascoal da Conceição que diz ser o embaixador do teatro brasileiro. "Estamos dialogando com a nossa atualidade", completa, advertindo para o surgimento de novas possibilidades que são apontadas.

Diversidade

A arte pode ser também uma forma de luta. Camila Pitanga fala sobre as diversidades culturais encontradas em diferentes regiões do Brasil. Fazendo questão de ressaltar que é formada em teoria teatral, a atriz confessa que está misturando a experiência carioca com as demais que vem acumulando durante essa "peregrinação". Fala sobre a experiência das oficinas realizadas nas cidades por onde os saltimbanco passaram, como forma de esperança. "Estou muito feliz pela escolha de fazer teatro", reitera.

Os atores lamentam que as cidades não possuam teatros ou espaços dedicados às atividades culturais. "Não se trata de fazer papel de colonizador", desabafa Geogette Fadel, fazendo alusão ao respeito às manifestações culturais das cidades visitadas. "O mais importante é o encontro", diz.

O ator Fredy Allan Galembeck esclarece que não tem teatro, na forma de estrutura física, mas existe teatro dentro das pessoas. "Os garotos têm o lúdico dentro de si", observa, ao se referir às oficinas realizadas nas cidades de Arneiroz, Iracema e Lavras. Pascoal da Conceição lembra que, algumas cidades, "fomos recebidos como colonizadores" com os gestores justificando ser "nossa cultura muito pobre".

Camila Pitanga conta que muitos garotos não sabiam contar suas histórias. Receberam como tarefa de casa, conversar com as mães. No dia seguinte, retornaram com histórias lindas. "E um duelo entre colonização e interação cultural", reconhece Pascoal da Conceição. No processo de elaboração do espetáculo, sempre em construção, entraram músicas nordestinas que vão das mais tradicionais, passando pelo brega, contam. Uma preocupação dos artistas é quanto às promessas feitas pelas autoridades das cidades de Iracema, Lavras da Mangabeira e Arneiroz sobre a construção de espaços culturais.

Em Iracema, ficou a promessa da reabertura do centro cultural, assim como em Lavras da Mangabeira, além da construção de um teatro. Em Iracema, alguns jovens criaram o grupo de teatro "Adoniram". Em Arneiroz, onde os artistas se apresentaram em dois assentamentos, Mucuim I e II, a banda de música estava desativada. O assentamento conta com grupo de teatro e foi lá onde aconteceu a estreia de "O Duelo", em noite de lua. "Não somos ingênuos. Estamos aqui para divulgar nosso espetáculo e vocês para escrever matérias", disse Camila Pitanga, solicitando que a imprensa acompanhe se as promessas serão cumpridas pelas autoridades realmente. Comparou as atividades a sementes que foram jogadas, mas que devem ser germinadas.

SAIBA MAIS

"O Duelo" - Espetáculo da Mundana Companhia. A temporada em Fortaleza começa na sexta, 2, prosseguindo até 11 de agosto, sempre às quintas, sextas, sábados e domingos. Às 19 horas, no Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525 - Centro). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Contatos: (85) 3101-2583/ TJA ou pelo site oduelo.wordpress.com

A novela - A novela "O Duelo", de Antón Tchékhov, é ambientada numa pequena cidade do interior da Rússia. Ali, nada parece acontecer de extraordinário. A chega de um casal irá mexer com o cotidiano da cidade. Ele, um funcionário público, mais dado ao ócio do que ao trabalho; ela, uma mulher casada. Completam a história um zoólogo de ideias radicais e um diácono amante do riso. Um dos marcos da novela é a narrativa, que muda de ponto de vista em seu decorrer.

IRACEMA SALES
REPÓRTER

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