Paisagens de Burle Marx sobre o papel - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Exposição

Paisagens de Burle Marx sobre o papel

12.09.2012

Desenhos do arquiteto paisagista brasileiro Roberto Burle Marx estão em exposição na Caixa Cultural

A exposição reúne desenhos do paisagista, de 1932 a 1942, agrupados em duas fases distintas

Alguns talvez já conheçam o lado polivalente de Roberto Burle Marx - que, além do trabalho inovador como paisagista, pelo qual fez-se conhecido internacionalmente, ensaiava desde cedo traços na pintura, no desenho, transitando por diversos estilos e influências. Inaugurada na noite de ontem na Caixa Cultural Fortaleza, a exposição "Roberto Burle Marx... Cenas" reúne parte pouco divulgada desta produção, cunhada entre 1932 e 1942, trazendo ao público um recorte específico, que tem o Pernambuco como pano de fundo de paisagens que retratam, de maneira mais ampla, o nordeste brasileiro.

São 75 desenhos em papel que utilizam nanquim, grafite e giz de cera, marcados ora pelo estilo solto de tom expressionista, ora pelo abstracionismo, onde ruas, prédios, lagoas e jangadas - cenas bucólicas de Olinda e Recife - são povoados por lavadeiras, pescadores e operários e formam um belo mosaico de tipos populares da primeira metade do século.

Menos pelo registro de época ou pela qualidade artística, as obras são preciosas por revelar um pouco mais da natureza deste gênio que, respondendo pelo lado do paisagismo, ao lado de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, fortaleceram as bases de uma arquitetura brasileira moderna.

Bem histórico

Guache pintado entre as décadas de 1930 e 1940 retratando tipos populares em cena cotidiana. Detalhe para a presença de espécies nativas de plantas

Os desenhos foram retirados de um acervo de mais de três mil peças do Sítio Roberto Burle Marx (sendo 1589 desenhos), todas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a quem a propriedade e todo seu acervo foram doados pelo próprio Burle Marx, em 1985.

De acordo com a curadora da exposição e também arquiteta do Iphan, Yanara Costa Haas, as obras revelam sobre a origem do paisagista, filho de um alemão e uma pernambucana - musicista e apaixonada por jardins - que já aos nove anos de idade vai à Alemanha para tratamento médico, onde é iniciado nas duas artes, o que resultaria, na maturidade, em seu maior legado. "Lá, ele tem contato com uma botânica brasileira e recebe aulas de desenho. Quando ele volta ao Brasil, em torno de 1920, já tem uma série de retratos e nus, só que de uma estética mais acadêmica", contextualiza Yanara.

A viagem para Pernambuco na década seguinte, explica a curadora, lhe serve de estudo sobre as espécies de plantas nativas e de inspiração para a série que retrata um segundo momento de sua pintura. "De nove aos vinte anos, ele atua mais como um retratista. Essa fase já tem mais liberdade no seu traço, na cor, já se solta um pouco da academia e começa a mostrar o paisagismo", analisa.

Entre os mestres que influenciaram a pintura de Burle Marx estão o alemão Léon Putz e o brasileiro Cândido Portinari, dos quais recebeu aulas. Na década de 1930, Burle Marx cursou ainda a Escola Nacional de Belas Artes (hoje Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

As obras, em sua maioria sobre papel, incluem técnicas como pastel (na reprodução acima), nanquim, grafite, aquarela e giz de cera fotos: Rodrigo Carvalho


Ao longo da década, ao passo que começa a destacar-se por seu paisagismo diferenciado - que rompe com modelos europeus e utiliza espécies de plantas tropicais - o arquiteto paisagista começa também a mudar seu traço.

Uma sala à parte da exposição reúne um momento bastante diferenciado dessa produção. "Eu coloquei na parede próxima à segunda sala um prenúncio da abstração. De uma fase cubista, que eu trouxe apenas uma amostra, e a fase em que inicia a abstração", detalha a curadora.

Uma outra fase de sua pintura, explica Yanara, que também não está inclusa na exposição, mostra um mergulho ainda mais intenso no abstracionismo, que se diferencia dos desenhos da década de 1940 pela presença marcante das cores.

Galeria

Recém-inaugurada, a Caixa Cultural Fortaleza receberá atrações em diversas linguagens, incluindo uma programação nacional escolhida via edital. A exposição sobre Burle Marx, pontua a curadora, foi elaborada exclusivamente para o centro cultural de Fortaleza, onde segue em cartaz até do dia 14 de outubro.

Daqui, ela vai para o Rio de Janeiro. A visitação é gratuita e está aberta ao público de terça-feira a domingo, de 10 às 20 horas. Um catálogo com reproduções e informações sobre as obras é também oferecido ao visitante.

Mais informações

Exposição "Roberto Burle Marx... Cenas", em cartaz até 14 de outubro na Caixa Cultural (Av. Pessoa Anta, 287 - Praia de Iracema).

Contato: (85) 3453.2750

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