remontagem

Para comemorar no palco

Comédia Cearense remonta a peça "O Morro do Ouro" e faz temporada de quatro dias no TJA

Ensaio da peça em 1971, com Jorge e Teca Mella (com os rostos próximos) ( Foto: arquivo pessoal )
00:00 · 14.09.2017 por Roberta Souza - Repórter
Nova montagem de "O Morro do Ouro", com atores selecionados após testes de elenco; ao lado, texto da peça e trilha sonora da versão de 1971 ( Foto: Mel Audi/Div. )

Não é difícil para Haroldo e Hiramisa pensarem em um presente quando se trata da comemoração do aniversário de 60 anos da Comédia Cearense: "é o público!", respondem os dois simultaneamente. O encontro do casal com quem prestigia o trabalho da família Serra nos palcos desde setembro de 1957 está marcado para a noite desta quinta-feira (14), a partir das 20h, no Theatro José de Alencar. Até domingo (17), eles estarão em cartaz com nova montagem da peça "O Morro do Ouro", uma das mais encenadas e premiadas da Comédia durante todos esses anos.

O texto de Eduardo Campos, que inclusive dá nome ao teatro anexo ao TJA, é um marco da dramaturgia local e atravessa a história do grupo sexagenário, que fez a primeira encenação da obra em 1963. A peça expõe o cotidiano da comunidade Morro do Ouro, uma das primeiras favelas de Fortaleza, e, por isso mesmo, como aponta Haroldo, "é um espetáculo de cunho social, que tem preocupação com a dificuldade de sobrevivência do cearense e do brasileiro de modo geral. É preciso chamar a atenção do público para o que acontece nos bairros periféricos", defende o diretor do longevo grupo.

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A dinâmica de personagens como a prostituta Madalena, o contrabandista Zé Valentão, o bodegueiro Seu Patrício, o apontador de "jogo do bicho" Ezequiel, o "Aleijado" e a esposa, a monitora e as assistentes sociais da Aldeota, tanto refletem como ironizam a realidade retratada. A denúncia do abandono e dos preconceitos se mesclam a aspectos cômicos, como as falsas promessas da campanha política do Dr. Gervásio e a pesquisa das garotas da Aldeota, que se dá num clima de falso puritanismo e ausência de solidariedade com o povo.

Mas é a visita de Dona Elvira, mãe de Madalena, à comunidade que orienta o desenrolar da peça. Seu fervor religioso provoca mudanças no Morro, e especialmente na personalidade da filha, numa espécie de "milagre" cuja leitura é polêmica e questionável, mas não foge à ironia do autor do texto. Para Haroldo Serra, a preocupação em preservar e divulgar um cearense como Eduardo Campos é mais um motivo que dá à peça "O Morro do Ouro" seu lugar na comemoração dos 60 anos da Comédia.

"Essa foi a peça mais encenada do teatro cearense; ganhou festivais, prêmios de júri popular e de comissão julgadora. Fomos convidados até para ir a França com ela, para o Festival de Nancy, mas não pudemos participar porque eram 35 passagens a pagar. O 'Morro do Ouro' é um espetáculo que sempre foi muito bem recebido não só pela crítica, mas também pelo público. Foi apresentado no Rio, em São Paulo, e em mais de 50 municípios cearenses", relembra Haroldo, diretor da primeira montagem e também desta de 2017.

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Musical

Mas não é exatamente o formato de 1963 que o público irá conferir no palco do TJA. Na verdade, é uma versão mais parecida com a de 1971, quando a peça ganhou status de musical, com trilha sonora produzida pelo cearense Belchior e seu parceiro piauiense Jorge Mello. No elenco, Jorge também era protagonista.

"Há 47 anos, eu e Belchior escrevemos a trilha sonora. Eu dirigi o espetáculo na parte musical, com banda ao vivo, em cena com 40 atores. E fui o principal personagem masculino, Zé Valentão. A Teca, minha mulher, fez a prostituta do bairro. Nos conhecemos e nos apaixonamos no palco. Tivemos um empurrãozinho da própria direção. Tudo isso gerou esse caso de 47 anos entre eu e Teca", recorda Jorge Mello sobre a linha tênue entre o teatro e a realidade.

Ele, que hoje mora em São Paulo, esteve em Fortaleza em agosto, acompanhando ensaios da peça e sugerindo algumas mudanças na trilha. "As montagens que aconteceram por todos esses anos foram modificando as melodias e principalmente as harmonias que criei no original. Coisa muito comum e natural. Ao ouvir o elenco durante minha passagem por Fortaleza, dei meus pitacos. E passei ao maestro e diretor do coral as melodias originais e também as harmonias conforme escritas em 1971. Algumas canções estavam com sentidos de dramaticidade bem distintos", conta.

Elenco

Depois de tantas montagens e diferentes atores encenando os personagens da peça "O Morro do Ouro", Haroldo resolveu fazer diferente nesta versão comemorativa.

"A gente não buscou em nosso elenco os intérpretes. Tivemos como objetivo revelar novos atores, então fizemos teste de seleção para ver qual cantava e representava melhor", conta o diretor. Dessa vez, Zé Valentão será vivido por Amenhotep Rodrigues, e Madalena por Carolina Geraldo. No entanto, uma atriz sustenta o mesmo papel desde 1963: Hiramisa Serra. "Estou nessa versão fazendo o mesmo personagem que fiz na primeira montagem, a mulher do 'Aleijado'. É um casal que pede esmola na esquina do Morro do Ouro. E a minha personagem é atemporal. Já passaram muitos 'Aleijados' pela minha vida lá", recorda.

A casa escolhida para a comemoração destes 60 anos também não poderia ser outra. "O cenário do espetáculo é o próprio TJA. A peça começa no hall do teatro, depois adentra para o palco. A gente usa ele como um todo para representar o Morro do Ouro", observa Haroldo.

Fazer parte dessa história é motivo de orgulho para o piauiense Jorge Mello. "O casal Haroldo e Hiramisa Serra me inspirara sempre. Sou muito grato por ser parte dessa história de sucesso. Sou fã do trabalho desses dois ex-colegas de classe na Faculdade de Direito da UFC. E sei que poucas pessoas têm tantas memórias de sucesso e tantas histórias de realizações que por mais importantes que sejam, ainda são menores que o seu talento de atores e de artistas", conclui.

Mais informações:

Espetáculo "O Morro do Ouro", Comédia Cearense. De 14 a 17 de setembro, às 20h, no TJA (R. Liberato Barroso, 525, Centro). Ingressos: R$ 30 (inteira). Classificação: 14 anos.

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