Espaço Cultural Unifor

Outro legado de Candinho

04:01 · 26.10.2012
Se as obras de Portinari são uma herança ao povo brasileiro, também seu filho, João Cândido, faz parte dela

Na manhã de ontem, no auditório da biblioteca da Universidade de Fortaleza (Unifor), um homem apresentava seu pai. Mas não se detinha à sua conduta, formação profissional, quantas aulas ministrou ou com quantos prêmios foi galardoado.

João Candido Portinari: "Se eu pudesse resumir a obra de Portinari em uma só palavra seria ´amor´. Parece piegas, mas ele amou o mundo e, principalmente, esse país ao seu modo, a partir da sua pintura" FOTO: VIVIANE PINHEIRO


Ao contrário, o palestrante se preocupava em difundir, sem meias palavras, o aspecto mais íntimo de um sujeito: seu modo de ver o mundo. O pai daquele homem via a realidade com cores e formas tão sofisticadas, que se fazia mister revelá-las, assim, em público.

Com seus matizes e luzes geométricas, o pai de João Candido Portinari ajudou a redefinir um Brasil que, de tão exposto a desgastes sociais e políticos, perdia seus tons. E então se compreende o quanto o país precisava que aquele homem se dedicasse à figura do pai. Afinal, como não falar de Candido Portinari (1903 - 1962).

Ontem, o auditório da biblioteca da Unifor recebia a palestra "Do Cafezal à ONU", em que João Candido se reveza em apresentar um pouco da história da família de seu pai, as primeiras obras e aquelas que ganhariam projeção mundial, como os painéis "Guerra" e "Paz", produzidos sob encomenda para presentear a ONU. O pesquisador divulga o trabalho que vem realizando há mais de 30 anos, intitulado Projeto Portinari. No Espaço Cultural Unifor, está em cartaz uma exposição de parte deste acervo, com estudos preparatórios para os painéis.

O objetivo da iniciativa é catalogar e expor aos brasileiros a intensa produção de Cândido Portinari, o pintor paulista, natural de Brodowski, que se tornou universal representando sua aldeia, seja em pequenos estudos a grafite e crayon, seja em painéis monumentais.

Quem é esse povo?

Entre fins da década de 70 e o início dos anos 80, o Brasil ensaiava a abertura política e, com ela, começava a se instalar um sentimento coletivo de retorno às origens e de busca de uma identidade nacional.

"Em 1978, visitei o Museu Van Gogh, na Holanda. E quando eu chego, eu vejo aqueles quatro andares repletos de gente, idosos, crianças, jovens, todos se acotovelando... E não havia neles um olhar intelectual ou técnico. E eu achei que eles estavam ali, na verdade, para ganhar uma injeção na veia, uma injeção de identidade. Eram quatro andares de Holanda. E naquele momento eu sai pensando que pintores brasileiros também retrataram o Brasil e que Portinari dedicou sua vida a isso".

Aquela passagem foi a inspiração que o filho precisava para se dedicar a um trabalho de detetive: encontrar e reunir em catálogo todas as obras do pai. "Nunca tivemos originais. 95% da obra de Portinari pertence a particulares", explica.

A exposição com 52 estudos para os painéis Guerra e Paz, produzidos durante quatro anos, inaugurada na noite de ontem, na Unifor, também é fruto de muitas negociações. "É o modo que encontramos de fazer a obra de Portinari chegar àqueles que ele retratou: trabalhadores, pescadores, músicos, boêmios, crianças, índios, retirantes, mães...", justifica João Cândido. Portinari faleceu em 1962, vítima de envenenamento pelas tintas com que criava suas obras primas.

Em 59 anos de vida e 49 dedicados à pintura (já que se iniciou nas artes plásticas com apenas 10 anos, ajudando na restauração da capelinha de Brodowski), Candido produziu mais de cinco mil obras, todas inspiradas, de algum modo, em seu país.

E se o povo brasileiro teve a sorte de ter sido representado compulsivamente por Portinari, pode-se dizer que somos ainda mais sortudos, porque seu filho decidiu retirá-lo da sombra das coleções particulares e nos apresentar a ele.

Mais informações:

Exposição "Guerra e Paz, de Portinari (estudos)". Em cartaz, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321). Visitação aberta ao público, de 26 de outubro a 20 de janeiro (de 2013).
Estacionamento livre no local. Contato: (85) 3477.3000

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER

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