LITERATURA

Outra ficção científica

Autor revisa história do gênero literário e adianta seu nascimento em dois séculos

00:00 · 12.07.2018 por Ivan Finotti - Folhapress
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O escritor e crítico britânico Adam Roberts: "existe material demais que podemos chamar de ficção científica nos séculos 18 e 17" ( Foto: Georges Seguin/Cc BY-SA )

O crítico e autor britânico Adam Roberts lança no Brasil pela Seoman "A Verdadeira História da Ficção Científica - Do Preconceito à Conquista das Massas", uma obra de 700 páginas na qual defende que o gênero nasceu muito antes de Júlio Verne, H. G. Wells ou Mary Shelley.

Segundo ele, a FC (ficção científica) é fruto da Reforma Protestante, que abre o pensamento humano para as ciências e relativiza os mandamentos bíblicos do catolicismo.

A primeira obra do gênero, diz Roberts, é "Somnium", do astrônomo Johannes Kepler, escrito por volta de 1600, mas lançado postumamente em 1634. No livro publicado no século 17, um sonhador vai à Lua carregado por um demônio e conhece seres das duas faces do satélite.

Excêntrica

O livro de Roberts detalha ainda obras de FC escritas por Cyrano de Bergerac e Voltaire. Ele diz que seus pares da crítica não abraçaram sua ideia de forma entusiasmada, preferindo manter a ideia clássica de que o gênero nasceu durante o século 19.

"A Verdadeira História da Ficção Científica", entretanto, vai muito além de apenas estabelecer uma nova origem para o gênero. Isso é feito em 140 páginas da obra.

Nas restantes, Roberts conta como as histórias sobre tecnologia ganharam popularidade nos séculos 18 e 19, chegaram às telas no 20 e traça um panorama do que está acontecendo com elas agora, no 21.

Perguntado sobre como teve essa ideia insuspeita, o escritor reconhece a estranheza de da proposta. "É uma forma polida de dizer 'excêntrica', não? Mas é verdade. Em geral, os historiadores localizam o início da ficção científica em 1818, com 'Frankenstein', ou com Júlio Verne e H. G. Wells no final do século 19. Ou ainda na explosão da literatura pulp americana a partir de 1926. Outros falam das novelas gregas antigas", frisa.

"O problema de todas essas argumentações é que existe material demais que podemos chamar de ficção científica nos séculos 18 e 17: viagens pelo espaço, robôs, invenções tecnológicas, especulações futurísticas etc. Busquei identificar o momento em que o que hoje chamamos de FC se separou da literatura fantástica. E acredito que isso tenha acontecido na Reforma", completa o escritor.

Um dos momentos citados por Roberts, e por ele considerado fundamental, é a morte de Giordano Bruno na fogueira, em 1600. "Acho que foi sintomático. Giordano Bruno desafiou a ortodoxia católica com uma visão de universo infinito, e foi queimado na fogueira", aponta.

"As disputas culturais nessa época eram um fenômeno maior do que apenas um homem, mas ele resume o cabo de guerra: um lado tentando preservar o velho conceito mágico-religioso do universo e o outro querendo abrir o cosmos para a ciência no sentido moderno. E tentando substituir o sublime mágico do catolicismo medieval pelo sublime material do Renascimento e da investigação científica".

Marco

Essa revisão histórica foi um desafio par ao próprio autor. "Costumava achar que a FC tinha começado com o 'Frankenstein' de Mary Shelley. Inclusive, o primeiro livro crítico sobre ficção científica que escrevi argumentava nesse sentido. Mas, quando minha editora me chamou para escrever essa obra mais extensa, tive que olhar mais detidamente o assunto. E pensar o que fazer com tantos exemplos de FC que existiam antes de Mary Shelley. Foi isso que me fez reconsiderar opiniões", recorda.

Para Roberts, o que mudou no gênero a partir de Júlio Verne e H. G. Wells foi seu potencial. "Por anos, a FC havia sido um gênero interessante, mas de pequena escala. Com eles, o gênero ganhou uma popularidade inédita. Além disso, entre as décadas 1870 e 1930, novas tecnologias de produção de livros e de distribuição contribuem para disseminá-los", avalia.

Lançado em 2006, o livro ganhou uma grande ampliação há dois anos, e é essa edição que chega ao Brasil. Sobre a recepção dos colegas, Roberts é resignado: "Diria que a maioria dos acadêmicos e estudiosos de literatura do gênero continua... Não convencida".

Livro

A Verdadeira História da Ficção Científica

Adam Roberts

Tradução: Mário Molina
Seoman
2018, 704 páginas
R$ 75

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