E-books

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02:45 · 07.05.2012
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Os livros digitais se mostraram um território fértil para editoras e autores independentes

O novo iPad chegou às prateleiras das lojas de dez países em meados de março - no Brasil, na próxima sexta-feira. Em apenas três dias, 3 milhões de unidades já haviam sido vendidas - pelo menos três vezes mais do que no lançamento, um ano antes, do iPad 2. Um desempenho que leva analistas como Gene Munster, da Piper Jaffray, a projetar que a Apple pode comercializar 66 milhões de iPads em 2012.

Ao mesmo tempo, e-readers também ganharam mercado. Pela primeira vez, na Amazon.com, os livros digitais para Kindle superaram os livros de papel nas vendas. É difícil prever se o iPad manterá sua supremacia no coração dos adictos por tecnologia ou se um outro e-reader pode desbancar o Kindle, entretanto não há dúvidas de que o consumo de conteúdo digital só tende a crescer.

A popularização dos livros eletrônicos e da internet está transformando não apenas a indústria de dispositivos móveis. Ela também mexe com as estruturas de livrarias, editoras e distribuidores, além de configurar novas relações dessa cadeia com seus autores e leitores em todo o mundo. Engana-se quem pensa que o Brasil se mantém alheio a esse movimento.

Os números ainda são tímidos, mas animadores. Dados recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pela Ibope Inteligência, indicam que os leitores de livros digitais são apenas 5%. Mas esse mínimo percentual representa 9,5 milhões de adeptos - um contingente maior do que toda a população de países europeus como Suíça e Dinamarca.

Por enquanto, os e-books não são muito populares, afinal 82 % dos leitores afirmam nunca terem lido um. Porém, a avaliação de quem já teve contato com livros digitais justifica o otimismo. Somente 6% dos entrevistados não gostaram da experiência. A maioria, 54%, gostou muito e outros 40% gostaram "um pouco". Quando perguntados se poderiam vir a usufruir da tecnologia de livros digitais, 48% dos leitores responderam positivamente. "Comprei o tablet há pouco tempo e ainda não tenho muitos títulos, mas venho pesquisando e já vi trabalhos incríveis", comenta o engenheiro Júlio Feitosa. Pai de dois filhos, já deixa o mais novo, de 9 anos, se aventurar de vez em quando no tablet.

O interesse das gerações mais novas também aparece na pesquisa do Instituto Pró-Livro. Se a média geral de penetração dos e-books é de 5%, esse número sobe para 7% na faixa etária de 14 a 17 anos e chega a 12% entre a população de 18 a 24 anos. Alguns nomes do mercado, como Eduardo Melo, fundador da Simplíssimo Livros, acreditam que, ao que tudo indica, estamos próximos da massa crítica para o mercado de e-books. A venda de e-books no Brasil começou em dezembro de 2009, quando a livraria Gato Sabido disponibilizou 300 títulos em português. Entre março e abril do ano seguinte, Saraiva e Cultura aderiram ao formato, mas as editoras não se empolgaram. Em abril de 2011, o número de e-books em português não passava de 3 mil títulos. No último mês de janeiro, a Simplíssimo voltou a levantar números e constatou crescimento mais acelerado de títulos e vendas.

Autopublicação

Somente na pioneira Gato Sabido, estavam disponibilizados 7.292 títulos em português. A Saraiva aparece com 6.058 e-books e a Amazon com 3.849. Considerando que a Amazon possui um catálogo de e-books diferenciado das outras livrarias e que as livrarias brasileiras não oferecem as mesmas obras entre si (haja visto os desvios na oferta de títulos das editoras em cada livraria), segundo a Simplíssimo, é possível afirmar que há pelo menos 11 mil e-books disponíveis em português.

Ainda são poucas as editoras que oferecem conteúdo na Amazon, e os títulos em geral são de domínio público ou publicados diretamente por autores. "Muitas pessoas que eram ´autores de gaveta´ não tinham recursos para auto publicação, que em uma editora custaria uns R$ 2 mil e o autor ainda teria que se virar para comercializar", afirma Antônio Hércules Júnior, proprietário da PerSe, portal de publicação para autores independentes, lançado no mês passado. Hoje, com plataformas de publicação web, é possível o autor preparar o conteúdo, a arte, escolher o formato do livro, papel e quanto deseja receber de royalties, sem ter custo algum. Na PerSe, o produto é colocado à venda em versão digital em mais de 30 sites. Na loja online da própria empresa, o livro pode ser impresso e entregue diretamente ao leitor, que arca com as despesas. "É uma boa alternativa para autores independentes".

Leonardo Simmer percebeu isso ainda na universidade, quando escolheu como tema de monografia as novas possibilidades do mercado editorial com a internet e a impressão digital. Em 2008, dois anos após se formar, montou junto com cinco amigos a editora Multifoco, que, sem cobrar nada do autor, imprime a obra conforme a demanda. Com cerca de 50 títulos disponibilizados por mês, o acervo já passa de 1 mil livros.

Diferente das editoras convencionais, a Multifoco aposta em muitos autores que vendem pouco. São cerca de 800, atualmente. O modelo enxuto faz com que a jovem editora fature cerca de R$ 1 milhão por ano. Os livros podem ser encontrados na loja virtual da empresa, na Livraria Cultura e na Livraria da Travessa.

Os escritores independentes já têm até em quem se inspirar. A escritora americana Amanda Hocking se tornou um fenômeno de vendas sem a ajuda de nenhuma editora. Considerada o "Paulo Coelho da internet", pela temática de seus livros, a jovem de 27 anos emplacou sete títulos na lista dos 150 mais vendidos do jornal USA Today em 2011.

Ela aprendeu a publicar seus livros em formato eletrônico e, após nove meses, contabilizou mais de 1 milhão de downloads na Amazon e App Store, da Apple. Apesar dos preços baixíssimos - um deles, "My Blood Approves" ("Meu Sangue Aprova"), a apenas US$ 0,99 - a autora já se sustentava com a literatura antes de assinar com uma editora. O valor do contrato com a St. Martin´s Press: US$ 2 milhões.

Bem longe das cifras e do estilo de Amanda, a psicóloga carioca Regina Araújo dá seus primeiros passos na publicação pela internet. A inspiração para escrever veio em meio a um repouso forçado após nove cirurgias. Ao vencer vários concursos literários com suas poesias e escrever um romance, decidiu buscar as editoras para lançar seu "Confrontos de uma Psicofêmea". "Mas os custos eram muito altos", conta.

Nessa época, Regina recebeu uma mala direta de uma empresa de publicação web e resolveu arriscar. Para ela, que lançou o livro em janeiro, o único porém da internet é a falta de hábito do brasileiro com e-books. Por isso, acabou bancando a impressão dos livros - mas ainda assim o custo foi bem inferior, e ela já conseguiu comercializar mais de 50 exemplares e tem outros 40 reservados.

Novidades no mercado

Um mercado que ainda engatinha no Brasil, mas que tem muito espaço para crescer. Para quem está investindo, tudo é questão de tempo. "O leitor também ganha porque tem mais opções e o preço também é mais interessante do que nas grandes editoras, que cobram quase o mesmo valor que o do livro de papel", avalia Antônio Hércules Júnior, da PerSe.

Grandes players do mercado já estão de olho nesse mercado. Entre especulações sobre a chegada da Amazon no Brasil, a Kobo anunciou recentemente sua futura entrada no mercado de livros eletrônicos no Brasil. Além da loja de livros digitais, a empresa irá oferecer seu leitor digital, que leva o mesmo nome. A comercialização deve ser iniciada até o final do terceiro trimestre.

Serão disponibilizados livros gratuitos e pagos, mas seu diferencial é que todos estarão em formato aberto, o que permitirá a leitura em outras plataformas com suporte ao formato, como o Kindle, da Amazon, e o iBooks, da Apple. O próximo passo é esperar para ver como as editoras encararão a possibilidade de livre distribuição de arquivos e que impacto isso trará aos preços.

MÔNICA LUCAS
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

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