Literatura

Para não entender Campos de Carvalho

Chega às livrarias a nova edição de "A Chuva Imóvel", terceiro e mais denso romance do escritor mineiro

00:00 · 15.09.2018 por Dellano Rios - Editor de área
Campos de Carvalho
O escritor Campos de Carvalho, em ilustração de Uendell Rocha, para coleção da editora Autêntica

A realidade tem seus árbitros. À primeira infração do que consideram fora do tom, eles saltam com dedo em riste, acusando-a de ser mais estranha do que a ficção ou, ainda, do que as invenções dos poetas.

Campos de Carvalho é um caso raro, em que a infração da realidade não é um episódio (um 11 de setembro, por exemplo, com chamas e desgraças suficientes para fazer inveja a Hollywood). Nascido em 1916 e morto há duas décadas, em Uberaba (MG), Walter Campos de Carvalho até teve um carreira convencional. Formou-se em Direito, foi procurador do Estado de São Paulo, viveu no Rio de Janeiro com a esposa, Lígia Rosa de Carvalho, que o acompanhou em algumas viagens pelo País e para fora dele. O que fez de Campos de Carvalho estranho foram os livros que escreveu. Eles são estranhos não apenas em si, mas também ao ambiente literário da época em que foram lançados, entre 1956 e 1964.

"A Chuva Imóvel", romance que Campos de Carvalho publicou há 55 anos e que acaba de ganhar uma nova edição, pela mineira Autêntica, dá testemunho da estranheza de seu autor. Como os outros três romances que compõem o cânone do escritor ("A Lua vem da Ásia", de 1956; "Vaca de Nariz Sutil", de 1961; e "O Púcaro Búlgaro", de 1964), este também escapa ao realismo e de certa ficção que, mesmo sendo fantasiosa, é demasiado presa à lógica.

Senhas

Quando se escreve sobre Campos de Carvalho, quase sempre o autor vai lembrar das semelhanças com o surrealismo. O escritor, aliás, se sentia confortável para dizer que todos os seus "livros foram surrealistas". Campos de Carvalho disse isso numa entrevista para Sérgio Cohn e Antonio Prata, em 1997, publicada na revista Azougue. Na ocasião, deu outras senhas para melhor ler sua obra (entendê-la, importante salientar, não é essencial). Reconheceu a influência da cena francesa do Surrealismo, cujos autores leu bastante. Declarou sua preferência por Fellini e Bergman, cineastas que também se valeram do sonho em suas obras. Testemunhou seu apreço à liberdade, declarando-se "anarquista". Afirmou também o óbvio: que o humor era importante em sua literatura e que ele o tinha em alta conta.

Na contramão do (auto)biografismo da literatura contemporânea, Campos de Carvalho ainda disse aos interlocutores que era "tudo inventado" em seus livros; e que, no fim, nenhum de seus personagens se pareciam com ele: "sou louco à minha maneira".

Todos estes elementos são facilmente reconhecíveis no quarteto de romances de Campos de Carvalho - e que correspondem à quase totalidade de sua obra. (Eles são o centro da coleção da editora Autêntica, que vai deixar de fora dois livros anteriores, mais tarde rejeitados pelo autor; mas promete reunir inéditos e dispersos em um quinto volume). "A Chuva Imóvel" guarda uma particularidade - é um estranho entre os estranhos, portanto. É mais sério e, ainda que dotado de humor, mais sombrio e pessimista do que os demais. "Trágico" - foi a palavra que o autor usou para descrever o romance de 1963 naquela entrevista.

O peso

"A Chuva Imóvel" traz uma história construída a partir de fragmentos. Escrito em primeira pessoa, o romance apresenta o conjunto de divagações de André Medeiros - que vive uma relação meio incestuosa com a irmã gêmea, Andréa, e se debate contra o mundo e suas contradições.

Ler o romance é ser atingido por uma torrente filosófica, densa e pessimista, pesada como uma chuva cerrada que não cessa. Nem sempre o leitor entende totalmente o que se passa ou mesmo o que o protagonista/narrador está dizendo. O que não quer dizer que ele vá se perder ou mesmo largar o livro.

Campos de Carvalho garantia que não reescrevia nada. Se é verdade ou automitificação, é impossível dizer, mas as frases e os parágrafos do escritor são precisos. Eles convidam à apreciação e, também, à divagação. São dotados de um tipo de beleza raro na prosa e mais corrente na poesia. Em que beleza não exige compreensão.

No entanto, Campos de Carvalho não é autor de uma "prosa poética". Está mais próximo de pensadores densos, com um Walter Benjamin, por exemplo, que fascinam leitores antes mesmos serem capazes de compreendê-los. E são autores que, via de regra, exigem leitores dispostos a estudá-los e a voltar a eles.

Ou talvez não seja nada disso e que o melhor seja confiar no que o próprio escritor disse de si, mesmo que nunca possamos saber o quão sincero ele foi, ao dizer que era mesmo louco, mas a seu modo único.

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