Ensaio

Os signos: as relações com a fenomenologia

00:00 · 23.11.2014

Podemos dizer que tanto o ato da criação do artista como o olhar do observador sobre a obra são frutos desse processo de devir, que se inicia com a apreensão sensitiva de um fenômeno, findando em pensamento.

Dito de outra forma, uma experiência estética, onde o conhecimento efetivo é resultado de um estado de percepção aguçado e só depois racionalizado, como preconizou Baumgarten.

Feita a reflexão de signo/significado, voltemos a investigar sobre a força de abrangência de "O Grito", obra notoriamente simbólica.

A apropriação natural da imagem pela cultura ocidental nos leva acreditar em momento único vivenciado por Edvard Munch que resultou na sua mais famosa pintura. A despeito de sua experiência de vida particular, o artista parece ter experimentado o que Jung denominou de (Texto III):

O êxtase

Consciente e inconsciente coletivo se fundem culminando no êxtase artístico. "O Grito" parece materializar, portanto, uma manifestação arquetípica por meio do artista. São as reconhecidas frações humanas dispersas desde os primórdios por gerações e gerações da espécie. Porém, sobrevivem inconscientemente como arquétipo e que quando acessadas, via artista e sua obra, tocam profundo não no indivíduo, mas na humanidade. "O Grito" parece falar por nós e para nós mesmos.

Estar no mundo e se relacionar com ele são um passaporte para o espanto, para o assombro. E a representação de Edvard Munch, apesar de partir de uma experiência tão particular, tem potencial de propiciar a nós observadores uma experiência estética.

Podemos ser acometidos de espanto pela imagem num instante fugaz de dor ou prazer, levando-nos em seguida à tentativa de compreensão de tal sentimento. Senão, vejamos.

Releituras

Como é curioso observar a figura de "O Grito" sendo comumente replicada em situações as mais diversas possíveis, impensáveis até para o autor, e hoje divulgadas facilmente pela internet.

A miséria da seca no Nordeste é simbolizada pela charge onde um cacto assume a forma da figura que grita.

Tem muito mais: a possibilidade de um apagão na rede mundial de computadores, a cotação da moeda dólar em movimento de subida ou queda vertiginosa, desastres ambientes como o recente de Fukushima no Japão e até a divulgação pela indústria de cinema americana em produções como "Simpsons" e "Esqueceram de Mim". Nos anos 60, a revista Time usou "O Grito" em capa quando abordou o tema dedicado aos complexos de culpa e ansiedade. É uma miríade de situações, das mais intensas às mais banais, que tem em comum o uso da mesma figura de horror de "O Grito" para se expressarem.

Os olhares

A reprodução da obra de Edvard Munch não é apenas imputada a pessoas criativas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. O próprio artista se valeu muito da técnica de gravura para reproduzir suas obras, inclusive "O Grito".

É claro que a intenção era outra, diferentemente de analogismos, já que as reproduções do artista tinham assumidamente um objetivo comercial. (Cf. PRELINGER & ROBISON: 2010: 02)

Vivendo bem da própria arte, Munch não só trabalhou em novos temas e estilos, mas também na reprodução de obras que se tornaram populares. É fato também que nem todas as reproduções resultavam apenas na transferência de uma mídia a outra. Muitas vezes o artista alterava sua interpretação da obra original. Assim aconteceu com o próprio "O Grito".

Considerações finais

Walter Benjamin em seu estudo sobre reprodutibilidade técnica se debruçou sobre a questão da perda da "aura" de uma obra artística ao ser reproduzida. O autor afirmou que cada reprodução faz perder a historicidade e a tradição de seu original, numa constante atualização do objeto reproduzido. Em paralelo, "a reprodução técnica pode colocar a cópia do original em situações impossíveis para o próprio original. Ela pode, principalmente, aproximar do indivíduo a obra". (Cf. BENJAMIN, 1994)

Sob a perspectiva de Walter Benjamin, a obra "O Grito" perdeu em autenticidade enquanto ganhou em autonomia. E por ter se tornado um símbolo do assombro já não sofremos tanto seu impacto estético, da mesma forma que se daria diante da sua original.

No entanto, mais de cem anos após a concepção do artista, "O Grito" se firma mesmo como uma imagem de caráter universal, capaz de permanecer sucessivamente na memória da humanidade.

Quanto ao seu recente valor de venda em leilão, vale ficarmos com a charge de autoria do chargista Amarildo, do jornal A Gazeta (ES), e também divulgada pela internet.

Eis a cena espetacular: ao lado da informação "O quadro 'O Grito' de Edvar Munch foi vendido por US$ 120 milhões"; sendo assim, surge a reprodução da referida obra com a inserção de um balão de texto expres

Trechos

TEXTO III

"Complexo autônomo", um estado de consciência em que o "eu" e o "eu mesmo" formam um só. (1991: 67)

SAIBA MAIS

FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneios. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.

VELÁZQUEZ, Carlos. Cada nota deve morrer. Textos didáticos da disciplina de Estética do Curso de Belas Artes da Unifor. 2011..

SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1983.

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