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"Animação brasileira - 100 filmes essenciais" deve ser lançado em junho, no festival Annecy, na França

O longa "O menino e o mundo", eleito a melhor animação brasileira pela Abraccine
00:00 · 03.01.2018 por Iracema Sales - Repórter
De cima para baixo: curtas "Kaiser" (1917), de Álvaro Marins, e "Meow" (1981), de Marcos Magalhães; e o cearense Diego Akel trabalhando no filme

A existência de apenas um fotograma do curta-metragem comercial "Kaiser", criação do cartunista Álvaro Martins, de 22 de janeiro de 1917 - considerado o marco oficial do cinema de animação nacional - denuncia a falta de preservação da memória artística brasileira. Com o objetivo de garantir a continuação dessa história, iniciada há um século e de maneira artesanal, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e o Canal Brasil organizaram o livro "Animação brasileira - 100 filmes essenciais".

> Muito filme, pouca pesquisa 

O primeiro passo para a materialização da ideia foi a recente divulgação da lista contendo os nomes das 100 obras escolhidas, mediante avaliação de 50 críticos. A seleção conta com quatro produções cearenses: o premiado "Vida Maria", de Márcio Ramos; "Campo branco", de Telmo Carvalho; "Fluxos" e "Linhas e espirais", de Diego Akel. A animação brasileira vive bom momento e sua produção não se restringe apenas a longas-metragens premiados, mas também trabalhos experimentais e para TV, a partir de diferentes técnicas (desenho tradicional, computação gráfica, 3D), conforme explica Márcio Ramos, autor de "Vida Maria".

O lançamento do livro está previsto para acontecer durante o Festival de Cinema de Animação de Annecy (França), em junho de 2018, segundo Paulo Henrique Silva, presidente da Abraccine, que divide a organização da publicação com Gabriel Carneiro. Desde 2016, a Abraccine firmou parceria com o Canal Brasil no sentido de lançar publicações sobre a história do audiovisual brasileiro.

O primeiro, estreando a coleção em 2016, resgata os 100 melhores filmes brasileiros, incluindo curtas, documentários e longas. No ano passado, foi a vez dos 100 melhores documentários. Agora, a nova publicação cumprirá o importante papel de resgatar a trajetória de um século da animação "made in Brasil", sob a responsabilidade da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA) e do grupo editorial Letramento.

Mídias

A trajetória da animação brasileira não começou com "Uma história de amor", de Luiz Bolognesi, ou com "O menino e o mundo", de Alê Abreu, adverte Pedro Henrique Silva, em fala entusiasmada sobre o tema. Ele destaca o esforço da ABCA para impulsionar o gênero. Nos últimos anos, graças ao apoio que vem sendo recebido, é possível projetar uma nova história para a animação brasileira.

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 "Fluxos" "Sinfonia Amazônica", primeiro longa-metragem animado da história do Brasil, realizado por Anélio Latini Filho, em um trabalho hercúleo que durou cinco anos

Nos últimos anos, a produção foi expandida para as séries de televisão, algumas inclusive campeãs de audiência. Mas essa trajetória começou de fato no cinema. Historicamente, a telona foi o principal meio de veiculação dos filmes de animação, hoje em processo de migração para as emissoras de TV, em especial os canais fechados.

A seleção do livro ficou a cargo de uma equipe composta por associados, críticos e convidados da Abraccine. A publicação constará de textos a serem escritos por cada um dos pesquisadores e críticos convidados, além de 20 ensaios históricos sobre o gênero documentário, nas mais diversas facetas - entre elas a animação erótica, o protagonismo da mulher, sarcasmo e humor negro.

O presidente da Abraccine ressalta o nível alcançado pela animação brasileira, nos últimos anos, citando "Meow!", produção realizada em 1981 pelo diretor Marcos Magalhães, que ganhou importante prêmio, possibilitando temporada de estudos no Canadá, um dos centros de referência para o gênero no mundo.

O livro traz animação de diferentes épocas, remontando aos anos 1920 e 1940, como "Macaco feio... Macaco bonito... (1928), de João Stamato e Luis Seelo, e "O dragãozinho manso: Jonjoca" (1942), de Humberto Mauro.

O icônico "Sinfonia Amazônica" (1953), de Anélio Latini Filho, primeiro longa de animação brasileira, também figura na seleta lista, bem como as criações dos premiados Otto Guerra "Novela" (1992) e "A princesa e o robô" (1983), de Maurício de Sousa. São eles, aliás, os dois artistas mais premiados do livro.

Pedro Henrique afirma que os critérios para a escolha dos 50 filmes por cada votante foram subjetivos. Os 100 integrantes da Abraccine, que participaram da primeira seleção, tiveram de assistir a 100 filmes, sendo feito um cruzamento de informações no final.

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