Entrevista com Lilia Moritz Schwarcz

Para compreender a escravidão no plural

A partir de dicionário sobre a escravidão, historiadora fala das relações entre o passado e o presente

00:00 · 12.09.2018 por Dellano Rios - Editor de Área
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Lilia Moritz Schwarcz: "O ativismo político provoca a academia" ( Foto: Renato Parada )

Alberto da Costa e Silva começa o prefácio fazendo um elogio às pesquisas em torno escravidão nas Américas e ao tráfico transatlântico de escravizados, realizadas nos últimos 50 anos. O que explica essa virada na forma como os historiadores olharam para essas temáticas?

Há um historiador francês, o Georges Duby (1919-1996), que diz que a história é filha de seu tempo. Os historiadores e as suas pesquisas não se dão no vazio. As questões se dão a partir de seu próprio contexto. Entre o final dos 1970 e começo dos anos 1980, tivemos no Brasil uma discussão muito forte em torno dos direitos civis. Nesse momento, estouram os movimentos feminista, LGBT e também o movimento negro. Há aí um diálogo muito interessante entre o ativismo e academia. O ativismo provoca a academia, que antes refletia pouco sobre a situação dos escravizados.

Que temas ganham maior relevo a partir deste momento?

Antes, refletia-se pouco sobre os quilombos, por exemplo. Existiu uma gama imensa de ativismo e resistência. Também, animada por esse movimento, a historiografia passou a pensar escravidão no plural - em português não fica tão bem, mas hoje se pensa em escravidões. A escravidão do Norte, na Amazônia, foi muito diferente da escravidão do Nordeste, da cana-de-açúcar; e esta da que se via no Sudeste, com o café; que também era diferente da região Sul, com a charqueada. Também passamos a falar não de uma África, mas de Áfricas, mostrando como o grande fluxo de pessoas veio não só de (onde hoje corresponde ao território de) Ruanda. Haviam portos na África Ocidental e Oriental, e mesmo assim, desses portos, partiam pessoas de muitas nações distintas.

Como se deu o estabelecimento dos temas presentes no livro? Vocês compilaram e distribuíram as contribuições dos pesquisadores ou fizeram encomendas específicas?

Logo depois que eu e a Heloisa Murgel Starling fizemos "Brasil: uma biografia" (2015), o Flávio dos Santos Gomes me ligou e disse que tinha ficado encantado com livro, que "a academia precisa sair do seu porto seguro". "Temos que fazer um livro sobre história da escravidão", ele disse. Nós fizemos um projeto e chegamos até a delimitar os capítulos. Mas acabamos optando por pegar esse projeto e transformá-lo num dicionário, com os próprios autores escrevendo sobre os temas com que trabalham. Sabíamos o que pedir e fizemos as encomendas. Queríamos que se falasse dos temas de diferentes perspectivas. Sobre o abolicionismo, por exemplo, ele aparece tanto de um ponto de vista mais constitucional, como outro mais ligado à resistência. Foi muito interessante, porque tivemos uma ótima aceitação. Só uma pessoa declinou do convite, e porque estava com um problema de agenda. Pedimos os textos em junho de 2017, com entrega até o final de novembro. Combinamos entregar à editora até dezembro pra sair em maio. Os acadêmicos não estão acostumados a receber encomendas, com delimitação de tamanho, quantidade de fontes. Mas todos respeitaram e aceitaram a nossa edição. É um livro coletivo, na minha concepção. Esses professores todos compreenderam a ideia e a abraçaram.

Pela ideia de alguns verbetes do livro, tem-se uma noção clara de que a abolição não foi nada simples e a situação de quem era escravizado continuou difícil. Porque essa mítica em torno de episódios da abolição ainda mantém certo verniz de altivez, de heroísmo, passados 130 anos?

É preciso dizer que não temos a mesma ideia, sobre o que você chama de verniz de altivez. No que se refere à Lei Áurea, acompanhando a data de 13 de maio, pode-se dizer que o movimento negro a vem questionando há bastante tempo. Esse ano, essa verve, essa mania de transformar a efeméride num grande gancho, numa celebração, parece que não pegou tanto. Ficou muito claro que não há o que celebrar. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. Não dá para esquecer (o marco de 1888), mas é preciso relembrá-lo pela chave da crítica. Continuamos com um país que produz um racismo estrutural.

Um questão que está na ordem do dia, com posicionamentos pró e contra, é a da "dívida histórica"? Quando se começa a falar de uma dívida da sociedade brasileira para com a descendência de africanos e indígenas que foram escravizados?

É possível dizer que havia esse debate já no contexto da abolição. A Lei Áurea é muito conservadora, mas existiam projetos distintos à época, uns ainda mais conservadores. Caso dos indenizenistas, dos grandes proprietários de escravos, que defendiam o direito de serem indenizados. Existiam também projetos que demandavam uma atenção maior, pós emancipação, com ações de inclusão. A Lei Áurea foi uma opção para não desagradar de todo, nem esses nem aqueles: não deram a indenização, mas não fizeram nada por essas populações. Queriam que as populações negras permanecessem nessas propriedades, mesmo que sob outro regime. Ainda não existiam as determinações trabalhistas, que viriam mais tarde, na Era Vargas. A ideia era, de alguma maneira, perpetuar a escravidão. Nesse momento, tinham as primeiras vozes. Lima Barreto, um autor que estudei bastante, não demandava uma indenização, mas a todo momento falava de um Brasil mais justo, mais republicano. No "Dicionário", o texto de Petrônio Domingues, sobre o "Associativismo negro", mostra existência de clubes negros, de associações, que tinham papel de demanda muito forte, antes de mais nada, por inclusão social. E isso vai ganhando vulto até chegar aos anos 70, com o movimento negro, e, agora, com o papel fundamental do movimento feminista negro.

Muito se tem falado do lugar de fala, da importância de histórias contadas por seus protagonistas. Qual tem sido o papel dos historiadores negros no estudos sobre a escravidão?

É um papel muito forte e fundamental. Os historiadores negros vieram com questões, com problemas, da maior relevância, que têm a ver com sua própria experiência de discriminação numa sociedade que é racista. O "Dicionário" é organizado por um historiador negro e uma historiadora branca. Tenho defendido um ativismo contra o racismo. Defendo a ideia de que o racismo é uma das maiores questões de nossa agenda republicana. Falhamos como república se não conseguimos incluir negros e pardos, que representam a maior parte da população do País.

Por outro lado, vemos um questionamento de determinadas ideias predominantes entre historiadores e um clamor por certo revisionismo. Entram em campo relatos que por vezes são falsificações. Como o historiador se posiciona diante deste desafio? Ele é novo, ou é um inimigo antigo?

Olha, primeiro, vou trocar o termo inimigo. A democracia é feita de diferenças. Pregar para convertidos é fácil, mas democracia é lidar com a diferença. Então prefiro falar em adversários. Dito isso, posso dizer que o "Dicionário" é uma forma de reação. A academia está acordando. Num primeiro momento, uma leva de jornalistas fez uma bibliografia (historiográfica) de revisão. Não me oponho a ela. Acho importante e há trabalhos muito bem feitos, como o do Lira Neto. O problema é que muitas vezes os jornalistas não vão aos documentos. Mas o momento que estamos vivendo agora é de uma historiografia que falseia os documentos. Devemos combater de que forma? Com trabalhos que o público consiga ler. No "Dicionário", colocamos a bibliografia no final e limitamos a 10 referências por autor. Todos também permitiram que editássemos fortemente os textos, pra não ficar aquela conversa de banca, que só especialista entende. Acho que a academia está amadurecendo nesse sentido, de estar nas mídias, de responder, com seriedade e também sem se deixar entrar numa provocação.

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